Saturday, July 30, 2011

drogas e cone


Mario Mario... este seu silêncio está cada vez mais me pesando, e fazendo cada poro meu acreditar que você se foi... é muito silêncio, nunca ficamos assim.

Sei... sei de tudo... mas é difícil saber, é difícil crer, é difícil viver o sabido. Agora a Amy Winehouse morreu, alguns dizem que foi droga demais, outros dizem que foi droga de menos (fase de abstinência), e eu fico pensando que se eu acreditasse que há vida após a morte, teria a certeza que ces já se encontraram pelas esquinas do céu e que tá rolando o maior som.... e fico pensando também que poderíamos ter tido este fim também, e há quarenta anos antes.... loucura por loucura, a nossa não ficou nem um pouco atrás. Atitudes dela me assustam pela semelhança a mim... daquela época..

A droga, eu acho, é uma coisa inevitável, ainda mais pro artista. Era muito bom beber ou fumar algo e de repente vinha uma letra, uma melodia, uns acordes... eu me sentia mais inspirada, aliás a sensação que dava era exatamente como se alguém estivesse soprando no meu ouvido coisas. Tentei fazer uma ponte entre aquele estado e o sem nada, e jamais consegui. Claro que havia vezes que não “baixava” algo que prestava, mas era raro. Ora, mesmo de careta não é sempre que estamos inspirados. Mas aquela droga era de fato um empurrão para outro patamar, outro estado mental, abrindo portas para o inconsciente bloqueado pela “vida real”. Era tão bom, e sem dúvida tudo ficava mais divertido. 

Hoje não bebo nem fumo absolutamente NADA, há mais de dez anos... e to achando ótimo, maravilhoso. Tive meus anos de loucura total que não foram poucos, e agora não quero mais, tudo mudou e acho até careta ficar nesta. Mas nos anos 70 era revolucionário, transgressor e tinha tudo a ver com o momento histórico que estávamos vivendo. Pra mim, não poderia ser de outra forma, e foi fundamental para eu ser o que sou agora.

Mas vamos a você. No outro dia me lembrei de uma coisa, comendo um cone japones (daqueles que agora tem aos montes por aí, uns banquinhos e mesinhas leves, um pequeno espaço e pronto! fazem um conezeria. Muito bom!). Seis dias antes de sua morte eu e Nelson fomos aí... aliás... em Friburgo, e fomos celebrar seu aniversário naquele japones na tua rua mesmo. Nunca tínhamos ido a este restaurante, mas morríamos de rir do seu outdoor, que era a foto de um japones gordíssimo com uma faca imensa na mão. numa atitude pra lá de ameaçadora. Nunca deu vontade de comer ali. Mas como era pertinho, era meio tarde, a fome gemia, e era seu aniversário, tinha que ser num lugar diferente e especial. Pedimos um cone de entrada, e você nos contou que nunca havia comido aquilo antes... como é que se comia? desajeitadamente ce começou a saborear aquela delícia, curtindo mesmo, mas deixou cair prato afora, splashando tudo e ce morreu de vergonha. Olhou em volta, mas ninguém tinha visto, eu falei que era assim mesmo, também já tinha acontecido a mim... mas me comoveu tanto a sua falta de jeito, e mais ainda que ce era tão tímido pra certas coisas... fora do palco, ce detestava chamar atenção, e muito menos que os outros rissem de você.




seis meses

Foi há seis meses atrás que ce se foi (como é que aconteceu isto???? ter sido vítima do maior desastre ambiental da história do país????? uma casa tão boa, numa área nobre, ainda ainda não dá pra eu me conformar... só acredito por causa do seu silêncio), com as enchentes que destruíram o centro de Friburgo. Por um lado, penso: nossa! já seis meses, como passou rápido. Por outro, a saudade é uma saudade de anos... há tanto tempo não ouço a sua voz, não o vejo, a gente não conversa, a gente não faz show... parece que foi há anos a última vez...

Mas a vida segue, não há como ser de outra forma. No exato dia 12, fui ver o Meia-Noite em Paris, último filme do Woody Allen (que adorei), e dediquei este prazer a você, meu querido. 

Lembra? nós moramos no começo dos anos 80 nesta cidade, e relembrei nossas aventuras, tocando no Via Brasil, e indo a pé pra casa depois do show, só pra curtir Paris. Levava uma hora ou mais, mas era tão lindo, que passava num instante. A gente ia caminhando, e como estávamos sempre meio alcoolizados, nem sentíamos o tempo passar. As ruas, os cartões-postais (que no começo do filme se apresentam em slideshow e que reconheci, lindos lindos) que foram cenário para nossas histórias. Acho que ce iria gostar muito de ver o filme, certamente veríamos juntos, se estivesse vivo. Fui no São Luiz, Largo do Machado, lugar que frequentamos muito nos anos 70... 

