Mario, algo muito grave está acontecendo. Nelson não está bem. Depois de uma noite como esta, ter que levantar, cadê energia? nelson urrando de dor, o rosto todo deformado chorando de dor, enrugado, vermelho, molhado, boca aberta, agonia, e o que eu posso fazer numa hora desta, além que dar carinho, dar dimeticona, esquentar a almofada, perguntar se quer algo, se ligo tv, ir vamos pra sala, ouvir ele dizendo meu deus do céu.... o que vou tomar agora (depois de ter tomado tudo que tinha direito), levantar de manhã, ele acordou melhor, pegar o jornal no portão pra ele, perguntar se quer ouvir um som, perguntar se quer massagem, ou o açaí diário matinal... e mamão cortadinho? e mingau de aveia? café, torrada? ovo quente da Lagoa? e o que eu fizer, faço tremendo, com agonia também, e claro, acabo fazendo besteira como deixar o mamão cair no chão, derramar o pó de café na pia, porque fico tão nervosa em ouvir ele gritar e gemer e chorar, e tão dolorida de vê-lo sofrer tanto tanto tanto.... tem vezes como hoje (e são frequentes, aliás HÁ DOIS ANOS ele vem sofrendo de dores, me lembro em 2009, quando Su e Lili estiveram aqui, eu disse pra elas que às vezes eu tinha que dormir naquele outro quarto, pq eu acordava com ele de noite, depois ele dormia de novo, e eu não conseguia mais, virava e na noite seguinte a mesma coisa, virava, e aí pegava gripe e não podia ficar doente porque quem é que ia cuidar dele??? mas HÁ DOIS ANOS isto vem acontecendo. antes ele não tomava metadona, só dorflex, aspirina, paracetamol muito pouco, há um ano ele tá na metadona, a dose passou de 5 mg pra 20 mg, e há meses ele diminuiu o intervalo de 8 em 8 pra 6 em 6, esta noite antecipou pra quatro horas, e ainda toma muito paracetamol junto, e este remedio ataca violentamente o fígado que eu sei, mas não dá pra dizer pra ele não tomar, por enquanto ainda não enjoou a ponto de vomitar, mas até quando? acho que estes remedios não estão fazendo mais efeito, mas como vai ser? injeções de morfina pra ele ficar sedado deitado desacordado direto pra não mais levantar???? e quando eu digo pra ele que vou ligar pro medico da dor Luiz Guilherme, ele não quer, pq acha que não é o caso, não precisa, espera mais um pouco. eu entendo que ele não queira tomar mais remedio ou mudar pra algo mais forte, ele tem razão, mas até quando ele vai aguentar este sofrimento tão grande???? eu mesma, que estou do lado dele o tempo todo assistindo este terror, às vezes acho que não vou aguentar, como esta noite e hoje de manhã. Começo a sentir a pressão aumentar, uma pressão nos olhos e na nuca, uma vontade de sair correndo pra não ver, não escutar, fico muito nervosa, e tudo isto sem demonstrar nada pra ele, pelo contrário, aparentando tranquilidade, dando carinho quando na verdade to precisando fugir do cenário pra não assistir tamanha dor, que me doi corroi também, porque não posso curá-lo nem posso aliviar a dor, só posso tentar fazer alguma coisa, tentar tentar, e muitas vezes sem conseguir, e ter que assistir ele se contorcendo, chorando, parece que vou explodir. Amo ele tanto. To escrevendo isto pra deixar sair um pouco da tensão, mas to muito triste... minha vida tem sido, nestes 2 anos, cuidar dele, me preocupar com ele, suas necessidades, ligar pra medicos, marcar hora, ir com ele, comprar remédios controlados (não entregam em casa, e só tem em farmácias especiais, tem que ir lá), cuidar de sua alimentação, trocar a roupa de cama frequentemente pq tem noites que ele sua, principalmente na cabeça e no tórax, distrai-lo em casa, ao mesmo tempo to tão feliz de ele estar vivo, de estar podendo estar ao seu lado, de poder ter momentos inesquecíveis ainda, de não querer trocar a minha vida pela de ninguém, de me sentir privilegiada de poder estar ao seu lado numa situação que nem esta, tão difícil para todos nós, e ainda encontrar um raio de luz, umas pontas de alegrias, e sentirmos prazer em fazer as palavras cruzadas, ou almoçar, ou comentar das cachorras, ou ver a novela da Amora, ou comentar sobre alguma manchete de jornal. Tão feliz de ele estar vivo. Tão feliz de apenas sentar ao seu lado e segurar sua mão. Tão feliz por ter alguém que amo tanto. Que bom que to com saúde para fazer as coisas, lembrar das coisas, cuidar dele, administrar a sua vida, dar amor e carinho... ainda que às vezes eu caio e me deprimo em vê-lo assim, me decepciono comigo mesma de não estar conseguindo fazer o que eu queria, e às vezes tenho medo de pensar o que será... to com medo, to com pavor, não sei o que esperar, quando esperar o quê, só quero tanto que ele se cure, ele merece tanto porque se esforça tanto tanto, faz tudo certinho, direitinho como mandam os médicos, é tão responsável, tão disciplinado, quer tanto tanto viver, ama tanto a vida, tem tanto ainda pra nos dar, tanta criação, tanta genialidade, tanta luz... Mas a vida não se trata de merecimento, isto aprendi com a sua morte, meu amigo querido.
