Sunday, May 29, 2011

a jaqueta

Usei esta jaqueta pela última vez contigo. Por que me lembrei? porque ce gostava dela, e nesta vez, afagou o meu braço enjaquetada, dizendo que o tecido era tão gostoso, macio... e é mesmo. Foi comprada na seção masculina de uma loja, estava com Nelson e compramos 2 iguais. E foi ótimo, porque pra tempo úmido ou (e) frio, não tem igual. É meio maior do que eu, tem aquela cor ocre, ou cáqui, ou de burro quando foge... me sinto tão aconchegada dentro dela.

Está assim aqui: o tempo está bem frio. Como será que tá Friburgo? estará com as flores na praça? aquelas que ce me mostrou, orgulhoso porque agora estavam cuidando, e estava tudo muito lindo. Como será que tá Friburgo, além de gelada? to estranhando ficar tanto tempo sem ir praí. Não, praí não (tá vendo como ainda a ficha não caiu totalmente?). No outro dia, ainda encontrei, na última página da minha agenda, uma página onde anotei os números dos assentos no ônibus melhores pra subir e os melhores pra descer. 13, 17, 21. Pra que serve isto agora?

Desde que comecei a te namorar nos anos 70, mantive uma ligação com Friburgo. Aliás, até antes, em férias com meus pais. Mas contigo foi definitivo. Ficávamos na casa de sua mãe, aquela casa enorme, linda, e gostosa, com objetos bem pessoais e diferentes de tudo que eu conheci. Um filtro enorme de louça escrito em alemão, o fogão de lenha, aquele penduricalho pra pendurar as chaves, o abajur, aquele banheiro do teu quarto, o relógio-armário de pêndulo que tocava a cada 15 minutos, um cheiro característico de flores de rosa vindo do jardim. Uma lareira. Aquele revestimento de madeira escura que circundava toda a sala, de um metro e vinte mais ou menos. Por anos íamos direto pra lá. Também ia bastante com a galera, quando Milton tinha o sítio em Macacu. Depois,  quando voltei de Europa (e você ficou), comecei a dar aulas no Conservatório de Música de Friburgo, toda semana subia às quartas e voltava sexta de tarde, e ficava na tua mãe. Quando ce voltou de vez, e morava mais lá do que no Rio, eu subia direto. Foi quando fizemos a maioria de nossas composições.

Nestes quarenta e dois anos, houve tempos que ficamos longe, mas sempre antenados um com o outro. Teve fases até de raiva e afastamento, mas nunca ausência. Assim é a nossa história. A gente tava longe, mas sempre ligado. “O que será que Mario acharia disso? e daquilo?” com você também era assim, recentemente falamos sobre isto. Mas nunca tivemos tão juntos como agora. Sem estar mais vivendo aquela vida de doideira, viagens, drogas, embriagados de tudo que enlouquecia. Agora sessentões, já tínhamos experimentado Deus e o mundo... falávamos a mesma língua, gostávamos das mesmas coisas, não tinha mais disputa nem ciúmes nem rivalidade nem projeções fantasiosas nem teatro nem competição nem porcaria nenhuma. A gente se divertia juntos, e ria juntos. Uma amizade que me abrigava, me ajudava, me entendia, me aceitava, me admirava, me queria, me chamava, me protegia, me apoiava, “me” sentia falta... há um ano e meio, estávamos vivendo como sempre tentamos, mas nunca conseguimos nestes quarenta e dois anos. De repente, de uma hora pra outra, isto acaba, um cataclisma vem e te leva. E depois, ainda esperam que eu aceite??????

Como será que tá Friburgo? será que está limpo do barro que a soterrou? será que as coisas voltaram ao normal? será que o Hotel São Paulo está aberto? será que vou conseguir ir pra lá e só chorar, ou vai ter mais coisa?

Saturday, May 28, 2011

hora da ficha cair

Agora sei, ou pelo menos acho que, o que estou passando nesta volta da viagem. 
Uma sequência de etapas: 
- stress (a doença desde 2008 do Nelson e sua quimioterapia no ano passado), 
- estado de choque (a sua morte súbita)
- mais stress (piora do Nelson e mais uma operação, quando não era pra ter nada, pois com tanta quimioterapia, por que isto agora?)
- dormência: parece que minha cota de sofrimento chegou ao limite máximo, e depois disto, só há dormência. Dormência de sentir, dormência de sofrer, dormência de pensar... a cabeça consegue fazer coisas banais, como ver desenho animado na TV, lavar toda a louça... Ler um livro exige uma concentração impossível: estava com 4 livros lidos pela metade. Dormência, falta de ânimo nem pra sair. Só comer. 
- parênteses para respirar: viagem
- e agora: voltar e encarar de frente a realidade que me assusta: a sua morte e a doença do Nelson. Cara a cara. Não dá pra fugir, só tem um jeito: encarar.

