Monday, October 17, 2011

mar revolto

Mario, foi um fim de semana chuvoso, com pancadas durante os dias. Esta noite, de domingo pra segunda, choveu sem parar,  uma chuva média mas consistente e teimosa. Continua chovendo. Não dá pra não pensar em você e na sua morte, não sei como vou tirar isto, não sei se isto sai, não quero continuar falando sobre isto, ce já deve estar dizendo- puxa, ela tá chata, sempre com este mesmo assunto... se alguém ler estas cartas algum dia também vai dizer- ah! de novo não!- e acabar desistindo... mas é que não consigo deixar de sentir. E mais: não consigo deixar de falar aqui, porque é a única maneira de por pra fora toda este meu choque e minha estupefação. E vou continuar falando, porque tem uma hora que transborda, e não dá pra apertar e comprimir, senão estoura. Olha, eu amava a chuva como ninguém, me dava uma inexplicável alegria interna só ao saber que anunciava-se uma chuva. Sua penumbra, seu mistério, seu nevoeiro, coisas para descobrir, coisas a revelar, seu aconchego, seu tamborilar nas folhas, na rua, no mundo... entrar dentro de mim e me percorrer caminhos esquecidos ou nunca trilhados. Mas agora, além disto, sinto um outro lado, que vem sem eu ter vontade, mas vem, é um malestar que na hora nem identifico, mas passadas umas horas, vem a verdade: a chuva te matou e este fato tá dentro de mim, faz parte das minhas orelhas, olhos, pulmão, fígado, pés e cérebro.

Me lembro de um quadro grande que ce tinha, e desde que te conheci, conheci este quadro, depois te acompanhou até agora, estava na sua sala. Por muito tempo, ficava em cima do piano nas várias casas em que ce morou. Era um quadro em preto e branco de um mar tão revolto que dava medo. Me incomodava, não entendia porque ce gostava daquilo: era o próprio inconsciente turbulento e atormentado. Me imaginava naquelas ondas, indefesa, longe de qualquer coisa parecida com terra, e era o próprio horror. A força da água é incalculável, não dá pra imaginar do que ela é capaz. 

Nós JAMAIS imaginamos, em toda a nossa existência, que uma casa tão bem construída, capaz de suportar um terceiro andar, feita por um arquiteto competente, amigo nosso, uma casa tão linda e aconchegante, tão convidativa, tão cheia de belezas, pudesse ruir tal qual um castelo de areia. Não é sinistro como foi isto que te matou? a força das águas? tava ali, no quadro em cima do piano...

Wednesday, October 12, 2011

nove meses

E hoje, dia 12, faz nove meses. Hoje é feriado, dia da Criança e de N.S. Aparecida. Romarias por toda parte, muita gente viajou e vai emendar até domingo... olha que hoje é quarta ainda, heim... 

Sempre penso em subir pra Friburgo... no outro dia Bel até me perguntou se ainda estava com vontade de fazer isto. Claro. É mais uma necessidade. Nove meses depois, já devem ter consertado muita coisa, ou sei lá.... queria falar com nossos amigos também... mas em pessoa...  tenho o telefone de uns... mas como encontrar a Cris, por exemplo? 

Nove meses, o tempo de uma gestação humana. Será que foi o tempo suficiente pra eu gerar forças e por os pés em Friburgo? Acho que cada mes que passa fico mais forte pra poder fazer isto, mas não me engano: sei que quando for, vou sofrer muito, isto o tempo não vai conseguir mudar. Mesmo anos depois. Mas quero me sentir o mínimo preparada emocionalmente, pra não sair do eixo. Existe isto, estar preparada? como é que a gente se prepara? às vezes acho melhor não ir. Talvez fosse melhor ir sozinha. Ou seria bom uma companhia? será que dá pra entrar no portão da rua? tenho as chaves. Será que ainda são as mesmas? será que tenho que pedir autorização à família? meu Deus, o que será que aconteceu com aquilo tudo? será que a advogada guardou fotos pra mim, que pedi? quando será a hora de eu ver estas lembranças? como vou me sentir conversando com o Kato? e com o Augusto?

Penso, mas só consigo pensar. No mais, paro.

tudo se desfaz

Esta madrugada me acordou com uma chuva torrencial lá fora. Parecia uma cachoeira descendo pelas escadas, do lado da minha janela. Tonéis de água, água, água. Uns raios poderosos rompantes no céu faziam tudo tremer, mas mesmo sem vê-los, sabia pelo som que eram daqueles de nuvem pra nuvem: ficam aqueles desenhos costurando na horizontal, mas nenhum cai na terra com aquela violência elétrica descarregando o universo irado. O ar condicionado tinha parado, e a luzinha da noite estava apagada, donde concluí que estávamos sem luz. Não preciso nem dizer mas digo: num cenário como este, sem querer, se não to pensando em você, passo a pensar, e se estava pensando, penso com toda a força. Como deve ter sido angustiante suas últimas horas. Parece que o aconteceu em Friburgo foram horas e horas de chuva. Chuva bíblica, dilúvio de Noé, primeiro testamento. Como deve ter passado coisa na sua cabeça. Você em algum momento pensou em sair de sua casa e ir pra outro lugar? acho que não, pois lá era um lugar seguro... onde poderia ser mais seguro que ali? e como estaria a rua? carros sendo levados, o Rio Bengala já fora de seu leito,carregando tudo que encontrava pela frente... estamos falando do centro de Friburgo, área nobre.
Será que ce sentiu medo?

Perguntas que não canso de perguntar. 

Minha madrugada de tempestade virou uma manhã chuvosa, depois nublada. Saí pra dar a minha caminhada, e na floresta do Silvestre estava tudo verde brilhante, molhado, um cheiro delicioso de terra molhada, e cheiro de tronco também... um pouco de eucalipto, outro tanto de jaqueira, árvores da Mata Atlântica. Um nevoeiro denso cobria o Cristo e a montanha, deslizando pra baixo e chegando à estrada, onde se desfazia lentamente. 

Tudo se desfaz. É disto que se trata a vida. Não é incrível como uma madrugada de chuva tão intensa e tão ruidosa pode ter se transformado nesta manhã tão calma, tão fresca, tão quieta, de céu querendo ficar azul? 

Saturday, October 1, 2011