Saturday, August 20, 2011

a folha


Hoje amanheceu lindo. O sol tá brilhando, céu totalmente azul, o dia esplendoroso. Na minha caminhada, quando entrei na floresta do Silvestre, os raios de sol se desmanchavam entre as folhas das árvores, fazendo um jogo de luz belíssimo. Quantos tons de verde, uns mais amarelados, outros ocre, outros mais pro azul... uma infinidade...  deu uma alegria danada. Fiquei pensando em quantas vezes você olhou pra fora da janela de sua casa e sentiu exatamente esta mesma alegria, este deslumbramento, ao reparar este mesmo espetáculo diante de você.

Sempre que chego nesta parte da caminhada, lhe cumprimento: bom dia, Mario! É como se estivesse entrando na sua casa. Pois foi no meio de uma floresta que ce escolheu viver e construir a sua moradia. Ce replantou no morro mais de 800 mudas, que ce conhecia como a palma da mão. E hoje, assim que lhe cumprimentei, uma folha veio caindo caindo na minha mão. Senti logo que veio de você, como um presente. Agora está aqui na minha mesa, onde vai ficar entre as canetas, numa grande caneca com a receita de sopa de cogumelos impressa. 

As coisas são assim. Foi este mesmo morro que te soterrou. Se os morros fossem gente, diria que este foi capaz da mais cruel traição... não mereceu ter sido replantado e tão bem cuidado... não mereceu o teu amor, o teu cuidado... não mereceu a tua confiança. Mas como morro é morro, as coisas são assim.

Saturday, August 13, 2011

londres


Esta semana continuam saindo notícias sobre o desvio de verbas na Região Serrana... e a prefeitura de Friburgo está em maus lençóis... sem comentários...

Enquanto isto em Londres, lembra? a velha e pacata e ordeira Londres, cenas de vandalismo de horrores, prédios queimando, escombros, carros carbonizados, gente morta, uma guerra social se desenrolando, gangues. Saíram arrebentando tudo, saqueando todos, numa luta nunca antes vista ali. Pavor no ar, hora de recolher, nada de andar na rua, dezesseis mil policiais tentando controlar a situação. Tudo começou com a morte pela polícia de um jovem negro do subúrbio. Agora está se espalhando pra outras cidades, chegou a Liverpool, e agora acontecendo lutas étnicas, negro contra muçulmano, muçulmando contra asiático... Mas há controvérsias: tem uns que dizem que não é (só) luta por injustiça, e sim vandalismo inflado por redes sociais. Saqueando eletrônicos, roupas de marca, sonhos de consumo que jamais teriam oportunidade de possuir. Vítimas ou vândalos??? qual é a sua opinião?

Me sinto um mensageiro entre a minha Terra e o seu Céu. Hoje é sábado. Como são os dias aí? tem alguma diferença entre sábado e segunda? o que ce tem feito? 

Gostaria de pensar assim, mas só posso querer que seja. 

Londres me lembra de quando fomos a Londres. Estávamos morando em Paris fazendo o Cana Caiana, e o grupo foi contratado pra fazer 2 shows lá. Bebi tanto  com medo do avião, nem me lembro como desci e cheguei no hotel. Ainda bem que o primeiro show só era no dia seguinte, então pude me refazer. E foi no Hotel Sheraton, ficamos 6 horas em cena fazendo Brazilian Carnival, com ajuda de mais músicos e cantores, todos residentes londrinos. No dia seguinte, não foi diferente, só mudou o hotel, o Intercontinental. Muito luxo, sabonetes, roupões chiquésimos em ambos...  mas o que quero dizer é que me lembro quando ce me chamou pra ir contigo à feira de Portobello. Foi de manhã, depois de um destes shows-maratona. Nem sei como conseguimos acordar, mas conseguimos, e lá fomos nós. 

Adoro demais -e você sabia disto, depois de ir comigo no Rastro, em Madrid, e no Marché aux Puces, em Paris- feiras locais ao ar livre de coisas, sempre coisas diferentes, coisas bonitas, coisas próprias da cidade, do país, que só podem ser encontradas ali... sempre que viajo gosto de ir nas feiras populares, os chamados mercado de pulgas. Posso passar horas por ali andando, olhando tudo e me encantando com pequenas bobagens. 

Esta é mais uma pequena lembrança tua, de tantas que tenho que carrego no coração, coração que é um tear tecendo tuas lembranças que são os fios para fazer uma tapeçaria que são a nossa história.


Monday, August 1, 2011

força avassaladora

Nelson melhorou esta semana. Continua com dor, mas não é aquela que desespera. Toma o remédio e não faz efeito. Não. Então to mais leve. Hoje consegui dar uma caminhada ao Silvestre, o dia está claro e bom, meio nublado, solzinho tépido, vai e vem entre nuvens, to de manga comprida.

Sinto que a hora de subir pra Friburgo está chegando. Acho que to mais forte.

Avassaladora é a força da vida presente: chega carregando tudo que encontra pela frente. A força da vida que acontece a cada dia, da vida que me mexe, da vida que me faz suar, da vida que traz novos acontecimentos, da vida que me faz rir, da vida que me encanta, da vida que me faz repensar, da vida que exige meu trabalho, minha dedicação, da vida que me dá medos, da vida que me usurpa de qualquer devaneio, não me deixa ficar paralizada ante uma dor que aconteceu há tempos (mas que permanece com a ferida aberta doendo tanto), da vida que me sequestra do meu canto autista pra me jogar no mundo, da vida que me agarra e me leva embora, me sacode e me diz: EU SOU O PRESENTE, e me mente (e acredito): SOU A ÚNICA COISA QUE EXISTE.

Como acho que estou podendo ir a Friburgo e antes eu não tinha condições? a dor que senti e continuo a sentir com sua morte é, ainda hoje, tão grande... a sua falta é tão silenciosa e pesada. Não entendo e não aceito e não me conformo com o que aconteceu. Tudo continua igual.... mas seis meses se passaram, e o presente faz com que a sua morte seja mais um capítulo na minha história, um capítulo de terror. O mais trágico. A cada dia sua morte me molda, me muda, me transforma, soa na minha voz, transparece no meu olhar, cria uma nova pessoa. Mais forte, porque precisa sobreviver. Mais dura? mais fria? ainda não sei, ainda não sei dizer, porque ainda não conheço o ser que está nascendo. Mas precisa sobreviver.

Ou... será que não convém sobreviver???? resposta a ser pensada, aceitando respostas alheias...