Passei hoje por aquele kitchinete em que moramos por uns meses, no cotovelo onde a Rua Aprazível se encontra com a Rua do Aqueduto. Aquilo ali foi o lugar mais inóspito em que estive, e claro, não podia dar certo. Como pudemos viver ali? nem o frescor da juventude, nem o espírito de aventura, nem a impetuosidade de nossos destinos... nada poderia nos proteger contra aquele baixo astral. Tínhamos que ter nos separado...
Era uma gruta dentro da terra. Úmido que nem beira de rio. Escuro que nem fundo de poço. Mofos e fungos. Nosso vizinho de cima, uma mangueira e um jardim. A fachada, uma porta estreita, uma janela e um basculante. Como dormíamos ali? como comíamos ali? como trepávamos ali? e mesmo assim, decoramos o ambiente, pintamos as paredes, pusemos uma cortininha e uma planta na janela... e tocávamos e compúnhamos, e tentávamos sonhar e ser felizes, apesar do mofo, da escuridão, e da certeza de que aquilo ali não poderia continuar por muito tempo.
Tempos sombrios. Começamos a nos distanciar. Muita confusão mental. Drogas legais e i. Rolou pra você uns casos por fora, noites a sós naquela fossa te odiando e me mordendo. Depois eu que não quis mais, e fui pousar em outros endereços. Acabou que acabou. Feio, mas apaixonado por ambos os lados. Isto foi há muito tempo atrás, depois voltamos, e fomos e voltamos. Mas ali foi o pior de todos os fins...
Foi também o fim do Diana & Stul.
A um tempo atrás, tinha um aviso pregado na porta: interditado pela Defesa Civil, proibida a entrada. Só agora, depois de quarenta anos, perceberam isto? Já era hora!!!! e um cadeado lacrando o recinto. Recentemente, fizeram uma obra de responsa, algum estrangeiro deve ter comprado o conjunto todo (Santa Teresa atualmente está sendo vendida pra fora), me arrependi de não ter tirado foto: descendo a Aprazível, dava pra ver o kitchinete por cima, tiraram o jardim, árvore, laje em cima, dava pra ver as paredes, aquele piso de vermelhão... deveria ter tirado uma foto. Agora tá tudo bonitinho, não entrei lá pra ver, mas fizeram uma reforma geral, devem ter até incorporado a gruta ao resto da casa, impermeabilizadinho, habitável, salutar.
E fica a lembrança da noite que o Kouhotec ia passar pelo céu do Rio. Saímos da nossa gruta às tres e meia da manhã, e subimos ladeira acima até o Rato Molhado, onde a Martha (Pires Ferreira) comandava todo um happening sobre o fenômeno. Tinha o quê... umas trinta, quarenta pessoas. O cometa não passou, mas que foi uma farra, ah, isso foi. Valeu, Martha!!! Aliás, tenho que falar da Martha aqui. A primeira astróloga brasileira, que quando ainda ninguém nem sabia o que era isto, nem ouvia falar de astrologia, estava ela a ler os nossos mapas astrais confeccionadas por ela, depois de cálculos e mais cálculos, aqueles emaranhados de traços de caneta bic de várias cores, que só ela entendia, traços que acertavam em cheio. Ela morava ao lado, na casa antiga geminada à nossa gruta, que havia virado em imóvel de apartamentos individuais. O dela era lindo, tinha até um jirau. Éramos muito amigas.
Me lembro também de você me levar pra andar pela Aprazível, porque eu estava passando mal... andando andando andando, até aquela coisa ruim passar.
E outra: de manhã cedinho (era frequente), a silhueta de sua mãe velhinha, tão querida, deixando biscoitinhos, queijinhos, chocolatinhos no parapeito da janela, a gente deitados na cama só olhando, sem respirar, mudos, imóveis, fingindo de mortos (não precisava fingir...), depois de uma noite viajando de ácido ou de sei lá o quê, apenas uma cortina diáfana de pano a nos separar da vida pulsando que vinha janela adentro. Nós, que nos achávamos protegidos contra o cruel mundo lá fora, na nossa toca inviolável, éramos atingidos no peito por uma bala de canhão: a realidade. O absurdo da situação, aquela sensação ruim de ter virado a noite, agora que íamos tentar dormir, e vem aquilo entrando pela janela, e as pessoas fresquinhas, de banho tomado indo trabalhar, e a manhã ensolarada e brilhante nos ofuscando, nos ensurdecendo com seu ruído de vida, e a única coisa que a gente queria naquele instante era apagar. Conseguir dormir. Coisa difícil, a afetamina ainda no organismo, e uma depressão horrorosa.
Anos 70.
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