Agora na TV, já há tres dias, reportagens sobre a Região Serrana seis meses após a tragédia, do jeito que ainda está, destruída (parece que aconteceu ontem) e abandonada, com desvio de verba de milhões... onde foi parar este dinheiro? 

Eu ainda não voltei. 

Sunday, July 10, 2011

frio


Mario, que frio!!! olha que gosto de frio, mas não me lembro de ter passado por um inverno tão frio aqui no Rio. Será que é já aquele papo de que os extremos vão ficar cada vez mais extremos, verão vai ser inferno e frio, uma sibéria? pois tá parecendo. A água na torneira tá gelando a mão. Todo mundo de touca de lã. Temos usado até luvas em certas horas, e calça embaixo de calça... várias camadas... e comer comer comer... à toda hora... de preferência, bastante carboidrato, massas, arroz feijão, tortas de maçã e banana feitas em casa, sopas de todos os tipos, especialmente de cevadinha, canja, estas mais consistentes, com muito carboidrato. Vou ficar uma bola. É tão fácil engordar, e pra perder é uma tristeza...

Lembro dos frios que já passei. Lagoa das Lontras, lembra quando resolvi morar lá? depois cê apareceu e quis morar lá comigo, papai disse -só casando- e a gente concordou e íamos casar na capelinha local... pois bem, foi justamente nos meses de inverno... de maio a agosto. Rio de Janeiro mesmo, distrito de Miguel Pereira, mas era alto: mil metros de altitude. E lá ventava muito, e aquele vento gelado queimando a cara da gente.... pra dormir, esquentávamos um tijolo no forno pra por no pé pra conseguir dormir... e pra tomar banho? ai! e quando o aquecedor deu problema, tínhamos que tomar banho gelado? eu corria umas cem vezes em volta da casa pra conseguir. Você preferia tomar banho de mangueira no sol, e nu. E sempre, muita cachaça na goela.

Depois Europa. Engraçado: os lugares onde mais senti frio foram justamente Barcelona, Madrid e Paris, onde não havia uma calefação adequada, nem água quente em qualquer torneira (não sei como é agora, isto faz quase trinta anos atrás). O termômetro chegou a medir menos um grau no quarto de dormir. E em Barcelona? nevou!!! há vinte anos não nevava!!! chorei de emoção, alegria e êxtase, mas ninguém em nenhum lugar ali naquele momento estava preparado para isto, e nos lugares em que ficamos, meu deus! em La Floresta, na serra? e na casa da Maite, amiga que nos hospedou por um tempo? o banheiro ficava na varanda, cheia de frestinhas passando por aquelas janelas de construção milenar... o assento da privada era uma tortura, inibia qualquer vontade de mijar ou cagar, só meditando muito... Na Alemanha e Suíça, surpreendentemente ao contrário: onde esperava-se morrer de frio, que nada! em todo lugar, aquele calor danado. Só na rua mesmo é que dava aquele friozinho, era só se agasalhar bem, com as roupas térmicas compradas ali e, tudo bem. Sentir frio na rua é bom, sabendo que quando chegar em casa, vamos ser envolvidos por um calorzinho bom que nos relaxa e nos conforta... 

Fico imaginando como estará aí em Friburgo. Ops... lá. Também já senti muito frio lá. Você era muito resistente, vestia aquela camisa de brim, uma jaqueta, um boné e pronto! um cobertorzinho de noite e ya está!!! eu era mais difícil de esquentar, e ainda por cima essa minha coisa de sentir frio nas extremidades: nariz gelado, orelhas, mãos dormentes e pés, dois blocos de gelo, independente de quantos pares de meia estivesse usando, bota, tenis forrado ou pantufa de lã.... pés e mãos sempre frios, um saco. Ainda hoje é assim, acho que tá até pior!! idade????

Mas me lembro de nós vindo de Sevilha, chegando em Madrid de madrugada quase amanhecendo, a gente hospedado num hostal, e não havia meio de me aquecer. Eu estava recém-chegada do Brasil, tudo era uma excitante novidade, tudo tinha cheiro de mágica. Aí ce teve a inspirada idéia- vamos descer agora- e eu- mas são quatro e meia da manhã. E saímos à rua (você quando cismava, não desistia por nada). Fomos parar em frente a um quiosque que nos serviu um copão de chocolate quente que jamais vou esquecer. Foi o primeiro daquela espécie que tomei, nem sabia que aquilo existia nesse mundo: grosso como um mingau e escuro como açaí. Fumegando. Senti aos poucos o calor descendo para meus pés, invadindo minhas extremidades: comecei a sentir as mãos novamente, o nariz funcionava e as orelhas foram amolecendo. Aquele gosto de comida dos deuses- tesão delícia na minha língua boca dentes e nádegas.... 