É hora de a ficha cair.

Mas apesar de saber que ce morreu, to estranhando que a gente não tem se falado... ce não me manda email.

A ficha está caindo. Realizing what happened.

É física, ou espiritual, ou psicológica esta falta. To te aguardando, olha que loucura. É como se tivesse havido um erro, não era teu aquele corpo que acharam: você vai me aparecer por agora, e tudo voltará a ser o que era. Houve um enorme erro. Sinto que to precisando ir pra Friburgo, não te ver me esperando na estação, não comer contigo nos Amigos do Julio, não estar contigo. Acho que to precisando ir e visitar a sua sepultura, e ler bem devagar e alto: Mario Jansen.

É desconcertante. Tenho pensado em você a toda hora, lembrando coisas. Andando por Santa Teresa, é você o tempo todo. Lá embaixo também. Queria mudar de bairro. Queria mudar de cidade. Ou país. Ao mesmo tempo que lembrar de você me dói, é gostoso, porque é a maneira que tenho de ter ter.

Mas não quero ficar assim pra sempre. Como fazem as pessoas pra recomeçar? e se conformar? e continuar vivendo?? como?

O pior de tudo é este absurdo, gélida lucidez dos fatos.

viagem

Mario, tanta coisa aconteceu desde a última vez que te escrevi. Fui pra Florida visitar a Suzy. Cheguei exatamente no dia do aniversário dela. Ela foi me buscar no aeroporto, junto com a Maína, que também estava lá de visita por uma semana. Uma verdadeira reunião familiar, só faltou mesmo a Lili, que quase que apareceu na última semana. E claro, meu sobrinho Mike. 

Mas Mario, foi tão bom! 

Resolvi em cima da hora. Comprei a passagem 6 dias antes da viagem. Pois ce sabe, Nelson operou no meio de março e as semanas seguintes foram difíceis, eu não sabia se iria conseguir viajar... como ele estaria... efeitos colaterais... reações adversas...  eu mesma estava muito tensa... se eu estava pronta pra fazer uma viagem... fiquei com medo de passar mal no avião, ou na conexão, ou mesmo lá... ce sabe como tenho medo, pavor de avião, né? mas eu precisava tanto dar uma arejada. Tua morte e o consequente fim dos meus planos futuros, a piora do Nelson, tudo me deixou muito mal, e estava a ponto de “passar pro outro lado”, sabe? a linha entre lá e cá é muito tênue, não tem aviso prévio, e quando ce vê, ce já foi e nem reparou.  Depois, voltar é que é o problema.

Senti que pior do que estava não podia ficar... e se eu tivesse coragem, iria ser tão bom.

E foi.

Percebi mudanças em mim. Primeiro, que fui, estive e voltei sem um arranhão. Sem somatizar nenhuma enfermidade. Caraca, haja força!!!

Segundo, que o medo do avião ficou menor depois de sua morte. Você morreu (ainda me soa absurdo e irreal esta afirmação) no lugar que te abrigava, te acolhia, te aconchegava, te nutria. Justamente no lugar em que ce mais sentia seguro, seu castelo, sua fortaleza. Ali você era inteiro. Você confiava. Você fez a casa que te caiu em cima. Você reflorestou o morro que te esmagou. Tem sentido? nenhum. Não foi num avião, não foi voltando de madrugada, dirigindo na estrada pra Friburgo, depois de um show no Rio (coisa que ce ventilou que pudesse acontecer, tanto é que me deu a cópia de suas chaves), ou mesmo de uma ataque cardíaco, um piripaque fatal qualquer, e como morava só, só iriam descobrir tarde demais. E então? senti que a morte não tem sentido, não há como controlar e, pelo que sei e entendo, não há previsão nem merecimento. É uma loteria, um sorteio de azar. 

Terceiro, que estou valorizando cada vez mais o presente. Eu já falava, já sentia, mas agora isto ficou como sendo a única maneira de viver. Viver como se fosse morrer amanhã. Mas não é perder a cabeça, beber até cair, fazer loucuras, que nem diz aquele samba do Assis Valente “E O Mundo Não Se Acabou”. Pelo contrário: é aproveitar o tempo que me resta, que pode ser uma hora, um mes, um ano ou mais, se tiver sorte.

Porque cada vez mais, a vida depende de uma pitada de sorte.






