Sunday, February 20, 2011

Cascas

Outra vez me peguei: quis te ligar pra falar que Cascas (Josep Casanovas) me contactou, com o assunto "por fim te encontré, soy Cascas". É muito curioso isto: primeiro a Maribel, depois ele, reconectando uma amizade do começo dos anos 80, em Barcelona. Tudo porque souberam do que aconteceu contigo.

Apesar de toda loucura que foi aquela época- o álcool de puríssima qualidade, os fartos porros de haxi tão fácil de comprar em qualquer esquina (e lembra daquela vez que pintou o óleo? eu não fui nessa, mas vocês.... e ficavam rindo histéricos sobre nada deitados no hostal, e eu com ódio daquilo, preocupada em como seria o show de logo mais à noite- que acabou sendo ótimo...), apesar de tudo isso, mais os desentendimentos normais de quem viva junto dia e noite, temos história pra contar e boas lembranças, né? quantas viagens (só não fomos pra Ásia!!!!), quanto trabalho, e aquela galera de amigos fiéis que nos acompanhava pra cima e pra baixo todos os dias... e é por isso que quando recebo notícias da nossa "família" daquela época, fico feliz de poder reconectar com estas pessoas, como se eu tivesse sentido falta este tempo todo e não sabia....

Naquele tempo eu sabia nada de mim. Ce acredita que faz 30 anos, exatamente??? pois é... mas achava que sabia de tudo. Aliás, nós todos achávamos que conhecíamos muito bem o outro, e agora ce vê, como estamos distantes daquelas pessoas que éramos nós...

Mario Mario... que coisa absurda que te aconteceu. Por quê? por quê? por quê???????

Saturday, February 19, 2011

seria hoje

Mario, se esta tragédia? loucura? cataclisma? absurdo? sei lá como descrever este MAIOR ACIDENTE CLIMÁTICO REGISTRADO NO BRASIL em toda a sua história (e por que teve que atingir VOCÊ?????). Continuando ou recomeçando: se esta coisa não tivesse acontecido, seria hoje o nosso show no Valansi, uma casa super-bacana, um dia nobre, e que showzaço seria... se eu for me basear nos elogios que venho recebendo das pessoas a quem dou o nosso CD, nossa! ia ter gente fazendo fila lá fora pra entrar... e somando com os shows que fizemos em Friburgo, este show iria ser... iria ser.... iria ser...

Mas o que vou fazer hoje? você me pergunta. Vou me encontrar com o Adriano- sempre é bom encontrar com Adriano- média com pão na chapa na Manon, Rua do Ouvidor, depois zanzar pelo Saara, tá um pouquinho menos quente, mas fervendo ainda (sabe que desde que houve a tragédia, não choveu mais uma gota...), ir à análise (desde que ce se foi, tenho feito tres vezes por semana em vez de duas) e encontrar o Luiz e Milton na Cavé. A última vez que nos encontramos lá foi pra acertar os detalhes da minha compra do tão querido andar de cima de sua casa, casa bonita que ce arquitetou com tanto talento, tanto carinho, tanto esmêro, tão cuidadosamente, tão rica em detalhes, e que ficou tão aconchegante. Casa segura, firme, bem construída, e que não existe mais, nem o andar de cima, nem o de baixo, nem a cama, nem as janelas, nem a tábua corrida do piso, nem os azulejos coloridos do banheiro, nem o yamaha, nem o armário, nem o quadro da Hypatia, e nem você. Esmagados por uma avalanche de um morro inteiramente reflorestado por você há décadas, morro que lhe ajudei a reflorestar, mais de oitocentas mudas. Com tanto esforço. Tão sólido, tão aparentemente perene... e como ce amava este seu lugar, como ce se orgulhava de ter feito esta casa (e com toda a razão, porque era linda).

É muito difícil lidar com esta realidade tão chocante, tão radical, se eu ainda bebesse, iria estar enchendo a cara todos os dias e muito, pra escapar. Mas como não bebo uma gota faz dez anos (e você, meu querido, nove!!! lembra como nos orgulhávamos disto?), não tem jeito, é encarar isto de frente e aprender a conviver com este horror, embora sem entender, sem aceitar, sem me conformar, sem nunca mais voltar a ser o que era. 

Tem um ditado que diz: “nunca fale nunca”. Mas neste caso falo sim, falo NUNCA porque é NUNCA mesmo, falo sem medo de errar. A única coisa que pode nos dar a certeza que esta palavra está sendo dita com propriedade é a morte. A morte, que encerra nosso contato físico, nossas conversas audíveis (as mentais continuam, vide esta carta, mas é unilateral, não vou receber outra de resposta), nossa troca de experiências vivências observações palpites opiniões sugestões terrenas, nossos pequenos gestos de carinho ternura amor um com o outro, interagindo no dia-a-dia, construindo algo constante, vivo, ativo, se alimentando do presente aqui e agora acontecendo em nós, cada dia um passo, um degrau pro futuro, que não existe também... Nada disto nunca mais vai acontecer. 

Porém o amor está aqui, na jóia que é a minha lembrança de você. E ce vive em tudo isto que ce me deixou, que não é pouco. Portanto, meu amigo, continuemos. 









um mes

Hoje faz um mes que você morreu, meu querido. Nas enchentes de Friburgo.

Que loucura. É besteira tentar entender, é bobagem dar palavras aos sentimentos que ainda (e sempre) estão (e estarão) dentro daqui de mim, num lugar em que a razão não tem vez. A parte do meu cérebro que formula palavras tá dormente.

Foi tudo tão totalmente inexplicável, totalmente impensável, totalmente intraduzível, totalmente inaceitável, totalmente absurdo total.

Um dia cheguei em casa e por um instante me deu na veneta de te ligar, contando que encontrei a Lucinha (da Luli), e que falamos do que havia acontecido. No outro, por um segundo me passou pela cabeça de te reenviar o email tão carinhoso da Maribel lembrando de você, daquele tempo bom que passamos em Barcelona, e me dando forças pra suportar esta perda. Estes e vários outros exemplos que ainda me acontecem mostram como ainda a “ficha não caiu” pra mim... e poderia ser diferente? era um hábito de quarenta e tal anos eu ter você por perto, se não era junto, pelo menos era por perto, conectável, se quisesse, pronto. "Quem é vivo, sempre aparece".

Todo dia lembro de você, todo dia penso em você, todo dia sinto sua falta. E poderia ser diferente?

Mario, que loucura. Não dá pra acreditar!!!! de um dia pro outro, não vou te ver NUNCA MAIS, não vou falar contigo NUNCA MAIS. NUNCA MAIS, isto é que dói. Daqui pra frente, telepatia, vibração, pensamento e lembrança.

Uma vida arrancada do mundo, que nem uma árvore que se corta fora, um boi que se abate. Como se acostumar com este interrupção tão violento e radical? o que acontece com este sentimento todo que tá vivo, saindo de mim, procurando por você? não dá pra separar a vida em pedaços isolados, as marcas do que foi não são leves... ao contrário, o passado vai estar sempre presente, e tenho que aprender a transformar isto em algo doce e não tão doloroso.

Semana que vem, dia 17, era o dia do nosso show no Valansi!!!

Faz um mes que a gente não se fala!!!

Tanta coisa pra comentar contigo, tanta. Mas por agora, só estas cartas mentais.

Um mes. Pra este dia posto aqui a sua música que mais gosto, dentre tantas. Tem tudo a ver com este momento, eu e você.

ESTRÉIA (Mario Jansen)

E CADA DIA CHEGA A UM TERMO
A CADA DIA RECOMEÇA SEMPRE QUASE TUDO IGUAL
É ASSIM
BASTA UM LEVE SOPRO E QUANDO
SE VAI VER, JÁ É
E CADA NOITE TRAZ O SEU AMANHECER
É QUANDO TUDO SE DISFAZ
E SE REFAZ
PASSO A PASSO QUANDO A GENTE
VAI VER, JÁ NÃO É MAIS
E ONDE FOI PARAR O TEMPO TODO
QUE AGORA MESMO ESTAVA AQUI?
EU NÃO SEI
É SÓ A SENSAÇÃO DE ESTAR
LIVRE NA IMENSIDÃO
E CADA MEIO DIA O SOL A PINO
A ALMA EXPLODE DE PRAZER
É ASSIM
A CADA INSTANTE UMA ESTRÉIA
TODA VEZ
E MAIS OUTRA VEZ

Mario Jansen

Hoje faz 2 semanas que ce desapareceu da Terra, brutalmente atingido pelos deslizamentos em Friburgo. Sem aviso prévio, sem despedidas, sem estarmos preparados, de repente, em segundos. Na sua fase de vida mais feliz, levando um pedaço de mim.

40 anos de convívio. E justamente agora, quando estávamos mais próximos que nunca, vivendo e trabalhando juntos, em harmonia e com muita coisa ainda pela frente pra viver. O começo de uma nova estrada.

Cadê chão?

Não consigo retomar meus passos. Como? se o que aconteceu não tem sentido nem lógica, narrado por um louco, significando nada... absolutamente nada.....

Aqui uma música que fizemos em 89.

POEIRA DO TEMPO
nossa amizade provou
a poeira do tempo
descobriu a verdade do vinho
partiu pra procurar
pra depois voltar
ensinar aquilo que marcou
dando abrigo e carinho
em cada grade e perigo
mostrando como se perde o medo
do fundo do mar
cúmplices do mesmo sonho
cúmplices do mesmo sonho

em cada trilha escondida
é o sol que guia
não importa estarmos distantes
ao nos reencontrar
é como se viveu
sempre juntos compreendendo bem
tudo tudo que a vida
fez da gente e da nossa ilusão
cada dor cada ferida
vira fruto pra colher
pra colher na próxima estação
vira fruto pra colher
pra colher na próxima estação