Depois sim, fomos dormir.







Saturday, July 9, 2011

Ontem fui com Nelson, o médico da dor sugeriu que ele fizesse uma fisioterapia chamada TENS. Com adesivos, colam uns fiozinhos e ligam uma máquina, e ele vai sentindo uns choquinhos, e vai dando uma amortecida, um formigamento, uma anestesiada na região afetada. Havia sido uma semana tão difícil, eu estava apavorada, desesperançada, chorando atoa, mas sempre sem ele ver, sem ele notar, porque o que ele vê que vem de mim é otimismo, alegria, cantoria, bobagens, muito carinho, e leveza no ar. É o que mostro pra ele. E mesmo por dentro, penso positivo. É a única maneira de encarar este tremendo desafio que me foi arremessado. Não pensar, não procurar coisas sérias- filme, livro, papos- e acima de tudo, acreditar em milagres. 

O que está acontecendo já é um milagre. Hoje por exemplo, depois desta semana de tanta dor, tanto física como psicológica, Nelson fez bases e taichi, enquanto eu saí pra caminhar (dormi no outro quarto e dormi tão bem, que consegui dar a minha caminhada matinal). Há muito tempo que ele não faz exercício, e isto é tão bom, é uma prova pra quem pensa que já não há mais nada a fazer: ele pode reverter a situação, e aos poucos conseguir sua energia de volta, seu corpo... eu acredito, e só assim posso conviver com esta situação. De outro jeito, nada.  E mais: ainda foi para um almoço político com o Jorge, e tocaram!!!! mas uma coisa depende da outra: pra ele estar bem precisa tocar, e pra tocar, precisa estar bem. Estar bem é estar com pouca dor.

Queria ter a fé da Ilda. Ela crê que pra Deus não existe milagre, Ele pode tudo. To fazendo força pra acreditar também, e to quase conseguindo. Ela foi no fim de semana passado pra Conselheiro Paulista numa caravana católica de sua igreja, evento focado nas curas impossíveis, e aí pediu pra eu escrever pedindo cura pro Nelson, que ela poria lá, ela mesmo fez isto, mas se eu escrevesse, ia ser ainda mais forte. Peguei uma folha em branco, perguntei mais ou menos como me endereçar a Deus (nem sei rezar direito, quanto mais escrever pra Deus...) e coloquei: 

“Peço a Deus que acabe com as dores do meu marido Nelson, e que o cure do câncer carcinoma adenoide cístico com metástase no pulmão e pleura. Ele merece, pois é um homem bom, esforçado, e que nunca faria mal a ninguém”.

Soa como coisa de novela, mas foi o melhor que pude fazer. E quem sabe algo já esteja acontecendo? que bom seria se fosse assim. Será que é? bem... caravana ou fisioterapia, tudo que puder ser feito, será.

Wednesday, July 6, 2011

ce tem cantado?

E a música, Diana, ce tem cantado?

Esta é uma pergunta que, volta e meia, me é arremessada por alguém que encontro casualmente e que não me vê há um tempo. Dou meia volta, e digo sim, aqui e ali, ensaiando, to com alguns projetos, cito meu último trabalho, e assim escapo pela tangente. Pois desde que você morreu, Mario, não tenho tido interêsse por música nem cantar. Bem, há tres meses fiz uma participação no show Assis Valente, chamada pelo Moreno. Gostei muito. Se alguém chamar eu vou, se for legal. Mas a verdade é que parece que tomei uma intravenosa de morfina. Nunca tomei, não sei o que seria isto, mas deve dar uma sensação de entorpecimento, assim como me sinto agora... anestesiada, paralizada. 

Em 2009 a doença do Nelson ficou mais ativa, e as dores começaram, a princípio leves, quase que apenas incômodos, pra depois culminar agora, em 2011, nisto que estamos vivendo. Mas naquele ano fui te visitar, e ce comentou que queria recomeçar o nosso trabalho, eu lhe falei, com toda a sinceridade daquele momento, que não! não tava pensando em cantar, tava deprimida por tua causa etc etc... e joguei um balde de água fria nesta idéia. Mas em 2010, quando começou a quimio, ficou tão pior, que eu só tinha um caminho pra não pirar: era cantar. E novamente ce me falou, insistindo. E concordei extasiada com a porta que estava se abrindo pra mim, numa hora tão oportuna, e quem estava abrindo esta porta era você. Logo você, com quem sempre estive trabalhando por quarenta anos, com quem sabia que, independente de ensaios, qualquer show que apresentássemos iria ser o máximo, iria ser excelente, porque a gente se completava no palco, a gente se entendia no palco, formava-se um magia em torno de nós, e acontecia um rito sagrado. Tudo dava certo. Você tinha uma admiração por mim há anos, e isto me dava uma puta segurança em cena pra poder me soltar mais, brincar mais, ser mais espontânea e verdadeira. Nos passamos por muita coisa juntos, éramos cúmplices de muitas situações. Eu gostava demais de me apresentar ao seu lado. 

Encurtando, sinto que foi você que me despertou de novo pra cantar, me resgatou de lá de uma fossa distante e me reergueu. Me chamou. Acreditou em mim. Me deu força.

E começamos a fazer shows. De blues, claro. Datas fechadas, em Friburgo e no Rio.

De repente acontece o cataclisma na Região Serrana, e você morre. Levando tudo isto de que falo aí em cima. 

Agora voltei pra aquela fossa em que tava quando ce me resgatou, mas tá pior, porque agora penso que NÃO É MAIS PRA EU CANTAR. NÃO É MEU DESTINO MAIS, NÃO É MAIS A MINHA HISTÓRIA. Agora que estávamos juntos como nunca, tocando como nunca, acaba assim de um dia pro outro? o que se aprende com um fato como este??? isto não é pra mim....





a primeira vez

Pode ser que tenha sido antes, mas lembro de você pela primeira vez sentado com o João na primeira fila do lado direito do palco, assistindo a um dos shows da Equipe Mercado, o Troforofô,  no Teatro Poeira, finais de 1970. Era um show em que tinha um número instrumental em que eu fazia uma dança criada na hora. E no final de tudo, distribuimos tampas, panelas e outros à platéia, e fizemos uma música coletiva de percussão, vozes, e instrumentos eletrônicos, além de um sintetizador. 

Pena que não tem um único registro, nem de áudio, nem de vídeo, e nem fotográfico... hoje é tão banal gravar tudo, até o telefone faz esta função, de olho fechado. Mas não tem nada não. Só quem estava lá é quem sabe como foi e o que foi aquele show. Este é todo o charme e a magia dos existenciais anos 70... 

Mas lembro de ter reparado a sua pessoa. E como não? um rapaz de quase dois metros de altura, magro, louro, cabeludo e muito bonito. Naquele dia, não lembro mais de você, mas um tempo depois ce apareceu na casa da gente na Rua Julio Otoni. Seu contato era o Sagrá, baterista que tocava com a gente, e através dele, viemos a nos conhecer, nos relacionar e tocar juntos. Mas sempre assim, de longe. Exatamente um ano depois, a Equipe Mercado fez seu último show, Na Mata Encantada, no Tereza Raquel e fiquei me apresentando em dupla com o Stul, e chegamos a gravar um compacto. Foi quando surgiu a idéia de fazer uma banda. Esta seria mais roqueira, e daí você entrou, junto com o João del Águila na batera e Barroco na guitarra. 

Reviravolta profissional, estética, conceitual, pessoal e afetiva. Muita coisa pra uma só crônica. Vamos aos poucos.

Monday, July 4, 2011

a lista

Achei uma lista de coisas que faltavam pra eu levar praí da próxima vez que subisse. Tava na pasta de letras que usei no último show: pochete, colirio, manteiga de cacau. E no verso do mesmo papel, coisas que não precisava trazer, lista mais extensa, por sinal:
meia pra caminhada
meia lã
touca branca
2 blusas pra show
óleo mineral
caderninho de palavras cruzadas
lenços para tirar maquiagem
pijama
moleton 
boá pra show
sandália havaiana
croc
tênis
bota pra show

Da última vez que subi foi com Nelson, era teu aniversário, uma semana antes de você morrer. Ce pegou minha mala na rodoviária e pos no carro, como sempre. E comentou: nossa, tá levinha! e eu- tudo que vou precisar já tá aqui! Eu tava me mudando praí, vida nova, um futuro inesperado pela frente, uma luz de uma cor inimaginável brilhando num túnel que já estava no fim. Em breve, eu compraria uma mesa grandona pra chamar os amigos e fazermos almoços lá fora, uma tv por assinatura pro Nelson, um bom fogão.

 É estranho ler esta lista. Me sinto tão pequena.

a gruta

Passei hoje por aquele kitchinete em que moramos por uns meses, no cotovelo onde a Rua Aprazível se encontra com a Rua do Aqueduto. Aquilo ali foi o lugar mais inóspito em que estive, e claro, não podia dar certo. Como pudemos viver ali? nem o frescor da juventude, nem o espírito de aventura, nem a impetuosidade de nossos destinos... nada poderia nos proteger contra aquele baixo astral. Tínhamos que ter nos separado... 

Era uma gruta dentro da terra. Úmido que nem beira de rio. Escuro que nem fundo de poço. Mofos e fungos. Nosso vizinho de cima, uma mangueira e um jardim. A fachada, uma porta estreita, uma janela e um basculante. Como dormíamos ali? como comíamos ali? como trepávamos ali? e mesmo assim, decoramos o ambiente, pintamos as paredes, pusemos uma cortininha e uma planta na janela... e tocávamos e compúnhamos, e tentávamos sonhar e ser felizes, apesar do mofo, da escuridão, e da certeza de que aquilo ali não poderia continuar por muito tempo.

Tempos sombrios. Começamos a nos distanciar. Muita confusão mental. Drogas legais e i. Rolou pra você uns casos por fora, noites a sós naquela fossa te odiando e me mordendo. Depois eu que não quis mais, e fui pousar em outros endereços. Acabou que acabou. Feio, mas apaixonado por ambos os lados. Isto foi há muito tempo atrás, depois voltamos, e fomos e voltamos. Mas ali foi o pior de todos os fins...

Foi também o fim do Diana & Stul.

A um tempo atrás, tinha um aviso pregado na porta: interditado pela Defesa Civil, proibida a entrada. Só agora, depois de quarenta anos, perceberam isto? Já era hora!!!! e um cadeado lacrando o recinto. Recentemente, fizeram uma obra de responsa, algum estrangeiro deve ter comprado o conjunto todo (Santa Teresa atualmente está sendo vendida pra fora), me arrependi de não ter tirado foto: descendo a Aprazível, dava pra ver o kitchinete por cima, tiraram o jardim, árvore, laje em cima, dava pra ver as paredes, aquele piso de vermelhão... deveria ter tirado uma foto. Agora tá tudo bonitinho, não entrei lá pra ver, mas fizeram uma reforma geral, devem ter até incorporado a gruta ao resto da casa, impermeabilizadinho, habitável, salutar.

E fica a lembrança da noite que o Kouhotec ia passar pelo céu do Rio. Saímos da nossa gruta às tres e meia da manhã, e subimos ladeira acima até o Rato Molhado, onde a Martha (Pires Ferreira) comandava todo um happening sobre o fenômeno. Tinha o quê... umas trinta, quarenta pessoas. O cometa não passou, mas que foi uma farra, ah, isso foi. Valeu, Martha!!! Aliás, tenho que falar da Martha aqui. A primeira astróloga brasileira, que quando ainda ninguém nem sabia o que era isto, nem ouvia falar de astrologia, estava ela a ler os nossos mapas astrais confeccionadas por ela, depois de cálculos e mais cálculos, aqueles emaranhados de traços de caneta bic de várias cores, que só ela entendia, traços que acertavam em cheio. Ela morava ao lado, na casa antiga geminada à nossa gruta, que havia virado em imóvel de apartamentos individuais. O dela era lindo, tinha até um jirau. Éramos muito amigas.

Me lembro também de você me levar pra andar pela Aprazível, porque eu estava passando mal... andando andando andando, até aquela coisa ruim passar. 

E outra: de manhã cedinho (era frequente), a silhueta de sua mãe velhinha, tão querida, deixando biscoitinhos, queijinhos, chocolatinhos no parapeito da janela, a gente deitados na cama só olhando, sem respirar, mudos, imóveis, fingindo de mortos (não precisava fingir...), depois de uma noite viajando de ácido ou de sei lá o quê, apenas uma cortina diáfana de pano a nos separar da vida pulsando que vinha janela adentro. Nós, que nos achávamos protegidos contra o cruel mundo lá fora, na nossa toca inviolável, éramos atingidos no peito por uma bala de canhão: a realidade. O absurdo da situação, aquela sensação ruim de ter virado a noite, agora que íamos tentar dormir, e vem aquilo entrando pela janela, e as pessoas fresquinhas, de banho tomado indo trabalhar, e a manhã ensolarada e brilhante nos ofuscando, nos ensurdecendo com seu ruído de vida, e a única coisa que a gente queria naquele instante era apagar. Conseguir dormir. Coisa difícil, a afetamina ainda no organismo, e uma depressão horrorosa.

Anos 70.