Tua cerveja sem álcool ficou na geladeira até a semana passada. Não foi nem pra deixar que deixei... via e ia deixando... Abria a geladeira e notava aquela lata num canto, depois nem notava, como se ela fosse uma peça adicional... e lá ficou. Mas agora abri e joguei pelo ralo da pia abaixo. Mas sei lá... teve uns dias no começo que eu não tirei de propósito, em sua homenagem, em sua lembrança: como ce gostava de comer com ela acompanhando, desde que parou de beber!!! Eu já não: achava aquilo uma enganação (pra quê tomar cerveja, se não dá barato?). Fui deixando, pra não mexer muito no tudo que havia mudado totalmente. Se você não estava, estava a sua cerveja... meus olhos se acostumaram com aquele objeto, como se estivesse te representando ali em pé solene...
Pois é assim que as coisas caminham, Mario. Pessoas me encontram e falam comigo, é este horror que sempre está me voltando, e não há outro jeito senão enfrentar. Assim como no outro domingo fui com a Glória no Cinesanta, e me lembrei. Me lembrei que queria tanto te levar lá pra ver um filme, te mostrar, toda orgulhosa, o nosso cineminha de bairro: poltronas, ar, telão, escurinho... bem ali no Largo do Guimarães, lugar que você conhece mais que a você mesmo.... tantas vezes tantas tantas que passamos por aí, juntos, separados, caretas, doidões, com a galera, só nós dois... tanto que vivemos... histórias neste Largo. Um cinema no bairro era um sonho na época- to falando dos anos 70, quando Santa Teresa era inteiramente desconhecida e abandonada, mas era adorável de se morar... mais segura, todo mundo se conhecia, menos gente etc etc... coisa de 40 anos atrás, isto em qualquer bairro, qualquer cidade, estado ou país. Mas este sonhado cinema nunca aconteceu e tínhamos que descer pra “cidade”, se quiséssemos ver algo. Agora que tem esta jóia, queria muito te levar. Ter te levado. Não deu tempo. Que merda.... não deu tempo. Queria ter ido contigo ver os Dzi Croquettes, ia ser demais: convivemos intensamente com estas pessoas, ia ser incrível vermos juntos. Mas não aconteceu, isto foi no ano passado, eu cuidando do Nelson, você ensaiando e tocando com Ithamara, ficou difícil marcar. Quando ce vinha, era pro ensaio, pro show, e depois ce queria subir logo pra Friburgo por causa das cachorras. Ce ficava preocupadíssimo com elas lá na casa sozinhas... água, comida, saúde... você era uma verdadeira mãe!
Pois bem. As cachorras. As duas pretinhas. Me lembro que ce adorava bicho preto. Casquinha foi embora contigo na tragédia, vai ver que ela estava deitada do seu lado, ou então... outras razões... e a Farofa se salvou. Sobrevivente. Farofinha conseguiu se salvar, mas COMO????
Por que cachorro não fala? ela poderia me contar tudo que aconteceu. Quando é que a gente iria imaginar que ela moraria na Lagoa das Lontras? que Bel iria resgatá-la nos escombros (quem imaginaria que haveria escombros?). Farofa estava em cima de tudo latindo, Bel a pegou e trouxe-a pro Rio. Farofa aqui em Santa Teresa. Depois na Lagoa das Lontras? quando? quando é que iríamos imaginar tudo tudo que aconteceu?
Já cansei de tanto pensar imaginar descobrir o que de fato houve, quais foram suas últimas palavras, Mario, qual foi o seu último pensamento... não porque me confortaria, não porque melhoraria alguma coisa- NADA serve pra amenizar a tua morte- é que, por mais que a razão tem consciência do fato, a emoção não acredita e quer ouvir. Acho que o negócio tem que se esgotar daqui de dentro pra fora e pra dentro e depois pra fora pra sair... ah, sei lá....