Sinto sua falta.
Wednesday, June 29, 2011
Saturday, June 18, 2011
cinco meses
Recebi ontem fotos de uma amiga. Data das fotos: junho de 2008. Lugar: um sarau-almoço na casa do Nilo. Dentre elas, duas me emocionaram às lágrimas: você e eu tocando a quatro mãos. Tínhamos feito o show no Valansi havia um mes, estávamos alegres e pensando nos próximos. E então tocamos, tocamos neste dia, foi muito bom, numa casa maravilhosa, gente interessante, uma tarde inesquecível. Dois anos e meio depois, acontece a tragédia na Região Serrana e ce morre. Quem poderia prever? quem poderia imaginar? você, tão cheio de energia e disposição. Que tocava o dia inteiro, só pensava naquilo. O piano. Teu eterno companheiro de todas as horas.
Estas fotos me fizeram lembrar de muita coisa (as fotos servem pra isto mesmo, voltar no tempo). Teus sapatos pretos, tua roupa preferida: calça e camisa de manga comprida arregaçada (sempre sempre), tecidos de jeans tipo brim, aquele azul (não índigo, não ultramar, talvez prússia ou cobalto). Teus cabelos cuidadosamente cortados na frente, mas compridos atrás.
Nossa cumplicidade.
E tuas mãos. Ce era todo grande, quase 2 metros de altura, e as tuas mãos, é claro, tinham que acompanhar a imensidão restante. Pois eram grandes. Pondo a minha colada à tua, teus dedos começavam onde os meus acabavam. Um pouco de exagero, só pra dizer que eram realmente acima da média. Alcançar uma décima era brinquedo, ce fazia como eu faço uma quinta, e disto ce se aproveitou no teu estilo tão pessoal de tocar.
Mas tuas mãos eram mais do que isto: tocavam nas coisas de uma maneira quase mágica de ser. Tuas mãos eram bonitas, de movimentos harmoniosos. Faziam transparecer sua extrema sensibilidade, que o tornava uma pessoa tão especial. Eram fortes, tinham carisma, marcavam presença. Eram mãos que mereciam ter sido eternizadas, esculpidas em mármores, de tão belas. No piano, faziam o que queriam. Me lembro de teus dedos apertando os botões do teclado, ou do gravador... nunca com o indicador e sim com o mediano. Este gesto era característico, e mostrava toda uma delicadeza que cê tinha em relação às coisas em volta. Delicadeza no pegar. Delicadeza no tratar. Delicadeza no sentir e existir. Mas quando era pra pegar no pesado, tuas mãos pegavam na enxada, consertavam telhas quebradas, tiravam espinhos de ouriço da boca de cachorro, carregavam caixas de som (morando sozinho numa casa, com floresta atrás, era você quem cuidava de tudo). Valentes, se metiam em qualquer combuca. Com perfeição, pois ce era um perfeccionista.
Não raro, acontecia de se machucar e elas ficavam marcadas . Dias antes de morrer, ce me perguntou se eu sabia como disfarçar umas manchas que estavam em tuas mãos, pois ce tava fazendo show direto e não queria aquilo tão aparente... lembro disto comovida... Com cuidado, passei uma base facial, e ficou uma beleza, sumiu tudinho. Te dei o frasco, e ce usou por mais um fim de semana... e depois... ce se foi.
