Wednesday, March 23, 2011

operação de Nelson

Nelson operou bem cedinho de manhã, com anestesia local e sedação, demorou uma hora e meia, foi um sucesso. O Ricardo, um gênio no bisturi e um amor de pessoa. Dormiu o dia todo até 6 da tarde, quando veio o outro médico da equipe, o André, que disse que ele poderia ir pra casa naquela mesma noite, e lá fomos nós catar um taxi, ele meio grogue ainda, de turbante, todo enfaixado de gaze, inchado e vermelho, pra casa. Aqui entre nós, eu estava preferindo passar a noite lá: qualquer coisa que acontecesse, estaríamos no hospital... me sentiria mais segura, com menos responsabilidade nas costas, e- por incrível que possa parecer- naquele sofanete eu descansaria mais, porque chegar em casa, iria ser aquela coisa: comidinha especial, pegar coisas aqui e ali pra ele, dar aquela atenção redobrada. Mas assim que o médico deu esta alternativa, ele disse que queria ir pra casa, e fomos.

Chovia uma garoa. Chegou e comeu especialidades da casa: canja orgânica bem picadinha, purê de batata, vitamina de abacate com mel de figos, coisas pastosas para não mexer mastigando muito na região. Dormiu mal, aliás passou 3 dias sofrendo daquelas dores violentas na pleura (ce sabe que o período crítico é de manhã quando acorda, e às vezes quando acorda de noite). Acho que foi o stress de tudo, somado a ficar deitado por tanto tempo naquele leito de hospital. Hoje está bem, com menos dor, e eu feliz. Isto já me faz ficar feliz: menos dor.

E você? que ce anda fazendo? como é aí em cima? tem piano, teclados? fez amizade? encontrou alguém conhecido? gostaria tanto de saber tanto de você tanto... 

Sonhei com tua casa no outro dia. Nada lembrava, mas era sua casa. A casa dava pra rua, uma rua transversal pequena, e não a Avenida. A casa estava em ruínas, mas as paredes continuavam de pé, como se o telhado tivesse apodrecido e caído. Plantas cresciam entre os escombros. Tinha uns raios de sol por entre as árvores, mas era de noite, não me pergunte como. Ao entrar na casa, encontrei um bilhete pra mim com sua letra que conheço tanto, aquela letra grande ocupando todo um A4, dizendo que ce tinha saído, mas que ce voltava já, que era pra eu esperar. Tinta hidrográfica azul. De repente, deu um vento, e voou da minha mão, se enfiando por entre os sacos. Aí reparei os sacos: milhares de coisas suas em sacos plásticos transparentes devidamente organizados, lembranças, papéis, pequenos objetos de metal, canetas, muitos sacos no chão e uns em cima dos outros. Ce iria viajar? jogar fora as coisas? nas entrelinhas havia uma coisa trágica. Andando pelos cômodos, todos sem teto, mas com as paredes de pé, encontrei a Cláudia (que não conheço, só falei pelo telefone), advogada da sua família, sentada no quintal com uma outra pessoa. Saí andando e encontrei a Glória (que não vai à Friburgo a 30 anos), e fomos caminhando, ela me consolando, nem desconfiei que era sonho, apesar de todos os absurdos, mas sonho é assim mesmo... aí andando, acordei. Sempre com lágrimas.

Que mistura... você vivo, você morto... você aonde está? encontrei a sua havaiana embaixo da cama aqui em casa... a cama que ce dormia... e deixei lá mesmo, como que te esperando. Não dá pra tirar de lá, assim como teu nome continua nos meus contatos, e na minha agenda telefônica. Não vou tirar nunca. É assim mesmo que se faz? sei lá, só sei fazer assim agora...

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