Wednesday, April 6, 2011

sem álcool, cinesanta e bicho preto

Tua cerveja sem álcool ficou na geladeira até a semana passada. Não foi nem pra deixar que deixei... via e ia deixando... Abria a geladeira e notava aquela lata num canto, depois nem notava, como se ela fosse uma peça adicional... e lá ficou. Mas agora abri e joguei pelo ralo da pia abaixo. Mas sei lá... teve uns dias no começo que eu não tirei de propósito, em sua homenagem, em sua lembrança: como ce gostava de comer com ela acompanhando, desde que parou de beber!!! Eu já não: achava aquilo uma enganação (pra quê tomar cerveja, se não dá barato?). Fui deixando, pra não mexer muito no tudo que havia mudado totalmente. Se você não estava, estava a sua cerveja... meus olhos se acostumaram com aquele objeto, como se estivesse te representando ali em pé solene...

Pois é assim que as coisas caminham, Mario. Pessoas me encontram e falam comigo, é este horror que sempre está me voltando, e não há outro jeito senão enfrentar. Assim como no outro domingo fui com a Glória no Cinesanta, e me lembrei. Me lembrei que queria tanto te levar lá pra ver um filme, te mostrar, toda orgulhosa, o nosso cineminha de bairro: poltronas, ar, telão, escurinho... bem ali no Largo do Guimarães, lugar que você conhece mais que a você mesmo.... tantas vezes tantas tantas que passamos por aí, juntos, separados, caretas, doidões, com a galera, só nós dois... tanto que vivemos... histórias neste Largo. Um cinema no bairro era um sonho na época- to falando dos anos 70, quando Santa Teresa era inteiramente desconhecida e abandonada, mas era adorável de se morar... mais segura, todo mundo se conhecia, menos gente etc etc... coisa de 40 anos atrás, isto em qualquer bairro, qualquer cidade, estado ou país. Mas este sonhado cinema nunca aconteceu e tínhamos que descer pra “cidade”, se quiséssemos ver algo. Agora que tem esta jóia, queria muito te levar. Ter te levado. Não deu tempo. Que merda.... não deu tempo. Queria ter ido contigo ver os Dzi Croquettes, ia ser demais: convivemos intensamente com estas pessoas, ia ser incrível vermos juntos. Mas não aconteceu, isto foi no ano passado, eu cuidando do Nelson, você ensaiando e tocando com Ithamara, ficou difícil marcar. Quando ce vinha, era pro ensaio, pro show, e depois ce queria subir logo pra Friburgo por causa das cachorras. Ce ficava preocupadíssimo com elas lá na casa sozinhas... água, comida, saúde... você era uma verdadeira mãe! 

Pois bem. As cachorras. As duas pretinhas. Me lembro que ce adorava bicho preto. Casquinha foi embora contigo na tragédia, vai ver que ela estava deitada do seu lado, ou então... outras razões... e a Farofa se salvou. Sobrevivente. Farofinha conseguiu se salvar, mas COMO???? 

Por que cachorro não fala? ela poderia me contar tudo que aconteceu. Quando é que a gente iria imaginar que ela moraria na Lagoa das Lontras? que Bel iria resgatá-la nos escombros (quem imaginaria que haveria escombros?). Farofa estava em cima de tudo latindo, Bel a pegou e trouxe-a pro Rio. Farofa aqui em Santa Teresa. Depois na Lagoa das Lontras? quando? quando é que iríamos imaginar tudo tudo que aconteceu?

Já cansei de tanto pensar imaginar descobrir o que de fato houve, quais foram suas últimas palavras, Mario, qual foi o seu último pensamento... não porque me confortaria, não porque melhoraria alguma coisa- NADA serve pra amenizar a tua morte- é que, por mais que a razão tem consciência do fato, a emoção não acredita e quer ouvir. Acho que o negócio tem que se esgotar daqui de dentro pra fora e pra dentro e depois pra fora pra sair... ah, sei lá....



Thursday, March 31, 2011

beethoven contra o câncer

Mario, ce não vai acreditar. Bem, acho que ce deve ter lido. Um artigo surpreendente, de arrepiar, saiu ontem no O Globo, Ciência: “Beethoven Contra o Câncer: células tumorais expostas à Quinta Sinfonia perderam tamanho ou morreram. A pesquisa foi feita pelo Programa de Oncobiologia da UFRJ, que expôs uma cultura de determinadas células à meia hora da obra. Uma em cada cinco delas morreu, e as sobreviventes apresentaram perda de tamanho e granulosidade!!!! ce leu? que fantástico, né? já imaginou se o Nelson algum dia puder se beneficiar deste “remédio”?

A Quinta Sinfonia é aquela que começa com aquelas quatro batidas, e que popularmente chama-se “do destino”. Caramba, ficamos todos cheios de esperança aqui!!! mostrei pra ele, mas ele não se interessou muito, eu é que fiquei assombrada com esta matéria. Não é incrível? não é maravilhoso? que glória seria se isto realmente desse certo. Porque, quando a medicina tem pouco ou nada mais pra oferecer, como é o caso dele, uma notícia destas realmente é animadora demais. Já imaginou chegar um dia em que entra-se no consultório, e o médico receita meia hora por dia ouvindo determinada música, ao invés de quimio, radioterapia? é um sonho!

Já tinha ouvido falar sobre o poder que a música tem nas plantas, mas sempre achei meio preconceituoso, porque dizia assim: música clássica tornava as plantas lindíssimas, viçosas, enquanto que rock ou funk matavam as mesmas. Rock e funk escurecia a água no copo, a música clássica formava lindos cristais brancos. Que coisa. Não dava pra acreditar numa coisa destas. Mas esta reportagem me parece séria, relevante, e perfeitamente crível: diz que esta Sinfonia em particular tinha esta habilidade, mas já uma peça que puseram de Mozart (Sonata para 2 pianos em ré maior), que é muito usada em terapias alternativas, não fez o menor efeito. Bem, por aí dá pra concluir que não é mérito do gênero de música, pra começar. Outra que também surtiu efeitos semelhantes nas células tumorais foi a composição “Atmosphères”, do húngaro György Ligeti, que me deu a maior vontade de conhecer. Como será?

Ainda há muito a pesquisar: se o efeito foi pelo conjunto da obra, ou partes dela, ou mesmo um ritmo, um timbre, uma sequência harmonica. Pesquisar também outros gêneros musicais -vão agora usar samba e funk- e também se o mesmo resultado é conseguido quando se escuta com fones de ouvido, porque estes resultados não têm a ver com o emocional, as células tumorais foram expostas ao som, foi uma consequência direta, física.

É preciso descobrir a cura do câncer, ou como controlá-la, pelo menos, como tem sido feito com a Aids. Câncer: doença séria e traiçoeira, que, salvo raras exceções, acaba com a pessoa que a tem e abala profundamente quem está ao lado, cuidando e convivendo com este horror, pra não dizer que acaba também, que é como eu me sinto... cara, às vezes penso que vou pirar e sair correndo e não voltar nunca mais...

Me lembrei agora de como ce pronunciava Beethoven... era tão bonito... Be-e-thoven...

Saturday, March 26, 2011

sonho, coisas e bubu

Um sonho: eu tava em Friburgo, na casa desta senhora que não conheço. Era hora de eu voltar pro Rio, mas não queria porque era Carnaval, e não queria enfrentar a Rodoviária- que detesto- no Carnaval, bem dentro da confusão toda. Então resolvi dormir mais uma noite lá. Sentei em frente a uma mesa, e de repente, com o rabo do olho, olho pros fundos da casa, e vejo um tobogã de barro. A casa onde eu estava era a sua, e onde era o morro virou esta encosta que desceu e estava vermelha de barro. Acordei no susto, e fiquei mexida na cama e senti que eu precisava ir lá pra ver como ficou, senão vou ficar a vida inteira sem acreditar...

Pois é, meu amigo, as coisas continuam. Nelson acabou de acordar neste instante, ouço-o gemer no banheiro. Ai! ai. ai. ai. De manhã é a pior hora. Esta noite não dormi o suficiente. Ele acordou com muita dor às 5, tomou remédio e dormiu de novo, eu não consegui, então to acordada desde 5. Agora são 8. 

Coisas que me lembram você, a cada vez que os pego: o corrimão da escada, que fiz sob sua orientação. O seu corrimão de Friburgo era tão perfeito, ininterrupto, macio de deslizar a mão, e tão simples e de bom gosto. Um corrimão de metal, só isso, mas muito bem feito. O meu não é nada assim, ainda falta pintar, mas são tres pedaços. A panela de barro que uso pra fazer arroz integral todos os dias, junto com a coleção toda que ce trazia nas vindas pro Rio, compradas em Itaboraí. O durepox na pia inox da cozinha, que se soltou toda e era uma verdadeira arma, cada vez que a mão distraidamente passava pela beirada: você que deu a idéia e até ia colocar, mas eu coloquei antes e funcionou até agora, nunca mais houve mortos e feridos hehe... Lavar louça: sempre a vida inteira lavei louça, mas agora quando lavo, me lembro de você, que aqui em casa nunca deixava nenhuma suja na pia. Ce dizia que a pior coisa era acordar de manhã e encontrar a pia com louça suja. E ce lavava naquele ímpeto tresloucado, molhando tudo em volta, empenhadamente, com força, meio impacientemente mas de uma maneira altamente eficaz. 

Não sei se já te contei, mas o Bubu se acidentou. Milton foi um dia lá no quintal levar a comida, e ele estava no chão. Desde que aprendeu a voar, ele chegava lá do alto, às vezes bem lá do alto do céu, onde fica a turma dele de urubus sobrevoando, mas ouvia o Milton bater o pratinho e lá vinha ele até planando até chegar ao chão. Pois há umas 2 semanas atrás ele não é visto voar, e numa atitude diferente, como se estivesse se guardando, meio apreensivo. E num dia aí Milton o viu vomitando. Desde quando urubu vomita???? esta é a primeira vez que ouvi falar isto. Só se for isto: ele foi criado a carne moída fresca, banana e flocos de quinoa, aí se juntou à turma quando aprendeu a voar, e a turma vai lá pra Gramacho, ou prum cavalo morto em Caxias, sei lá... aí alguma coisa não fez bem ao seu requintado aparelho digestivo, tadinho... O que me faz pensar: ele nunca vai ser um igual aos seus. E tudo começou naquele dia que ele caiu do ninho, e Milton o encontrou de noitinha e nem sabia o que era aquilo, porque não dava pra ver direito, aquele bicho todo fofinho branquinho (nem tinha pena ainda, e nem era preto). Destino.






Thursday, March 24, 2011

consegui ouvir 2 faixas

Mario querido, olha só! acho que ce vai gostar: consegui ouvir as 2 primeiras faixas do nosso CD que gravamos em dezembro, Keep on Eatin’ e God Bless the Child. Depois daqueles teus vocais e solo, não deu pra continuar, senti muita tristeza, meu corpo cabeça mente pensamento coração tremeram muito e falei pra mim mesma, chega! Mas é um bom sinal ter conseguido ouvir duas. Tenho que te divulgar, mostrar este trabalho, fazer um show em sua homenagem, e tenho que conseguir te ouvir, mesmo sabendo que nunca mais tocaremos juntos, nem comporemos juntos, nem conviveremos juntos. Mas ce deixou pra mim várias sementes que seria bom se eu plantasse para que nascessem flores, plantas e árvores que vão alimentar outros seres da terra. Não sei quando isto será possível, pois agora, quase 3 meses depois, ainda choro ao te escutar. Mas é assim mesmo.

Sabe porque é bom sinal? porque parece que to me fortalecendo. Ninguém consegue viver com uma tristeza tão grande, tem que aprender a transformar isto noutra coisa. Alquimia. Os Alquimistas Estão Chegando “Eles são discretos e silenciosos, moram bem longe dos homens...” Jorge Ben. Transmutação. Transfiguração. Transferir. Porque o absurdo que é tudo isto, sua morte, e a morte do futuro que eu estava criando pra mim, morar na velhice em Friburgo no andar de cima, e outros amigos em volta construíndo no terreno que te soterrou... e consolidar de uma vez por todas a nossa parceria, parceria esta tão sofrida por vais e vens. A hora era esta. Mais maduros, na faixa dos 60, sem drogas legais e ilegais, com uma vontade enorme de dar certo, e uma admiração amorosa legítima, fruto de quarenta e poucos anos de relacionamento. Então ter interrompido assim tão bruscamente toda uma vida, não dá pra engolir conformadamente, dizendo que é um líquido muito amargo. Não dá. Não aceito. Não me conformo. E por isso, que conseguir ouvir 2 faixas do CD é um bom sinal, porque mesmo sentindo isto tudo, luta-se pra não ir junto.

Wednesday, March 23, 2011

visita do Obama

Esqueci de comentar sobre a visita do Obama. Gostei tanto de vê-lo aqui, ce sabe que adoro ele, adoro por ser esta figura que é, nunca gostei de um presidente tanto quanto gosto dele: democrata, fala muito bem, e quando fala, é suave mas ao mesmo tempo firme, e acredito em tudo que está dizendo, ou seja, me passa sinceridade. Quando é que sinto isto na política? Uma simpatia total, um cara simples, bonito, em forma, tem uma mulher que parece ser fantástica, ativa politicamente também independentemente dele e de sua posição, simpática, bonita, vegetariana, ou seja, isto tudo me mostra que estão comprometidos com um futuro mais limpo, envolvidos em causas ambientais, alimentação saudável, é isto que o futuro tem que ser, limpar este planeta para as futuras gerações.

Gostaria tanto de conversar contigo sobre isto. Assim como está, eu monologo... sinto falta de você falando alguma coisa, dando a sua opinião, aliás, ce era de ter muita opinião. Personalidade forte. Mas lembro de como discordávamos das coisas, nossa!!! e era assim: eu nem insistia em te convencer de nada, só discordava. Aliás, não tá com nada tentar convencer o outro. Isto foi uma coisa que mudei em mim. Quando jovem, achava que todos tinham que pensar como eu, que eu estava certa e pronto! coisa de criança mesmo. Depois a gente vai vivendo e vendo que tudo é tão relativo, e tantas dúvidas vão surgindo, e tantas pessoas com opiniões diferentes das nossas, e a gente considerando a opinião dos outros, e mudando a nossa, mudando... Cada um pensa como pensa, cada um é cada um, cada um é um universo à parte. Então quando ce vinha com aquelas teorias conspiratórias, eu respeitava, ficava ali ouvindo, mas aqui entre nós, achava aquilo uma loucura. Se eu acreditasse naquelas coisas, eu piraria....

operação de Nelson

Nelson operou bem cedinho de manhã, com anestesia local e sedação, demorou uma hora e meia, foi um sucesso. O Ricardo, um gênio no bisturi e um amor de pessoa. Dormiu o dia todo até 6 da tarde, quando veio o outro médico da equipe, o André, que disse que ele poderia ir pra casa naquela mesma noite, e lá fomos nós catar um taxi, ele meio grogue ainda, de turbante, todo enfaixado de gaze, inchado e vermelho, pra casa. Aqui entre nós, eu estava preferindo passar a noite lá: qualquer coisa que acontecesse, estaríamos no hospital... me sentiria mais segura, com menos responsabilidade nas costas, e- por incrível que possa parecer- naquele sofanete eu descansaria mais, porque chegar em casa, iria ser aquela coisa: comidinha especial, pegar coisas aqui e ali pra ele, dar aquela atenção redobrada. Mas assim que o médico deu esta alternativa, ele disse que queria ir pra casa, e fomos.

Chovia uma garoa. Chegou e comeu especialidades da casa: canja orgânica bem picadinha, purê de batata, vitamina de abacate com mel de figos, coisas pastosas para não mexer mastigando muito na região. Dormiu mal, aliás passou 3 dias sofrendo daquelas dores violentas na pleura (ce sabe que o período crítico é de manhã quando acorda, e às vezes quando acorda de noite). Acho que foi o stress de tudo, somado a ficar deitado por tanto tempo naquele leito de hospital. Hoje está bem, com menos dor, e eu feliz. Isto já me faz ficar feliz: menos dor.

E você? que ce anda fazendo? como é aí em cima? tem piano, teclados? fez amizade? encontrou alguém conhecido? gostaria tanto de saber tanto de você tanto... 

Sonhei com tua casa no outro dia. Nada lembrava, mas era sua casa. A casa dava pra rua, uma rua transversal pequena, e não a Avenida. A casa estava em ruínas, mas as paredes continuavam de pé, como se o telhado tivesse apodrecido e caído. Plantas cresciam entre os escombros. Tinha uns raios de sol por entre as árvores, mas era de noite, não me pergunte como. Ao entrar na casa, encontrei um bilhete pra mim com sua letra que conheço tanto, aquela letra grande ocupando todo um A4, dizendo que ce tinha saído, mas que ce voltava já, que era pra eu esperar. Tinta hidrográfica azul. De repente, deu um vento, e voou da minha mão, se enfiando por entre os sacos. Aí reparei os sacos: milhares de coisas suas em sacos plásticos transparentes devidamente organizados, lembranças, papéis, pequenos objetos de metal, canetas, muitos sacos no chão e uns em cima dos outros. Ce iria viajar? jogar fora as coisas? nas entrelinhas havia uma coisa trágica. Andando pelos cômodos, todos sem teto, mas com as paredes de pé, encontrei a Cláudia (que não conheço, só falei pelo telefone), advogada da sua família, sentada no quintal com uma outra pessoa. Saí andando e encontrei a Glória (que não vai à Friburgo a 30 anos), e fomos caminhando, ela me consolando, nem desconfiei que era sonho, apesar de todos os absurdos, mas sonho é assim mesmo... aí andando, acordei. Sempre com lágrimas.

Que mistura... você vivo, você morto... você aonde está? encontrei a sua havaiana embaixo da cama aqui em casa... a cama que ce dormia... e deixei lá mesmo, como que te esperando. Não dá pra tirar de lá, assim como teu nome continua nos meus contatos, e na minha agenda telefônica. Não vou tirar nunca. É assim mesmo que se faz? sei lá, só sei fazer assim agora...

Sunday, March 13, 2011

operação à vista

Mario, Nelson vai operar na terça. Ce deve estar sabendo disto (sempre imagino que ce tá num lugar lá em cima, de onde dá pra ver tudo que se passa, como um deus... sei lá... mas imagino isso). 

Tudo começou com o aparecimento daquelas bolinhas bem embaixo da orelha- região que havia sido operada em 2008. Aliás, foi na consulta do dia 10 de janeiro que soubemos desta recidiva- te liguei quando chegamos em casa e te contei, e por isso decidi mudar os planos: eu iria no dia seguinte pra Friburgo, mas preferi ficar com Nelson, estávamos abalados com a notícia... Mal sabia eu que dali a 2 dias iria acontecer uma coisa muito mais terrível, muito mais traumatizante, muito mais tenebroso, muito mais cruel, muito mais assustador, muito mais, muito mais... e foi por causa deste detalhe que parece pequeno que eu não estava ali contigo na hora que desabou tudo, isto não é esquisito? mas isto é um outro assunto, pra uma outra vez.

Mas Nelson vai operar na terça, e to com medo das dores matinais dele. Ele passou a tomar a metadona de 6 em 6 horas, mais o paracetamol, e mesmo assim quando levanta de manhã as dores são violentas, e só conseguem ser controladas por volta do meio dia. E eu, que estou do lado, assistindo isto, fico em agonia... uma sensação de impotência porque não posso melhorar a sua dor, não posso curar a sua dor, não posso fazer nada senão dar carinho e estar do lado. Quando ouço seus gritos, seus gemidos altos, seu choro com lágrimas escorrendo dos olhos, se eu estiver lavando um prato, ou estendendo uma roupa, ou cortando uma cebola, tudo que faço, faço malfeito, faço de qualquer jeito, faço com pressa, com agonia, com angústia, querendo acabar logo, e correr pra onde ele está pra dar um apoio moral pelo menos.

Tem uma coisa que ajuda, não sei porque, mas melhora. Sempre que coloco a mão ali no diafragma, a dor diminui. Calor? vibração? tem aquelas seitas que curam pela imposição das mãos (mahikari, messiânica etc), tem a radiestesia, reiki,  sei lá...
talvez tenha um fundamento. Então eu fico alerta, sempre que ele está em crise, to lá eu com a mão tentando aliviar a sua dor. E alivia mesmo. Então não me sinto tão impotente assim. Mas muitas vezes não dá pra chegar nem perto, que ele se contorce todo.

Mario Mario Mario... não acredito que não posso ligar pra você e contar isto tudo, como sempre fiz, pra desabafar, pra ce me ajudar, não acredito que não posso contar mais com a sua força... como foi que aconteceu isto? como foi como foi como foi? é de enlouquecer....

Friday, March 11, 2011

terremoto no Japão

Hoje aconteceu um terremoto que provocou um tsunami monstruoso na costa nordeste do Japão. As ondas de 10 m invadiam a terra com uma velocidade espantosa, uma onda pegajosa parecida com lava de vulcão, mas era detritos, lixos, carregando carros, navios, casas. Pareciam leves rolhas sendo levadas ao léu... e com 4 usinas nucleares ali com risco de vazamento... queria tanto comentar isto contigo. As imagens são chocantes, uma tristeza. Tá vendo como estas coisas sérias estão ficando cada vez mais frequentes?
O eixo da Terra mudou em 25 cms.

10 de março

Ontem foi 10 de março e ce não me ligou. Como poderia? ce morreu. Por isso é que eu digo que.... nunca mais. Por isso é que falo da saudade, da falta, e que pessoas dizem -não! ele não morreu, ele está presente nas lembranças, nas coisas que deixou... presente na cabeça sim! o tempo todo, mas... não me telefonou no meu aniversário. 

Esta falta de telefonema seu foi sentida durante o dia todo, apesar de saber que não iria acontecer. Era uma falta física de sua voz, uma falta psicológica e emotiva de sua atenção, um hábito que eu tinha no meu aniversário, não importa se estávamos meio distantes, meio separados, meio brigados, meio morando longe, meio em outros continentes, meio doentes.... sempre vinha um sinal de vida, um afeto. 

Monday, March 7, 2011

ce me chamando na janela

Mario, ontem acordei com você me chamando na janela, me chamou duas vezes, a sua voz do lado de fora, e acordei. Não me lembro do sonho, nem se tava sonhando, talvez você realmente me chamou, mas claro que não foi! porque você morreu, como é que iria me chamar? isto foi a minha mente, a minha cabeça confusa e atormentada que ainda não conseguiu engolir este fato absurdo. Como uma pessoa tão forte, com tanta saúde, tão presente na minha vida pode sumir assim de uma hora pra outra? como é que fica o que ficou? 

Outra coisa que me deixa nervosa é não ter certeza como foi. Você estava acordado ou dormindo? você percebeu que ia morrer? sentiu medo? sentiu dor? ou tava dormindo e nem se deu conta? tenho certeza que ce gostaria de comentar comigo como foi, o que aconteceu.

Logo que eu soube, pensei- ele estava dormindo, porque aconteceu de madrugada, e ele sempre dormia relativamente cedo, já estava acostumado a dormir e acordar cedinho. Aqui em casa ce até brincava dizendo, quando a gente via um filme até a meia-noite ou uma da manhã- “puxa, ces dormem tarde aqui hehehe”... Mas voltando, logo que eu soube que sua casa foi atingida, imaginei que ce estava dormindo quando aconteceu por causa da hora... então ce não teria se apavorado com aquilo caindo emcima, não teria percebido que ia morrer, não teria sentido dor, não teria sentido desespero, não teria saído correndo pra depois não ter dado tempo e ter sucumbido embaixo dos escombros. Dizem que quando ce vai morrer, a tua vida toda passa num segundo pelos teus olhos. Disto você teria se livrado. Se tivesse dormindo.

Primeiramente acreditei nisto, e prefiria que fosse assim, porque te pouparia um pouco menos, ce teria sofrido menos, se é que isto realmente é fato, ou só na minha cabeça é que tem diferença... Mas duas coisas que eu soube por alto me abalaram, coisas que ainda não confirmei, porque não quero na verdade saber pelo menos agora, porque seja como for, nada vai te trazer de volta, nem vai me fazer sentir melhor. Aliás não! eu até me sentiria melhor se soubesse que ce tava dormindo e nem se deu conta de nada. Mas estas tais duas coisas me deixam na dúvida. Uma: alguém deixou escapar por um instante que ce tava embaixo de 2 lajes e com o braço de fora. Não confirmei, talvez daqui a um tempo eu consiga perguntar como foi, mas agora ainda não dá. É fácil concluir que, se ce tava com o braço de fora, não estava na cama, e muito menos dormindo. E a outra foi que me contaram também, muito rápido e por alto sem detalhes nem muito papo, na verdade “en passant” pra nunca mais ser repetido outra vez: que o vizinho estava te ouvindo tocar tocar tocar durante a tromba d’água, horas e horas tocando e a água caindo, de repente ele ouviu um estrondo, e depois não te escutou mais. 

Não duvido, posso imaginar a cena, é  a tua cara, bem você: o céu pode estar caíndo, o mundo acabando, e você tocando...

Friday, March 4, 2011

ontem choveu aqui

Ontem choveu aqui. Há um mes que não chove (ainda bem!), desde que aconteceu aquela tromba d’água que te matou, Mario.

É tão estranho ouvir isto: te matou, Mario.

Esta-ainda bem- foi suave: uns 15 minutos bem forte, depois enfraquecendo, depois só na ponta do pé... ainda bem.

Ainda bem??? será que ouvi direito? como mudei....

Passei a ter trauma de chuva. Cada dia me informo na TV, no jornal papel e no computador, pra ver a previsão. Criei medo, pavor. Não gosto dela mais. Eu, que sempre amei vê-la chegando, trazendo aquela penumbra que me dava um bem estar diferente, especial. Me sentia mais inspirada, mais aconchegada, mais valente pra vida. Mas agora tenho medo. As coisas mudaram, os “cientistas meteorológicos” daqui e  de lá de fora dizem que grandes transformações estão acontecendo: agora os cataclismas estão mais frequentes e mais intensas. Antes, aconteciam uma vez em 50, 100 anos, agora é todo ano. Ciclones de grau 1 aconteciam com frequência, e os de grau 5, raramente. Agora inverteu: os de grau 5 são frequentes, e os outros quase não acontecem mais. E não há como prever: ainda não existem máquinas para este tipo de previsão, pois tudo isso é novidade. A tempestade- violenta, furiosa, arrastando tudo que vê pela frente, entornando rios, derrubando morros sólidos e de florestas, que antes eram tidos como seguros e perenes, pra soterrar casas e gente (como foi o teu caso) pode chegar de repente, sem aviso prévio. E com muito mais frequência. 

Tem que se prever o imprevisível, imaginar o impossível.

Pois eu amava a chuva. Sempre escutei, antes que os outros, os primeiros pinguinhos muito suaves, muito baixinhos, muito leves. Como se eu a catasse, a procurasse, a chamasse. 

Agora neste intante tá um céu cinzento e só, ficou assim o dia todo, assim é muito bom. A temperatura está gostosa, fresquinha, pedindo até uma manguinha quem sabe, e tá estável, ou seja, não vem violência por aí. 

Bem... acho que não. Tudo é tão bambo...

Sunday, February 20, 2011

Cascas

Outra vez me peguei: quis te ligar pra falar que Cascas (Josep Casanovas) me contactou, com o assunto "por fim te encontré, soy Cascas". É muito curioso isto: primeiro a Maribel, depois ele, reconectando uma amizade do começo dos anos 80, em Barcelona. Tudo porque souberam do que aconteceu contigo.

Apesar de toda loucura que foi aquela época- o álcool de puríssima qualidade, os fartos porros de haxi tão fácil de comprar em qualquer esquina (e lembra daquela vez que pintou o óleo? eu não fui nessa, mas vocês.... e ficavam rindo histéricos sobre nada deitados no hostal, e eu com ódio daquilo, preocupada em como seria o show de logo mais à noite- que acabou sendo ótimo...), apesar de tudo isso, mais os desentendimentos normais de quem viva junto dia e noite, temos história pra contar e boas lembranças, né? quantas viagens (só não fomos pra Ásia!!!!), quanto trabalho, e aquela galera de amigos fiéis que nos acompanhava pra cima e pra baixo todos os dias... e é por isso que quando recebo notícias da nossa "família" daquela época, fico feliz de poder reconectar com estas pessoas, como se eu tivesse sentido falta este tempo todo e não sabia....

Naquele tempo eu sabia nada de mim. Ce acredita que faz 30 anos, exatamente??? pois é... mas achava que sabia de tudo. Aliás, nós todos achávamos que conhecíamos muito bem o outro, e agora ce vê, como estamos distantes daquelas pessoas que éramos nós...

Mario Mario... que coisa absurda que te aconteceu. Por quê? por quê? por quê???????

Saturday, February 19, 2011

seria hoje

Mario, se esta tragédia? loucura? cataclisma? absurdo? sei lá como descrever este MAIOR ACIDENTE CLIMÁTICO REGISTRADO NO BRASIL em toda a sua história (e por que teve que atingir VOCÊ?????). Continuando ou recomeçando: se esta coisa não tivesse acontecido, seria hoje o nosso show no Valansi, uma casa super-bacana, um dia nobre, e que showzaço seria... se eu for me basear nos elogios que venho recebendo das pessoas a quem dou o nosso CD, nossa! ia ter gente fazendo fila lá fora pra entrar... e somando com os shows que fizemos em Friburgo, este show iria ser... iria ser.... iria ser...

Mas o que vou fazer hoje? você me pergunta. Vou me encontrar com o Adriano- sempre é bom encontrar com Adriano- média com pão na chapa na Manon, Rua do Ouvidor, depois zanzar pelo Saara, tá um pouquinho menos quente, mas fervendo ainda (sabe que desde que houve a tragédia, não choveu mais uma gota...), ir à análise (desde que ce se foi, tenho feito tres vezes por semana em vez de duas) e encontrar o Luiz e Milton na Cavé. A última vez que nos encontramos lá foi pra acertar os detalhes da minha compra do tão querido andar de cima de sua casa, casa bonita que ce arquitetou com tanto talento, tanto carinho, tanto esmêro, tão cuidadosamente, tão rica em detalhes, e que ficou tão aconchegante. Casa segura, firme, bem construída, e que não existe mais, nem o andar de cima, nem o de baixo, nem a cama, nem as janelas, nem a tábua corrida do piso, nem os azulejos coloridos do banheiro, nem o yamaha, nem o armário, nem o quadro da Hypatia, e nem você. Esmagados por uma avalanche de um morro inteiramente reflorestado por você há décadas, morro que lhe ajudei a reflorestar, mais de oitocentas mudas. Com tanto esforço. Tão sólido, tão aparentemente perene... e como ce amava este seu lugar, como ce se orgulhava de ter feito esta casa (e com toda a razão, porque era linda).

É muito difícil lidar com esta realidade tão chocante, tão radical, se eu ainda bebesse, iria estar enchendo a cara todos os dias e muito, pra escapar. Mas como não bebo uma gota faz dez anos (e você, meu querido, nove!!! lembra como nos orgulhávamos disto?), não tem jeito, é encarar isto de frente e aprender a conviver com este horror, embora sem entender, sem aceitar, sem me conformar, sem nunca mais voltar a ser o que era. 

Tem um ditado que diz: “nunca fale nunca”. Mas neste caso falo sim, falo NUNCA porque é NUNCA mesmo, falo sem medo de errar. A única coisa que pode nos dar a certeza que esta palavra está sendo dita com propriedade é a morte. A morte, que encerra nosso contato físico, nossas conversas audíveis (as mentais continuam, vide esta carta, mas é unilateral, não vou receber outra de resposta), nossa troca de experiências vivências observações palpites opiniões sugestões terrenas, nossos pequenos gestos de carinho ternura amor um com o outro, interagindo no dia-a-dia, construindo algo constante, vivo, ativo, se alimentando do presente aqui e agora acontecendo em nós, cada dia um passo, um degrau pro futuro, que não existe também... Nada disto nunca mais vai acontecer. 

Porém o amor está aqui, na jóia que é a minha lembrança de você. E ce vive em tudo isto que ce me deixou, que não é pouco. Portanto, meu amigo, continuemos. 









um mes

Hoje faz um mes que você morreu, meu querido. Nas enchentes de Friburgo.

Que loucura. É besteira tentar entender, é bobagem dar palavras aos sentimentos que ainda (e sempre) estão (e estarão) dentro daqui de mim, num lugar em que a razão não tem vez. A parte do meu cérebro que formula palavras tá dormente.

Foi tudo tão totalmente inexplicável, totalmente impensável, totalmente intraduzível, totalmente inaceitável, totalmente absurdo total.

Um dia cheguei em casa e por um instante me deu na veneta de te ligar, contando que encontrei a Lucinha (da Luli), e que falamos do que havia acontecido. No outro, por um segundo me passou pela cabeça de te reenviar o email tão carinhoso da Maribel lembrando de você, daquele tempo bom que passamos em Barcelona, e me dando forças pra suportar esta perda. Estes e vários outros exemplos que ainda me acontecem mostram como ainda a “ficha não caiu” pra mim... e poderia ser diferente? era um hábito de quarenta e tal anos eu ter você por perto, se não era junto, pelo menos era por perto, conectável, se quisesse, pronto. "Quem é vivo, sempre aparece".

Todo dia lembro de você, todo dia penso em você, todo dia sinto sua falta. E poderia ser diferente?

Mario, que loucura. Não dá pra acreditar!!!! de um dia pro outro, não vou te ver NUNCA MAIS, não vou falar contigo NUNCA MAIS. NUNCA MAIS, isto é que dói. Daqui pra frente, telepatia, vibração, pensamento e lembrança.

Uma vida arrancada do mundo, que nem uma árvore que se corta fora, um boi que se abate. Como se acostumar com este interrupção tão violento e radical? o que acontece com este sentimento todo que tá vivo, saindo de mim, procurando por você? não dá pra separar a vida em pedaços isolados, as marcas do que foi não são leves... ao contrário, o passado vai estar sempre presente, e tenho que aprender a transformar isto em algo doce e não tão doloroso.

Semana que vem, dia 17, era o dia do nosso show no Valansi!!!

Faz um mes que a gente não se fala!!!

Tanta coisa pra comentar contigo, tanta. Mas por agora, só estas cartas mentais.

Um mes. Pra este dia posto aqui a sua música que mais gosto, dentre tantas. Tem tudo a ver com este momento, eu e você.

ESTRÉIA (Mario Jansen)

E CADA DIA CHEGA A UM TERMO
A CADA DIA RECOMEÇA SEMPRE QUASE TUDO IGUAL
É ASSIM
BASTA UM LEVE SOPRO E QUANDO
SE VAI VER, JÁ É
E CADA NOITE TRAZ O SEU AMANHECER
É QUANDO TUDO SE DISFAZ
E SE REFAZ
PASSO A PASSO QUANDO A GENTE
VAI VER, JÁ NÃO É MAIS
E ONDE FOI PARAR O TEMPO TODO
QUE AGORA MESMO ESTAVA AQUI?
EU NÃO SEI
É SÓ A SENSAÇÃO DE ESTAR
LIVRE NA IMENSIDÃO
E CADA MEIO DIA O SOL A PINO
A ALMA EXPLODE DE PRAZER
É ASSIM
A CADA INSTANTE UMA ESTRÉIA
TODA VEZ
E MAIS OUTRA VEZ

Mario Jansen

Hoje faz 2 semanas que ce desapareceu da Terra, brutalmente atingido pelos deslizamentos em Friburgo. Sem aviso prévio, sem despedidas, sem estarmos preparados, de repente, em segundos. Na sua fase de vida mais feliz, levando um pedaço de mim.

40 anos de convívio. E justamente agora, quando estávamos mais próximos que nunca, vivendo e trabalhando juntos, em harmonia e com muita coisa ainda pela frente pra viver. O começo de uma nova estrada.

Cadê chão?

Não consigo retomar meus passos. Como? se o que aconteceu não tem sentido nem lógica, narrado por um louco, significando nada... absolutamente nada.....

Aqui uma música que fizemos em 89.

POEIRA DO TEMPO
nossa amizade provou
a poeira do tempo
descobriu a verdade do vinho
partiu pra procurar
pra depois voltar
ensinar aquilo que marcou
dando abrigo e carinho
em cada grade e perigo
mostrando como se perde o medo
do fundo do mar
cúmplices do mesmo sonho
cúmplices do mesmo sonho

em cada trilha escondida
é o sol que guia
não importa estarmos distantes
ao nos reencontrar
é como se viveu
sempre juntos compreendendo bem
tudo tudo que a vida
fez da gente e da nossa ilusão
cada dor cada ferida
vira fruto pra colher
pra colher na próxima estação
vira fruto pra colher
pra colher na próxima estação