Sentimento estranho olhando as fotos. É tão real! uma cena tão habitual, a gente sentada junto tocando. Coisa que se repetiu tantas, tantas vezes nestes quarenta e dois anos. Tão familiar. Como a claridade do dia, e depois vem a noite. Coisas que fazem parte de minha vida, coisas com as quais me entendo, coisas pelas quais compreendo o mundo, e agora não compreendo é nada. Sentido? nenhum. Muito difícil viver sem sentido, sem lógica, sem entender. Tão estranho olhar estas fotos que me apareceram assim, por milagre, sem mais nem menos, quando eu pensava que nunca mais iria ver material novo de você, que o que tenho seu agora é o passado dentro de mim, eis que de repente me vem um presente (passado-presente-passado-presente), e eis que ce me aparece, exatamente como se fosse você que tivesse me mandado, e te sinto vivo, sabendo-te morto. Eis que, neste dia gelado de um inverno que começou em fins de maio, tua lembrança me penetra e me aquece.
Hoje, dia 12 de junho, faz cinco meses.
Estas fotos me fizeram lembrar de muita coisa (as fotos servem pra isto mesmo, voltar no tempo). Teus sapatos pretos, tua roupa preferida: calça e camisa de manga comprida arregaçada (sempre sempre), tecidos de jeans tipo brim, aquele azul (não índigo, não ultramar, talvez prússia ou cobalto). Teus cabelos cuidadosamente cortados na frente, mas compridos atrás.
Nossa cumplicidade.
E tuas mãos. Ce era todo grande, quase 2 metros de altura, e as tuas mãos, é claro, tinham que acompanhar a imensidão restante. Pois eram grandes. Pondo a minha colada à tua, teus dedos começavam onde os meus acabavam. Um pouco de exagero, só pra dizer que eram realmente acima da média. Alcançar uma décima era brinquedo, ce fazia como eu faço uma quinta, e disto ce se aproveitou no teu estilo tão pessoal de tocar.
Mas tuas mãos eram mais do que isto: tocavam nas coisas de uma maneira quase mágica de ser. Tuas mãos eram bonitas, de movimentos harmoniosos. Faziam transparecer sua extrema sensibilidade, que o tornava uma pessoa tão especial. Eram fortes, tinham carisma, marcavam presença. Eram mãos que mereciam ter sido eternizadas, esculpidas em mármores, de tão belas. No piano, faziam o que queriam. Me lembro de teus dedos apertando os botões do teclado, ou do gravador... nunca com o indicador e sim com o mediano. Este gesto era característico, e mostrava toda uma delicadeza que cê tinha em relação às coisas em volta. Delicadeza no pegar. Delicadeza no tratar. Delicadeza no sentir e existir. Mas quando era pra pegar no pesado, tuas mãos pegavam na enxada, consertavam telhas quebradas, tiravam espinhos de ouriço da boca de cachorro, carregavam caixas de som (morando sozinho numa casa, com floresta atrás, era você quem cuidava de tudo). Valentes, se metiam em qualquer combuca. Com perfeição, pois ce era um perfeccionista.
Não raro, acontecia de se machucar e elas ficavam marcadas . Dias antes de morrer, ce me perguntou se eu sabia como disfarçar umas manchas que estavam em tuas mãos, pois ce tava fazendo show direto e não queria aquilo tão aparente... lembro disto comovida... Com cuidado, passei uma base facial, e ficou uma beleza, sumiu tudinho. Te dei o frasco, e ce usou por mais um fim de semana... e depois... ce se foi.
Sentimento estranho olhando as fotos. É tão real! uma cena tão habitual, a gente sentada junto tocando. Coisa que se repetiu tantas, tantas vezes nestes quarenta e dois anos. Tão familiar. Como a claridade do dia, e depois vem a noite. Coisas que fazem parte de minha vida, coisas com as quais me entendo, coisas pelas quais compreendo o mundo, e agora não compreendo é nada. Sentido? nenhum. Muito difícil viver sem sentido, sem lógica, sem entender. Tão estranho olhar estas fotos que me apareceram assim, por milagre, sem mais nem menos, quando eu pensava que nunca mais iria ver material novo de você, que o que tenho seu agora é o passado dentro de mim, eis que de repente me vem um presente (passado-presente-passado-presente), e eis que ce me aparece, exatamente como se fosse você que tivesse me mandado, e te sinto vivo, sabendo-te morto. Eis que, neste dia gelado de um inverno que começou em fins de maio, tua lembrança me penetra e me aquece.
Hoje, dia 12 de junho, faz cinco meses.
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