Wednesday, May 25, 2011

quatro meses


Zero hora do dia 12 de maio. Eu estava perdida, sozinha, no meio dos saguões intermináveis do aeroporto de Miami, dando voltas de lá pra cá, em busca de informações sobre o transporte que iria me levar até um hotel. 

Contando assim parece um pesadelo, mas era bem real. Meu vôo de volta pro Rio havia sido cancelado em cima da hora, e depois de muita confusão e ânimos alterados, me deram uma papeleta com direito a uma noite num hotel, que o meu vôo sairia só na manhã seguinte, às 8:00. Ou seja, não havia tempo a perder. Primeiramente pensei em ficar lá mesmo, nem sair do aeroporto, mas as coisas ali estavam começando a fechar, o cenário não era nada animador, estava ficando meio deserto e esquisito, luzes apagando, ruídos silenciando.

Lá fora estava mais sinistro ainda: deserto, sombra expressionistas em preto e branco, de vez em quando um veículo passava a cento e vinte por hora. Me senti frágil, desamparada e tive medo.  Cadê todos do meu vôo cancelado? não havia ninguém ali. Finalmente consegui contactar o hotel, que me mandou transporte. Só eu na van, mais ninguém.

Uma e meia da manhã. O hotel era muito bom, pena que cheguei tarde demais pro jantar, e a cozinha só me ofereceu melancia, melão e iogurt com sabor, que devorei no quarto. Pedi para me acordarem às cinco, e tentei cochilar, com medo de perder a hora. Nem pude aproveitar a cama gostosa e o conforto em volta de mim. Deitei ligada em me levantar, com a roupa do corpo.

Tudo isto pra dizer que naquele dia completava quatro meses que ce morreu.

Só eu sei como foi e continua sendo pra mim esta perda, esta ausência, este teu vazio em mim. Só eu sei. Só eu sei. Só eu sei.







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sonho em Largo

Mario, acordei e consegui me lembrar deste sonho que sonhei contigo. Mas foi mais que um sonho, foi maior. Teve um primeiro sonho: estavam escavando onde era a sua casa, percorri aquilo tudo, depois te vi e corremos um de encontro ao outro. Nos abraçamos forte. Não me lembro de mais ninguém, porque inclusive o cenário sumiu e ficou só a gente se olhando nos olhos e abraçados, muito fortemente. Acordei perturbada e com os olhos embaçados. Eram 6 da manhã, muito cedo pra acordar, pra quê? quando todos estavam dormindo na casa, então consegui voltar a dormir, e aí deu-se o segundo sonho: e foi tão bom, e você voltou, só que muito mais intenso. Estávamos abraçados, conversamos, chorei tanto, perguntei se ce tava morto ou vivo, ce respondeu morto. Mas ce estava tão tranquilo. Perguntei como foi que aconteceu aquilo? ce respondeu que entre uma coisa e outra foi tranquilo. Ce usava uns anéis lindos, coisa que ce nunca usou. Anéis grossos, com turqueza e coral, de prata. Me sentia tão bem nos seus braços. Perguntei se os outros estavam te vendo, suzy, lili, milton talvez, mamãe? não me lembro se tinha mais gente. Ce abria umas portas de uns aposentos muito claros, mas só olhávamos pra dentro, não entrávamos. Andávamos por umas ruas de um vilarejo, meio lagoa, meio friburgo quando deixa de ser cidade pra virar roça, você abria as portas pra mim. Ce tava lindo, com cabelo comprido, rosto rejuvenecido e sereno, claro que foi projeção da imagem que tenho de você quando éramos casados... Estávamos tão juntos um do outro, abraçados, acho que ce me carregava, porque estávamos quase da mesma altura. Quando eu te falei que te amava muito, e que não tava conseguindo viver assim sem você, foi só então que ce mostrou uma tristeza no rosto, no olhar e de repente acordei chorando muito. Eu tinha dormido esta noite com aquela venda que se põe, que ficou todo molhado. Não queria acordar, queria continuar contigo, estava realmente tão bom, não queria que acabasse aquele momento, queria te fazer milhares de perguntas que me perseguem, como é morrer? o que ce sentiu? quando foi que ce viu que iria morrer? ce viu? ou até o último momento tinha a certeza que iria escapar da tragédia? Casquinha foi contigo? como é agora, estar morto?

Tentei voltar mas não consegui. Foi muito forte, se eu acreditasse eu diria que esta noite ce me visitou, inclusive esta foi a minha impressão nos primeiros instantes em que acordei: era muito claro, eu estava contigo, você estava ali. Queria tanto que continuasse. 

Devo acreditar em paranormalidade?