Monday, July 4, 2011

a lista

Achei uma lista de coisas que faltavam pra eu levar praí da próxima vez que subisse. Tava na pasta de letras que usei no último show: pochete, colirio, manteiga de cacau. E no verso do mesmo papel, coisas que não precisava trazer, lista mais extensa, por sinal:
meia pra caminhada
meia lã
touca branca
2 blusas pra show
óleo mineral
caderninho de palavras cruzadas
lenços para tirar maquiagem
pijama
moleton 
boá pra show
sandália havaiana
croc
tênis
bota pra show

Da última vez que subi foi com Nelson, era teu aniversário, uma semana antes de você morrer. Ce pegou minha mala na rodoviária e pos no carro, como sempre. E comentou: nossa, tá levinha! e eu- tudo que vou precisar já tá aqui! Eu tava me mudando praí, vida nova, um futuro inesperado pela frente, uma luz de uma cor inimaginável brilhando num túnel que já estava no fim. Em breve, eu compraria uma mesa grandona pra chamar os amigos e fazermos almoços lá fora, uma tv por assinatura pro Nelson, um bom fogão.

 É estranho ler esta lista. Me sinto tão pequena.

a gruta

Passei hoje por aquele kitchinete em que moramos por uns meses, no cotovelo onde a Rua Aprazível se encontra com a Rua do Aqueduto. Aquilo ali foi o lugar mais inóspito em que estive, e claro, não podia dar certo. Como pudemos viver ali? nem o frescor da juventude, nem o espírito de aventura, nem a impetuosidade de nossos destinos... nada poderia nos proteger contra aquele baixo astral. Tínhamos que ter nos separado... 

Era uma gruta dentro da terra. Úmido que nem beira de rio. Escuro que nem fundo de poço. Mofos e fungos. Nosso vizinho de cima, uma mangueira e um jardim. A fachada, uma porta estreita, uma janela e um basculante. Como dormíamos ali? como comíamos ali? como trepávamos ali? e mesmo assim, decoramos o ambiente, pintamos as paredes, pusemos uma cortininha e uma planta na janela... e tocávamos e compúnhamos, e tentávamos sonhar e ser felizes, apesar do mofo, da escuridão, e da certeza de que aquilo ali não poderia continuar por muito tempo.

Tempos sombrios. Começamos a nos distanciar. Muita confusão mental. Drogas legais e i. Rolou pra você uns casos por fora, noites a sós naquela fossa te odiando e me mordendo. Depois eu que não quis mais, e fui pousar em outros endereços. Acabou que acabou. Feio, mas apaixonado por ambos os lados. Isto foi há muito tempo atrás, depois voltamos, e fomos e voltamos. Mas ali foi o pior de todos os fins...

Foi também o fim do Diana & Stul.

A um tempo atrás, tinha um aviso pregado na porta: interditado pela Defesa Civil, proibida a entrada. Só agora, depois de quarenta anos, perceberam isto? Já era hora!!!! e um cadeado lacrando o recinto. Recentemente, fizeram uma obra de responsa, algum estrangeiro deve ter comprado o conjunto todo (Santa Teresa atualmente está sendo vendida pra fora), me arrependi de não ter tirado foto: descendo a Aprazível, dava pra ver o kitchinete por cima, tiraram o jardim, árvore, laje em cima, dava pra ver as paredes, aquele piso de vermelhão... deveria ter tirado uma foto. Agora tá tudo bonitinho, não entrei lá pra ver, mas fizeram uma reforma geral, devem ter até incorporado a gruta ao resto da casa, impermeabilizadinho, habitável, salutar.

E fica a lembrança da noite que o Kouhotec ia passar pelo céu do Rio. Saímos da nossa gruta às tres e meia da manhã, e subimos ladeira acima até o Rato Molhado, onde a Martha (Pires Ferreira) comandava todo um happening sobre o fenômeno. Tinha o quê... umas trinta, quarenta pessoas. O cometa não passou, mas que foi uma farra, ah, isso foi. Valeu, Martha!!! Aliás, tenho que falar da Martha aqui. A primeira astróloga brasileira, que quando ainda ninguém nem sabia o que era isto, nem ouvia falar de astrologia, estava ela a ler os nossos mapas astrais confeccionadas por ela, depois de cálculos e mais cálculos, aqueles emaranhados de traços de caneta bic de várias cores, que só ela entendia, traços que acertavam em cheio. Ela morava ao lado, na casa antiga geminada à nossa gruta, que havia virado em imóvel de apartamentos individuais. O dela era lindo, tinha até um jirau. Éramos muito amigas.

Me lembro também de você me levar pra andar pela Aprazível, porque eu estava passando mal... andando andando andando, até aquela coisa ruim passar. 

E outra: de manhã cedinho (era frequente), a silhueta de sua mãe velhinha, tão querida, deixando biscoitinhos, queijinhos, chocolatinhos no parapeito da janela, a gente deitados na cama só olhando, sem respirar, mudos, imóveis, fingindo de mortos (não precisava fingir...), depois de uma noite viajando de ácido ou de sei lá o quê, apenas uma cortina diáfana de pano a nos separar da vida pulsando que vinha janela adentro. Nós, que nos achávamos protegidos contra o cruel mundo lá fora, na nossa toca inviolável, éramos atingidos no peito por uma bala de canhão: a realidade. O absurdo da situação, aquela sensação ruim de ter virado a noite, agora que íamos tentar dormir, e vem aquilo entrando pela janela, e as pessoas fresquinhas, de banho tomado indo trabalhar, e a manhã ensolarada e brilhante nos ofuscando, nos ensurdecendo com seu ruído de vida, e a única coisa que a gente queria naquele instante era apagar. Conseguir dormir. Coisa difícil, a afetamina ainda no organismo, e uma depressão horrorosa.

Anos 70.




