Wednesday, July 6, 2011

ce tem cantado?

E a música, Diana, ce tem cantado?

Esta é uma pergunta que, volta e meia, me é arremessada por alguém que encontro casualmente e que não me vê há um tempo. Dou meia volta, e digo sim, aqui e ali, ensaiando, to com alguns projetos, cito meu último trabalho, e assim escapo pela tangente. Pois desde que você morreu, Mario, não tenho tido interêsse por música nem cantar. Bem, há tres meses fiz uma participação no show Assis Valente, chamada pelo Moreno. Gostei muito. Se alguém chamar eu vou, se for legal. Mas a verdade é que parece que tomei uma intravenosa de morfina. Nunca tomei, não sei o que seria isto, mas deve dar uma sensação de entorpecimento, assim como me sinto agora... anestesiada, paralizada. 

Em 2009 a doença do Nelson ficou mais ativa, e as dores começaram, a princípio leves, quase que apenas incômodos, pra depois culminar agora, em 2011, nisto que estamos vivendo. Mas naquele ano fui te visitar, e ce comentou que queria recomeçar o nosso trabalho, eu lhe falei, com toda a sinceridade daquele momento, que não! não tava pensando em cantar, tava deprimida por tua causa etc etc... e joguei um balde de água fria nesta idéia. Mas em 2010, quando começou a quimio, ficou tão pior, que eu só tinha um caminho pra não pirar: era cantar. E novamente ce me falou, insistindo. E concordei extasiada com a porta que estava se abrindo pra mim, numa hora tão oportuna, e quem estava abrindo esta porta era você. Logo você, com quem sempre estive trabalhando por quarenta anos, com quem sabia que, independente de ensaios, qualquer show que apresentássemos iria ser o máximo, iria ser excelente, porque a gente se completava no palco, a gente se entendia no palco, formava-se um magia em torno de nós, e acontecia um rito sagrado. Tudo dava certo. Você tinha uma admiração por mim há anos, e isto me dava uma puta segurança em cena pra poder me soltar mais, brincar mais, ser mais espontânea e verdadeira. Nos passamos por muita coisa juntos, éramos cúmplices de muitas situações. Eu gostava demais de me apresentar ao seu lado. 

Encurtando, sinto que foi você que me despertou de novo pra cantar, me resgatou de lá de uma fossa distante e me reergueu. Me chamou. Acreditou em mim. Me deu força.

E começamos a fazer shows. De blues, claro. Datas fechadas, em Friburgo e no Rio.

De repente acontece o cataclisma na Região Serrana, e você morre. Levando tudo isto de que falo aí em cima. 

Agora voltei pra aquela fossa em que tava quando ce me resgatou, mas tá pior, porque agora penso que NÃO É MAIS PRA EU CANTAR. NÃO É MEU DESTINO MAIS, NÃO É MAIS A MINHA HISTÓRIA. Agora que estávamos juntos como nunca, tocando como nunca, acaba assim de um dia pro outro? o que se aprende com um fato como este??? isto não é pra mim....





No comments: