Mario Mario... este seu silêncio está cada vez mais me pesando, e fazendo cada poro meu acreditar que você se foi... é muito silêncio, nunca ficamos assim.
Sei... sei de tudo... mas é difícil saber, é difícil crer, é difícil viver o sabido. Agora a Amy Winehouse morreu, alguns dizem que foi droga demais, outros dizem que foi droga de menos (fase de abstinência), e eu fico pensando que se eu acreditasse que há vida após a morte, teria a certeza que ces já se encontraram pelas esquinas do céu e que tá rolando o maior som.... e fico pensando também que poderíamos ter tido este fim também, e há quarenta anos antes.... loucura por loucura, a nossa não ficou nem um pouco atrás. Atitudes dela me assustam pela semelhança a mim... daquela época..
A droga, eu acho, é uma coisa inevitável, ainda mais pro artista. Era muito bom beber ou fumar algo e de repente vinha uma letra, uma melodia, uns acordes... eu me sentia mais inspirada, aliás a sensação que dava era exatamente como se alguém estivesse soprando no meu ouvido coisas. Tentei fazer uma ponte entre aquele estado e o sem nada, e jamais consegui. Claro que havia vezes que não “baixava” algo que prestava, mas era raro. Ora, mesmo de careta não é sempre que estamos inspirados. Mas aquela droga era de fato um empurrão para outro patamar, outro estado mental, abrindo portas para o inconsciente bloqueado pela “vida real”. Era tão bom, e sem dúvida tudo ficava mais divertido.
Hoje não bebo nem fumo absolutamente NADA, há mais de dez anos... e to achando ótimo, maravilhoso. Tive meus anos de loucura total que não foram poucos, e agora não quero mais, tudo mudou e acho até careta ficar nesta. Mas nos anos 70 era revolucionário, transgressor e tinha tudo a ver com o momento histórico que estávamos vivendo. Pra mim, não poderia ser de outra forma, e foi fundamental para eu ser o que sou agora.
Mas vamos a você. No outro dia me lembrei de uma coisa, comendo um cone japones (daqueles que agora tem aos montes por aí, uns banquinhos e mesinhas leves, um pequeno espaço e pronto! fazem um conezeria. Muito bom!). Seis dias antes de sua morte eu e Nelson fomos aí... aliás... em Friburgo, e fomos celebrar seu aniversário naquele japones na tua rua mesmo. Nunca tínhamos ido a este restaurante, mas morríamos de rir do seu outdoor, que era a foto de um japones gordíssimo com uma faca imensa na mão. numa atitude pra lá de ameaçadora. Nunca deu vontade de comer ali. Mas como era pertinho, era meio tarde, a fome gemia, e era seu aniversário, tinha que ser num lugar diferente e especial. Pedimos um cone de entrada, e você nos contou que nunca havia comido aquilo antes... como é que se comia? desajeitadamente ce começou a saborear aquela delícia, curtindo mesmo, mas deixou cair prato afora, splashando tudo e ce morreu de vergonha. Olhou em volta, mas ninguém tinha visto, eu falei que era assim mesmo, também já tinha acontecido a mim... mas me comoveu tanto a sua falta de jeito, e mais ainda que ce era tão tímido pra certas coisas... fora do palco, ce detestava chamar atenção, e muito menos que os outros rissem de você.