Wednesday, June 29, 2011

dor

Mario, algo muito grave está acontecendo. Nelson não está bem. Depois de uma noite como esta, ter que levantar, cadê energia? nelson urrando de dor, o rosto todo deformado chorando de dor, enrugado, vermelho, molhado, boca aberta, agonia, e o que eu posso fazer numa hora desta, além que dar carinho, dar dimeticona, esquentar a almofada, perguntar se quer algo, se ligo tv, ir vamos pra sala, ouvir ele dizendo meu deus do céu.... o que vou tomar agora (depois de ter tomado tudo que tinha direito), levantar de manhã, ele acordou melhor, pegar o jornal no portão pra ele, perguntar se quer ouvir um som, perguntar se quer massagem, ou o açaí diário matinal... e mamão cortadinho? e mingau de aveia? café, torrada? ovo quente da Lagoa? e o que eu fizer, faço tremendo, com agonia também, e claro, acabo fazendo besteira como deixar o mamão cair no chão, derramar o pó de café na pia, porque fico tão nervosa em ouvir ele gritar e gemer e chorar, e tão dolorida de vê-lo sofrer tanto tanto tanto.... tem vezes como hoje (e são frequentes, aliás HÁ DOIS ANOS ele vem sofrendo de dores, me lembro em 2009, quando Su e Lili estiveram aqui, eu disse pra elas que às vezes eu tinha que dormir naquele outro quarto, pq eu acordava com ele de noite, depois ele dormia de novo, e eu não conseguia mais, virava e na noite seguinte a mesma coisa, virava, e aí pegava gripe e não podia ficar doente porque quem é que ia cuidar dele??? mas HÁ DOIS ANOS isto vem acontecendo. antes ele não tomava metadona, só dorflex, aspirina, paracetamol muito pouco, há um ano ele tá na metadona, a dose passou de 5 mg pra 20 mg, e há meses ele diminuiu o intervalo de 8 em 8 pra 6 em 6, esta noite antecipou pra quatro horas, e ainda toma muito paracetamol junto, e este remedio ataca violentamente o fígado que eu sei, mas não dá pra dizer pra ele não tomar, por enquanto ainda não enjoou a ponto de vomitar, mas até quando? acho que estes remedios não estão fazendo mais efeito, mas como vai ser? injeções de morfina pra ele ficar sedado deitado desacordado direto pra não mais levantar???? e quando eu digo pra ele que vou ligar pro medico da dor Luiz Guilherme, ele não quer, pq acha que não é o caso, não precisa, espera mais um pouco. eu entendo que ele não queira tomar mais remedio ou mudar pra algo mais forte, ele tem razão, mas até quando ele vai aguentar este sofrimento tão grande???? eu mesma, que estou do lado dele o tempo todo assistindo este terror, às vezes acho que não vou aguentar, como esta noite e hoje de manhã. Começo a sentir a pressão aumentar, uma pressão nos olhos e na nuca, uma vontade de sair correndo pra não ver, não escutar, fico muito nervosa, e tudo isto sem demonstrar nada pra ele, pelo contrário, aparentando tranquilidade, dando carinho quando na verdade to precisando fugir do cenário pra não assistir tamanha dor, que me doi corroi também, porque não posso curá-lo nem posso aliviar a dor, só posso tentar fazer alguma coisa, tentar tentar, e muitas vezes sem conseguir, e ter que assistir ele se contorcendo, chorando, parece que vou explodir. Amo ele tanto. To escrevendo isto pra deixar sair um pouco da tensão, mas to muito triste... minha vida tem sido, nestes 2 anos, cuidar dele, me preocupar com ele, suas necessidades, ligar pra medicos, marcar hora, ir com ele, comprar remédios controlados (não entregam em casa, e só tem em farmácias especiais, tem que ir lá), cuidar de sua alimentação, trocar a roupa de cama frequentemente pq tem noites que ele sua, principalmente na cabeça e no tórax, distrai-lo em casa, ao mesmo tempo to tão feliz de ele estar vivo, de estar podendo estar ao seu lado, de poder ter momentos inesquecíveis ainda, de não querer trocar a minha vida pela de ninguém, de me sentir privilegiada de poder estar ao seu lado numa situação que nem esta, tão difícil para todos nós, e ainda encontrar um raio de luz, umas pontas de alegrias, e sentirmos prazer em fazer as palavras cruzadas, ou almoçar, ou comentar das cachorras, ou ver a novela da Amora, ou comentar sobre alguma manchete de jornal. Tão feliz de ele estar vivo. Tão feliz de apenas sentar ao seu lado e segurar sua mão. Tão feliz por ter alguém que amo tanto. Que bom que to com saúde para fazer as coisas, lembrar das coisas, cuidar dele, administrar a sua vida, dar amor e carinho... ainda que às vezes eu caio e me deprimo em vê-lo assim, me decepciono comigo mesma de não estar conseguindo fazer o que eu queria, e às vezes tenho medo de pensar o que será... to com medo, to com pavor, não sei o que esperar, quando esperar o quê, só quero tanto que ele se cure, ele merece tanto porque se esforça tanto tanto, faz tudo certinho, direitinho como mandam os médicos, é tão responsável, tão disciplinado, quer tanto tanto viver, ama tanto a vida, tem tanto ainda pra nos dar, tanta criação, tanta genialidade, tanta luz... Mas a vida não se trata de merecimento, isto aprendi com a sua morte, meu amigo querido.

Sinto sua falta.

Saturday, June 18, 2011

cinco meses

Recebi ontem fotos de uma amiga. Data das fotos: junho de 2008. Lugar: um sarau-almoço na casa do Nilo. Dentre elas, duas me emocionaram às lágrimas: você e eu tocando a quatro mãos. Tínhamos feito o show no Valansi havia um mes, estávamos alegres e pensando nos próximos. E então tocamos, tocamos neste dia, foi muito bom, numa casa maravilhosa, gente interessante, uma tarde inesquecível. Dois anos e meio depois, acontece a tragédia na Região Serrana e ce morre. Quem poderia prever? quem poderia imaginar? você, tão cheio de energia e disposição. Que tocava o dia inteiro, só pensava naquilo. O piano. Teu eterno companheiro de todas as horas. 

Estas fotos me fizeram lembrar de muita coisa (as fotos servem pra isto mesmo, voltar no tempo). Teus sapatos pretos, tua roupa preferida: calça e camisa de manga comprida arregaçada (sempre sempre), tecidos de jeans tipo brim, aquele azul (não índigo, não ultramar, talvez prússia ou cobalto). Teus cabelos cuidadosamente cortados na frente, mas compridos atrás. 

Nossa cumplicidade.

E tuas mãos. Ce era todo grande, quase 2 metros de altura, e as tuas mãos, é claro, tinham que acompanhar a imensidão restante. Pois eram grandes. Pondo a minha colada à tua, teus dedos começavam onde os meus acabavam. Um pouco de exagero, só pra dizer que eram realmente acima da média. Alcançar uma décima era brinquedo, ce fazia como eu faço uma quinta, e disto ce se aproveitou no teu estilo tão pessoal de tocar.

Mas tuas mãos eram mais do que isto: tocavam nas coisas de uma maneira quase mágica de ser. Tuas mãos eram bonitas, de movimentos harmoniosos. Faziam transparecer sua extrema sensibilidade, que o tornava uma pessoa tão especial. Eram fortes, tinham carisma, marcavam presença. Eram mãos que mereciam ter sido eternizadas, esculpidas em mármores, de tão belas. No piano, faziam o que queriam. Me lembro de teus dedos apertando os botões do teclado, ou do gravador... nunca com o indicador e sim com o mediano. Este gesto era característico, e mostrava toda uma delicadeza que cê tinha em relação às coisas em volta. Delicadeza no pegar. Delicadeza no tratar. Delicadeza no sentir e existir. Mas quando era pra pegar no pesado, tuas mãos pegavam na enxada, consertavam telhas quebradas, tiravam espinhos de ouriço da boca de cachorro, carregavam caixas de som (morando sozinho numa casa, com floresta atrás, era você quem cuidava de tudo). Valentes, se metiam em qualquer combuca. Com perfeição, pois ce era um perfeccionista. 

Não raro, acontecia de se machucar e elas ficavam marcadas . Dias antes de morrer, ce me perguntou se eu sabia como disfarçar umas manchas que estavam em tuas mãos, pois ce tava fazendo show direto e não queria aquilo tão aparente... lembro disto comovida... Com cuidado, passei uma base facial, e ficou uma beleza, sumiu tudinho. Te dei o frasco, e ce usou por mais um fim de semana... e depois... ce se foi.


Sentimento estranho olhando as fotos. É tão real! uma cena tão habitual, a gente sentada junto tocando. Coisa que se repetiu tantas, tantas vezes nestes quarenta e dois anos. Tão familiar. Como a claridade do dia, e depois vem a noite. Coisas que fazem parte de minha vida, coisas com as quais me entendo, coisas pelas quais compreendo o mundo, e agora não compreendo é nada. Sentido? nenhum. Muito difícil viver sem sentido, sem lógica, sem entender. Tão estranho olhar estas fotos que me apareceram assim, por milagre, sem mais nem menos, quando eu pensava que nunca mais iria ver material novo de você, que o que tenho seu agora é o passado dentro de mim, eis que de repente me vem um presente (passado-presente-passado-presente), e eis que ce me aparece, exatamente como se fosse você que tivesse me mandado, e te sinto vivo, sabendo-te morto. Eis que, neste dia gelado de um inverno que começou em fins de maio, tua lembrança me penetra e me aquece.




Hoje, dia 12 de junho, faz cinco meses.

Sunday, May 29, 2011

a jaqueta

Usei esta jaqueta pela última vez contigo. Por que me lembrei? porque ce gostava dela, e nesta vez, afagou o meu braço enjaquetada, dizendo que o tecido era tão gostoso, macio... e é mesmo. Foi comprada na seção masculina de uma loja, estava com Nelson e compramos 2 iguais. E foi ótimo, porque pra tempo úmido ou (e) frio, não tem igual. É meio maior do que eu, tem aquela cor ocre, ou cáqui, ou de burro quando foge... me sinto tão aconchegada dentro dela.

Está assim aqui: o tempo está bem frio. Como será que tá Friburgo? estará com as flores na praça? aquelas que ce me mostrou, orgulhoso porque agora estavam cuidando, e estava tudo muito lindo. Como será que tá Friburgo, além de gelada? to estranhando ficar tanto tempo sem ir praí. Não, praí não (tá vendo como ainda a ficha não caiu totalmente?). No outro dia, ainda encontrei, na última página da minha agenda, uma página onde anotei os números dos assentos no ônibus melhores pra subir e os melhores pra descer. 13, 17, 21. Pra que serve isto agora?

Desde que comecei a te namorar nos anos 70, mantive uma ligação com Friburgo. Aliás, até antes, em férias com meus pais. Mas contigo foi definitivo. Ficávamos na casa de sua mãe, aquela casa enorme, linda, e gostosa, com objetos bem pessoais e diferentes de tudo que eu conheci. Um filtro enorme de louça escrito em alemão, o fogão de lenha, aquele penduricalho pra pendurar as chaves, o abajur, aquele banheiro do teu quarto, o relógio-armário de pêndulo que tocava a cada 15 minutos, um cheiro característico de flores de rosa vindo do jardim. Uma lareira. Aquele revestimento de madeira escura que circundava toda a sala, de um metro e vinte mais ou menos. Por anos íamos direto pra lá. Também ia bastante com a galera, quando Milton tinha o sítio em Macacu. Depois,  quando voltei de Europa (e você ficou), comecei a dar aulas no Conservatório de Música de Friburgo, toda semana subia às quartas e voltava sexta de tarde, e ficava na tua mãe. Quando ce voltou de vez, e morava mais lá do que no Rio, eu subia direto. Foi quando fizemos a maioria de nossas composições.

Nestes quarenta e dois anos, houve tempos que ficamos longe, mas sempre antenados um com o outro. Teve fases até de raiva e afastamento, mas nunca ausência. Assim é a nossa história. A gente tava longe, mas sempre ligado. “O que será que Mario acharia disso? e daquilo?” com você também era assim, recentemente falamos sobre isto. Mas nunca tivemos tão juntos como agora. Sem estar mais vivendo aquela vida de doideira, viagens, drogas, embriagados de tudo que enlouquecia. Agora sessentões, já tínhamos experimentado Deus e o mundo... falávamos a mesma língua, gostávamos das mesmas coisas, não tinha mais disputa nem ciúmes nem rivalidade nem projeções fantasiosas nem teatro nem competição nem porcaria nenhuma. A gente se divertia juntos, e ria juntos. Uma amizade que me abrigava, me ajudava, me entendia, me aceitava, me admirava, me queria, me chamava, me protegia, me apoiava, “me” sentia falta... há um ano e meio, estávamos vivendo como sempre tentamos, mas nunca conseguimos nestes quarenta e dois anos. De repente, de uma hora pra outra, isto acaba, um cataclisma vem e te leva. E depois, ainda esperam que eu aceite??????

Como será que tá Friburgo? será que está limpo do barro que a soterrou? será que as coisas voltaram ao normal? será que o Hotel São Paulo está aberto? será que vou conseguir ir pra lá e só chorar, ou vai ter mais coisa?

Saturday, May 28, 2011

hora da ficha cair

Agora sei, ou pelo menos acho que, o que estou passando nesta volta da viagem. 
Uma sequência de etapas: 
- stress (a doença desde 2008 do Nelson e sua quimioterapia no ano passado), 
- estado de choque (a sua morte súbita)
- mais stress (piora do Nelson e mais uma operação, quando não era pra ter nada, pois com tanta quimioterapia, por que isto agora?)
- dormência: parece que minha cota de sofrimento chegou ao limite máximo, e depois disto, só há dormência. Dormência de sentir, dormência de sofrer, dormência de pensar... a cabeça consegue fazer coisas banais, como ver desenho animado na TV, lavar toda a louça... Ler um livro exige uma concentração impossível: estava com 4 livros lidos pela metade. Dormência, falta de ânimo nem pra sair. Só comer. 
- parênteses para respirar: viagem
- e agora: voltar e encarar de frente a realidade que me assusta: a sua morte e a doença do Nelson. Cara a cara. Não dá pra fugir, só tem um jeito: encarar.

É hora de a ficha cair.

Mas apesar de saber que ce morreu, to estranhando que a gente não tem se falado... ce não me manda email.

A ficha está caindo. Realizing what happened.

É física, ou espiritual, ou psicológica esta falta. To te aguardando, olha que loucura. É como se tivesse havido um erro, não era teu aquele corpo que acharam: você vai me aparecer por agora, e tudo voltará a ser o que era. Houve um enorme erro. Sinto que to precisando ir pra Friburgo, não te ver me esperando na estação, não comer contigo nos Amigos do Julio, não estar contigo. Acho que to precisando ir e visitar a sua sepultura, e ler bem devagar e alto: Mario Jansen.

É desconcertante. Tenho pensado em você a toda hora, lembrando coisas. Andando por Santa Teresa, é você o tempo todo. Lá embaixo também. Queria mudar de bairro. Queria mudar de cidade. Ou país. Ao mesmo tempo que lembrar de você me dói, é gostoso, porque é a maneira que tenho de ter ter.

Mas não quero ficar assim pra sempre. Como fazem as pessoas pra recomeçar? e se conformar? e continuar vivendo?? como?

O pior de tudo é este absurdo, gélida lucidez dos fatos.

viagem

Mario, tanta coisa aconteceu desde a última vez que te escrevi. Fui pra Florida visitar a Suzy. Cheguei exatamente no dia do aniversário dela. Ela foi me buscar no aeroporto, junto com a Maína, que também estava lá de visita por uma semana. Uma verdadeira reunião familiar, só faltou mesmo a Lili, que quase que apareceu na última semana. E claro, meu sobrinho Mike. 

Mas Mario, foi tão bom! 

Resolvi em cima da hora. Comprei a passagem 6 dias antes da viagem. Pois ce sabe, Nelson operou no meio de março e as semanas seguintes foram difíceis, eu não sabia se iria conseguir viajar... como ele estaria... efeitos colaterais... reações adversas...  eu mesma estava muito tensa... se eu estava pronta pra fazer uma viagem... fiquei com medo de passar mal no avião, ou na conexão, ou mesmo lá... ce sabe como tenho medo, pavor de avião, né? mas eu precisava tanto dar uma arejada. Tua morte e o consequente fim dos meus planos futuros, a piora do Nelson, tudo me deixou muito mal, e estava a ponto de “passar pro outro lado”, sabe? a linha entre lá e cá é muito tênue, não tem aviso prévio, e quando ce vê, ce já foi e nem reparou.  Depois, voltar é que é o problema.

Senti que pior do que estava não podia ficar... e se eu tivesse coragem, iria ser tão bom.

E foi.

Percebi mudanças em mim. Primeiro, que fui, estive e voltei sem um arranhão. Sem somatizar nenhuma enfermidade. Caraca, haja força!!!

Segundo, que o medo do avião ficou menor depois de sua morte. Você morreu (ainda me soa absurdo e irreal esta afirmação) no lugar que te abrigava, te acolhia, te aconchegava, te nutria. Justamente no lugar em que ce mais sentia seguro, seu castelo, sua fortaleza. Ali você era inteiro. Você confiava. Você fez a casa que te caiu em cima. Você reflorestou o morro que te esmagou. Tem sentido? nenhum. Não foi num avião, não foi voltando de madrugada, dirigindo na estrada pra Friburgo, depois de um show no Rio (coisa que ce ventilou que pudesse acontecer, tanto é que me deu a cópia de suas chaves), ou mesmo de uma ataque cardíaco, um piripaque fatal qualquer, e como morava só, só iriam descobrir tarde demais. E então? senti que a morte não tem sentido, não há como controlar e, pelo que sei e entendo, não há previsão nem merecimento. É uma loteria, um sorteio de azar. 

Terceiro, que estou valorizando cada vez mais o presente. Eu já falava, já sentia, mas agora isto ficou como sendo a única maneira de viver. Viver como se fosse morrer amanhã. Mas não é perder a cabeça, beber até cair, fazer loucuras, que nem diz aquele samba do Assis Valente “E O Mundo Não Se Acabou”. Pelo contrário: é aproveitar o tempo que me resta, que pode ser uma hora, um mes, um ano ou mais, se tiver sorte.

Porque cada vez mais, a vida depende de uma pitada de sorte.






Wednesday, May 25, 2011

quatro meses


Zero hora do dia 12 de maio. Eu estava perdida, sozinha, no meio dos saguões intermináveis do aeroporto de Miami, dando voltas de lá pra cá, em busca de informações sobre o transporte que iria me levar até um hotel. 

Contando assim parece um pesadelo, mas era bem real. Meu vôo de volta pro Rio havia sido cancelado em cima da hora, e depois de muita confusão e ânimos alterados, me deram uma papeleta com direito a uma noite num hotel, que o meu vôo sairia só na manhã seguinte, às 8:00. Ou seja, não havia tempo a perder. Primeiramente pensei em ficar lá mesmo, nem sair do aeroporto, mas as coisas ali estavam começando a fechar, o cenário não era nada animador, estava ficando meio deserto e esquisito, luzes apagando, ruídos silenciando.

Lá fora estava mais sinistro ainda: deserto, sombra expressionistas em preto e branco, de vez em quando um veículo passava a cento e vinte por hora. Me senti frágil, desamparada e tive medo.  Cadê todos do meu vôo cancelado? não havia ninguém ali. Finalmente consegui contactar o hotel, que me mandou transporte. Só eu na van, mais ninguém.

Uma e meia da manhã. O hotel era muito bom, pena que cheguei tarde demais pro jantar, e a cozinha só me ofereceu melancia, melão e iogurt com sabor, que devorei no quarto. Pedi para me acordarem às cinco, e tentei cochilar, com medo de perder a hora. Nem pude aproveitar a cama gostosa e o conforto em volta de mim. Deitei ligada em me levantar, com a roupa do corpo.

Tudo isto pra dizer que naquele dia completava quatro meses que ce morreu.

Só eu sei como foi e continua sendo pra mim esta perda, esta ausência, este teu vazio em mim. Só eu sei. Só eu sei. Só eu sei.







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sonho em Largo

Mario, acordei e consegui me lembrar deste sonho que sonhei contigo. Mas foi mais que um sonho, foi maior. Teve um primeiro sonho: estavam escavando onde era a sua casa, percorri aquilo tudo, depois te vi e corremos um de encontro ao outro. Nos abraçamos forte. Não me lembro de mais ninguém, porque inclusive o cenário sumiu e ficou só a gente se olhando nos olhos e abraçados, muito fortemente. Acordei perturbada e com os olhos embaçados. Eram 6 da manhã, muito cedo pra acordar, pra quê? quando todos estavam dormindo na casa, então consegui voltar a dormir, e aí deu-se o segundo sonho: e foi tão bom, e você voltou, só que muito mais intenso. Estávamos abraçados, conversamos, chorei tanto, perguntei se ce tava morto ou vivo, ce respondeu morto. Mas ce estava tão tranquilo. Perguntei como foi que aconteceu aquilo? ce respondeu que entre uma coisa e outra foi tranquilo. Ce usava uns anéis lindos, coisa que ce nunca usou. Anéis grossos, com turqueza e coral, de prata. Me sentia tão bem nos seus braços. Perguntei se os outros estavam te vendo, suzy, lili, milton talvez, mamãe? não me lembro se tinha mais gente. Ce abria umas portas de uns aposentos muito claros, mas só olhávamos pra dentro, não entrávamos. Andávamos por umas ruas de um vilarejo, meio lagoa, meio friburgo quando deixa de ser cidade pra virar roça, você abria as portas pra mim. Ce tava lindo, com cabelo comprido, rosto rejuvenecido e sereno, claro que foi projeção da imagem que tenho de você quando éramos casados... Estávamos tão juntos um do outro, abraçados, acho que ce me carregava, porque estávamos quase da mesma altura. Quando eu te falei que te amava muito, e que não tava conseguindo viver assim sem você, foi só então que ce mostrou uma tristeza no rosto, no olhar e de repente acordei chorando muito. Eu tinha dormido esta noite com aquela venda que se põe, que ficou todo molhado. Não queria acordar, queria continuar contigo, estava realmente tão bom, não queria que acabasse aquele momento, queria te fazer milhares de perguntas que me perseguem, como é morrer? o que ce sentiu? quando foi que ce viu que iria morrer? ce viu? ou até o último momento tinha a certeza que iria escapar da tragédia? Casquinha foi contigo? como é agora, estar morto?

Tentei voltar mas não consegui. Foi muito forte, se eu acreditasse eu diria que esta noite ce me visitou, inclusive esta foi a minha impressão nos primeiros instantes em que acordei: era muito claro, eu estava contigo, você estava ali. Queria tanto que continuasse. 

Devo acreditar em paranormalidade? 

Wednesday, April 6, 2011

sem álcool, cinesanta e bicho preto

Tua cerveja sem álcool ficou na geladeira até a semana passada. Não foi nem pra deixar que deixei... via e ia deixando... Abria a geladeira e notava aquela lata num canto, depois nem notava, como se ela fosse uma peça adicional... e lá ficou. Mas agora abri e joguei pelo ralo da pia abaixo. Mas sei lá... teve uns dias no começo que eu não tirei de propósito, em sua homenagem, em sua lembrança: como ce gostava de comer com ela acompanhando, desde que parou de beber!!! Eu já não: achava aquilo uma enganação (pra quê tomar cerveja, se não dá barato?). Fui deixando, pra não mexer muito no tudo que havia mudado totalmente. Se você não estava, estava a sua cerveja... meus olhos se acostumaram com aquele objeto, como se estivesse te representando ali em pé solene...

Pois é assim que as coisas caminham, Mario. Pessoas me encontram e falam comigo, é este horror que sempre está me voltando, e não há outro jeito senão enfrentar. Assim como no outro domingo fui com a Glória no Cinesanta, e me lembrei. Me lembrei que queria tanto te levar lá pra ver um filme, te mostrar, toda orgulhosa, o nosso cineminha de bairro: poltronas, ar, telão, escurinho... bem ali no Largo do Guimarães, lugar que você conhece mais que a você mesmo.... tantas vezes tantas tantas que passamos por aí, juntos, separados, caretas, doidões, com a galera, só nós dois... tanto que vivemos... histórias neste Largo. Um cinema no bairro era um sonho na época- to falando dos anos 70, quando Santa Teresa era inteiramente desconhecida e abandonada, mas era adorável de se morar... mais segura, todo mundo se conhecia, menos gente etc etc... coisa de 40 anos atrás, isto em qualquer bairro, qualquer cidade, estado ou país. Mas este sonhado cinema nunca aconteceu e tínhamos que descer pra “cidade”, se quiséssemos ver algo. Agora que tem esta jóia, queria muito te levar. Ter te levado. Não deu tempo. Que merda.... não deu tempo. Queria ter ido contigo ver os Dzi Croquettes, ia ser demais: convivemos intensamente com estas pessoas, ia ser incrível vermos juntos. Mas não aconteceu, isto foi no ano passado, eu cuidando do Nelson, você ensaiando e tocando com Ithamara, ficou difícil marcar. Quando ce vinha, era pro ensaio, pro show, e depois ce queria subir logo pra Friburgo por causa das cachorras. Ce ficava preocupadíssimo com elas lá na casa sozinhas... água, comida, saúde... você era uma verdadeira mãe! 

Pois bem. As cachorras. As duas pretinhas. Me lembro que ce adorava bicho preto. Casquinha foi embora contigo na tragédia, vai ver que ela estava deitada do seu lado, ou então... outras razões... e a Farofa se salvou. Sobrevivente. Farofinha conseguiu se salvar, mas COMO???? 

Por que cachorro não fala? ela poderia me contar tudo que aconteceu. Quando é que a gente iria imaginar que ela moraria na Lagoa das Lontras? que Bel iria resgatá-la nos escombros (quem imaginaria que haveria escombros?). Farofa estava em cima de tudo latindo, Bel a pegou e trouxe-a pro Rio. Farofa aqui em Santa Teresa. Depois na Lagoa das Lontras? quando? quando é que iríamos imaginar tudo tudo que aconteceu?

Já cansei de tanto pensar imaginar descobrir o que de fato houve, quais foram suas últimas palavras, Mario, qual foi o seu último pensamento... não porque me confortaria, não porque melhoraria alguma coisa- NADA serve pra amenizar a tua morte- é que, por mais que a razão tem consciência do fato, a emoção não acredita e quer ouvir. Acho que o negócio tem que se esgotar daqui de dentro pra fora e pra dentro e depois pra fora pra sair... ah, sei lá....



Thursday, March 31, 2011

beethoven contra o câncer

Mario, ce não vai acreditar. Bem, acho que ce deve ter lido. Um artigo surpreendente, de arrepiar, saiu ontem no O Globo, Ciência: “Beethoven Contra o Câncer: células tumorais expostas à Quinta Sinfonia perderam tamanho ou morreram. A pesquisa foi feita pelo Programa de Oncobiologia da UFRJ, que expôs uma cultura de determinadas células à meia hora da obra. Uma em cada cinco delas morreu, e as sobreviventes apresentaram perda de tamanho e granulosidade!!!! ce leu? que fantástico, né? já imaginou se o Nelson algum dia puder se beneficiar deste “remédio”?

A Quinta Sinfonia é aquela que começa com aquelas quatro batidas, e que popularmente chama-se “do destino”. Caramba, ficamos todos cheios de esperança aqui!!! mostrei pra ele, mas ele não se interessou muito, eu é que fiquei assombrada com esta matéria. Não é incrível? não é maravilhoso? que glória seria se isto realmente desse certo. Porque, quando a medicina tem pouco ou nada mais pra oferecer, como é o caso dele, uma notícia destas realmente é animadora demais. Já imaginou chegar um dia em que entra-se no consultório, e o médico receita meia hora por dia ouvindo determinada música, ao invés de quimio, radioterapia? é um sonho!

Já tinha ouvido falar sobre o poder que a música tem nas plantas, mas sempre achei meio preconceituoso, porque dizia assim: música clássica tornava as plantas lindíssimas, viçosas, enquanto que rock ou funk matavam as mesmas. Rock e funk escurecia a água no copo, a música clássica formava lindos cristais brancos. Que coisa. Não dava pra acreditar numa coisa destas. Mas esta reportagem me parece séria, relevante, e perfeitamente crível: diz que esta Sinfonia em particular tinha esta habilidade, mas já uma peça que puseram de Mozart (Sonata para 2 pianos em ré maior), que é muito usada em terapias alternativas, não fez o menor efeito. Bem, por aí dá pra concluir que não é mérito do gênero de música, pra começar. Outra que também surtiu efeitos semelhantes nas células tumorais foi a composição “Atmosphères”, do húngaro György Ligeti, que me deu a maior vontade de conhecer. Como será?

Ainda há muito a pesquisar: se o efeito foi pelo conjunto da obra, ou partes dela, ou mesmo um ritmo, um timbre, uma sequência harmonica. Pesquisar também outros gêneros musicais -vão agora usar samba e funk- e também se o mesmo resultado é conseguido quando se escuta com fones de ouvido, porque estes resultados não têm a ver com o emocional, as células tumorais foram expostas ao som, foi uma consequência direta, física.

É preciso descobrir a cura do câncer, ou como controlá-la, pelo menos, como tem sido feito com a Aids. Câncer: doença séria e traiçoeira, que, salvo raras exceções, acaba com a pessoa que a tem e abala profundamente quem está ao lado, cuidando e convivendo com este horror, pra não dizer que acaba também, que é como eu me sinto... cara, às vezes penso que vou pirar e sair correndo e não voltar nunca mais...

Me lembrei agora de como ce pronunciava Beethoven... era tão bonito... Be-e-thoven...

Saturday, March 26, 2011

sonho, coisas e bubu

Um sonho: eu tava em Friburgo, na casa desta senhora que não conheço. Era hora de eu voltar pro Rio, mas não queria porque era Carnaval, e não queria enfrentar a Rodoviária- que detesto- no Carnaval, bem dentro da confusão toda. Então resolvi dormir mais uma noite lá. Sentei em frente a uma mesa, e de repente, com o rabo do olho, olho pros fundos da casa, e vejo um tobogã de barro. A casa onde eu estava era a sua, e onde era o morro virou esta encosta que desceu e estava vermelha de barro. Acordei no susto, e fiquei mexida na cama e senti que eu precisava ir lá pra ver como ficou, senão vou ficar a vida inteira sem acreditar...

Pois é, meu amigo, as coisas continuam. Nelson acabou de acordar neste instante, ouço-o gemer no banheiro. Ai! ai. ai. ai. De manhã é a pior hora. Esta noite não dormi o suficiente. Ele acordou com muita dor às 5, tomou remédio e dormiu de novo, eu não consegui, então to acordada desde 5. Agora são 8. 

Coisas que me lembram você, a cada vez que os pego: o corrimão da escada, que fiz sob sua orientação. O seu corrimão de Friburgo era tão perfeito, ininterrupto, macio de deslizar a mão, e tão simples e de bom gosto. Um corrimão de metal, só isso, mas muito bem feito. O meu não é nada assim, ainda falta pintar, mas são tres pedaços. A panela de barro que uso pra fazer arroz integral todos os dias, junto com a coleção toda que ce trazia nas vindas pro Rio, compradas em Itaboraí. O durepox na pia inox da cozinha, que se soltou toda e era uma verdadeira arma, cada vez que a mão distraidamente passava pela beirada: você que deu a idéia e até ia colocar, mas eu coloquei antes e funcionou até agora, nunca mais houve mortos e feridos hehe... Lavar louça: sempre a vida inteira lavei louça, mas agora quando lavo, me lembro de você, que aqui em casa nunca deixava nenhuma suja na pia. Ce dizia que a pior coisa era acordar de manhã e encontrar a pia com louça suja. E ce lavava naquele ímpeto tresloucado, molhando tudo em volta, empenhadamente, com força, meio impacientemente mas de uma maneira altamente eficaz. 

Não sei se já te contei, mas o Bubu se acidentou. Milton foi um dia lá no quintal levar a comida, e ele estava no chão. Desde que aprendeu a voar, ele chegava lá do alto, às vezes bem lá do alto do céu, onde fica a turma dele de urubus sobrevoando, mas ouvia o Milton bater o pratinho e lá vinha ele até planando até chegar ao chão. Pois há umas 2 semanas atrás ele não é visto voar, e numa atitude diferente, como se estivesse se guardando, meio apreensivo. E num dia aí Milton o viu vomitando. Desde quando urubu vomita???? esta é a primeira vez que ouvi falar isto. Só se for isto: ele foi criado a carne moída fresca, banana e flocos de quinoa, aí se juntou à turma quando aprendeu a voar, e a turma vai lá pra Gramacho, ou prum cavalo morto em Caxias, sei lá... aí alguma coisa não fez bem ao seu requintado aparelho digestivo, tadinho... O que me faz pensar: ele nunca vai ser um igual aos seus. E tudo começou naquele dia que ele caiu do ninho, e Milton o encontrou de noitinha e nem sabia o que era aquilo, porque não dava pra ver direito, aquele bicho todo fofinho branquinho (nem tinha pena ainda, e nem era preto). Destino.






Thursday, March 24, 2011

consegui ouvir 2 faixas

Mario querido, olha só! acho que ce vai gostar: consegui ouvir as 2 primeiras faixas do nosso CD que gravamos em dezembro, Keep on Eatin’ e God Bless the Child. Depois daqueles teus vocais e solo, não deu pra continuar, senti muita tristeza, meu corpo cabeça mente pensamento coração tremeram muito e falei pra mim mesma, chega! Mas é um bom sinal ter conseguido ouvir duas. Tenho que te divulgar, mostrar este trabalho, fazer um show em sua homenagem, e tenho que conseguir te ouvir, mesmo sabendo que nunca mais tocaremos juntos, nem comporemos juntos, nem conviveremos juntos. Mas ce deixou pra mim várias sementes que seria bom se eu plantasse para que nascessem flores, plantas e árvores que vão alimentar outros seres da terra. Não sei quando isto será possível, pois agora, quase 3 meses depois, ainda choro ao te escutar. Mas é assim mesmo.

