Recebi ontem fotos de uma amiga. Data das fotos: junho de 2008. Lugar: um sarau-almoço na casa do Nilo. Dentre elas, duas me emocionaram às lágrimas: você e eu tocando a quatro mãos. Tínhamos feito o show no Valansi havia um mes, estávamos alegres e pensando nos próximos. E então tocamos, tocamos neste dia, foi muito bom, numa casa maravilhosa, gente interessante, uma tarde inesquecível. Dois anos e meio depois, acontece a tragédia na Região Serrana e ce morre. Quem poderia prever? quem poderia imaginar? você, tão cheio de energia e disposição. Que tocava o dia inteiro, só pensava naquilo. O piano. Teu eterno companheiro de todas as horas.
Estas fotos me fizeram lembrar de muita coisa (as fotos servem pra isto mesmo, voltar no tempo). Teus sapatos pretos, tua roupa preferida: calça e camisa de manga comprida arregaçada (sempre sempre), tecidos de jeans tipo brim, aquele azul (não índigo, não ultramar, talvez prússia ou cobalto). Teus cabelos cuidadosamente cortados na frente, mas compridos atrás.
Nossa cumplicidade.
E tuas mãos. Ce era todo grande, quase 2 metros de altura, e as tuas mãos, é claro, tinham que acompanhar a imensidão restante. Pois eram grandes. Pondo a minha colada à tua, teus dedos começavam onde os meus acabavam. Um pouco de exagero, só pra dizer que eram realmente acima da média. Alcançar uma décima era brinquedo, ce fazia como eu faço uma quinta, e disto ce se aproveitou no teu estilo tão pessoal de tocar.
Mas tuas mãos eram mais do que isto: tocavam nas coisas de uma maneira quase mágica de ser. Tuas mãos eram bonitas, de movimentos harmoniosos. Faziam transparecer sua extrema sensibilidade, que o tornava uma pessoa tão especial. Eram fortes, tinham carisma, marcavam presença. Eram mãos que mereciam ter sido eternizadas, esculpidas em mármores, de tão belas. No piano, faziam o que queriam. Me lembro de teus dedos apertando os botões do teclado, ou do gravador... nunca com o indicador e sim com o mediano. Este gesto era característico, e mostrava toda uma delicadeza que cê tinha em relação às coisas em volta. Delicadeza no pegar. Delicadeza no tratar. Delicadeza no sentir e existir. Mas quando era pra pegar no pesado, tuas mãos pegavam na enxada, consertavam telhas quebradas, tiravam espinhos de ouriço da boca de cachorro, carregavam caixas de som (morando sozinho numa casa, com floresta atrás, era você quem cuidava de tudo). Valentes, se metiam em qualquer combuca. Com perfeição, pois ce era um perfeccionista.
Não raro, acontecia de se machucar e elas ficavam marcadas . Dias antes de morrer, ce me perguntou se eu sabia como disfarçar umas manchas que estavam em tuas mãos, pois ce tava fazendo show direto e não queria aquilo tão aparente... lembro disto comovida... Com cuidado, passei uma base facial, e ficou uma beleza, sumiu tudinho. Te dei o frasco, e ce usou por mais um fim de semana... e depois... ce se foi.
Sentimento estranho olhando as fotos. É tão real! uma cena tão habitual, a gente sentada junto tocando. Coisa que se repetiu tantas, tantas vezes nestes quarenta e dois anos. Tão familiar. Como a claridade do dia, e depois vem a noite. Coisas que fazem parte de minha vida, coisas com as quais me entendo, coisas pelas quais compreendo o mundo, e agora não compreendo é nada. Sentido? nenhum. Muito difícil viver sem sentido, sem lógica, sem entender. Tão estranho olhar estas fotos que me apareceram assim, por milagre, sem mais nem menos, quando eu pensava que nunca mais iria ver material novo de você, que o que tenho seu agora é o passado dentro de mim, eis que de repente me vem um presente (passado-presente-passado-presente), e eis que ce me aparece, exatamente como se fosse você que tivesse me mandado, e te sinto vivo, sabendo-te morto. Eis que, neste dia gelado de um inverno que começou em fins de maio, tua lembrança me penetra e me aquece.
Hoje, dia 12 de junho, faz cinco meses.
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