Sabe porque é bom sinal? porque parece que to me fortalecendo. Ninguém consegue viver com uma tristeza tão grande, tem que aprender a transformar isto noutra coisa. Alquimia. Os Alquimistas Estão Chegando “Eles são discretos e silenciosos, moram bem longe dos homens...” Jorge Ben. Transmutação. Transfiguração. Transferir. Porque o absurdo que é tudo isto, sua morte, e a morte do futuro que eu estava criando pra mim, morar na velhice em Friburgo no andar de cima, e outros amigos em volta construíndo no terreno que te soterrou... e consolidar de uma vez por todas a nossa parceria, parceria esta tão sofrida por vais e vens. A hora era esta. Mais maduros, na faixa dos 60, sem drogas legais e ilegais, com uma vontade enorme de dar certo, e uma admiração amorosa legítima, fruto de quarenta e poucos anos de relacionamento. Então ter interrompido assim tão bruscamente toda uma vida, não dá pra engolir conformadamente, dizendo que é um líquido muito amargo. Não dá. Não aceito. Não me conformo. E por isso, que conseguir ouvir 2 faixas do CD é um bom sinal, porque mesmo sentindo isto tudo, luta-se pra não ir junto.

Wednesday, March 23, 2011

visita do Obama

Esqueci de comentar sobre a visita do Obama. Gostei tanto de vê-lo aqui, ce sabe que adoro ele, adoro por ser esta figura que é, nunca gostei de um presidente tanto quanto gosto dele: democrata, fala muito bem, e quando fala, é suave mas ao mesmo tempo firme, e acredito em tudo que está dizendo, ou seja, me passa sinceridade. Quando é que sinto isto na política? Uma simpatia total, um cara simples, bonito, em forma, tem uma mulher que parece ser fantástica, ativa politicamente também independentemente dele e de sua posição, simpática, bonita, vegetariana, ou seja, isto tudo me mostra que estão comprometidos com um futuro mais limpo, envolvidos em causas ambientais, alimentação saudável, é isto que o futuro tem que ser, limpar este planeta para as futuras gerações.

Gostaria tanto de conversar contigo sobre isto. Assim como está, eu monologo... sinto falta de você falando alguma coisa, dando a sua opinião, aliás, ce era de ter muita opinião. Personalidade forte. Mas lembro de como discordávamos das coisas, nossa!!! e era assim: eu nem insistia em te convencer de nada, só discordava. Aliás, não tá com nada tentar convencer o outro. Isto foi uma coisa que mudei em mim. Quando jovem, achava que todos tinham que pensar como eu, que eu estava certa e pronto! coisa de criança mesmo. Depois a gente vai vivendo e vendo que tudo é tão relativo, e tantas dúvidas vão surgindo, e tantas pessoas com opiniões diferentes das nossas, e a gente considerando a opinião dos outros, e mudando a nossa, mudando... Cada um pensa como pensa, cada um é cada um, cada um é um universo à parte. Então quando ce vinha com aquelas teorias conspiratórias, eu respeitava, ficava ali ouvindo, mas aqui entre nós, achava aquilo uma loucura. Se eu acreditasse naquelas coisas, eu piraria....

operação de Nelson

Nelson operou bem cedinho de manhã, com anestesia local e sedação, demorou uma hora e meia, foi um sucesso. O Ricardo, um gênio no bisturi e um amor de pessoa. Dormiu o dia todo até 6 da tarde, quando veio o outro médico da equipe, o André, que disse que ele poderia ir pra casa naquela mesma noite, e lá fomos nós catar um taxi, ele meio grogue ainda, de turbante, todo enfaixado de gaze, inchado e vermelho, pra casa. Aqui entre nós, eu estava preferindo passar a noite lá: qualquer coisa que acontecesse, estaríamos no hospital... me sentiria mais segura, com menos responsabilidade nas costas, e- por incrível que possa parecer- naquele sofanete eu descansaria mais, porque chegar em casa, iria ser aquela coisa: comidinha especial, pegar coisas aqui e ali pra ele, dar aquela atenção redobrada. Mas assim que o médico deu esta alternativa, ele disse que queria ir pra casa, e fomos.

Chovia uma garoa. Chegou e comeu especialidades da casa: canja orgânica bem picadinha, purê de batata, vitamina de abacate com mel de figos, coisas pastosas para não mexer mastigando muito na região. Dormiu mal, aliás passou 3 dias sofrendo daquelas dores violentas na pleura (ce sabe que o período crítico é de manhã quando acorda, e às vezes quando acorda de noite). Acho que foi o stress de tudo, somado a ficar deitado por tanto tempo naquele leito de hospital. Hoje está bem, com menos dor, e eu feliz. Isto já me faz ficar feliz: menos dor.

E você? que ce anda fazendo? como é aí em cima? tem piano, teclados? fez amizade? encontrou alguém conhecido? gostaria tanto de saber tanto de você tanto... 

Sonhei com tua casa no outro dia. Nada lembrava, mas era sua casa. A casa dava pra rua, uma rua transversal pequena, e não a Avenida. A casa estava em ruínas, mas as paredes continuavam de pé, como se o telhado tivesse apodrecido e caído. Plantas cresciam entre os escombros. Tinha uns raios de sol por entre as árvores, mas era de noite, não me pergunte como. Ao entrar na casa, encontrei um bilhete pra mim com sua letra que conheço tanto, aquela letra grande ocupando todo um A4, dizendo que ce tinha saído, mas que ce voltava já, que era pra eu esperar. Tinta hidrográfica azul. De repente, deu um vento, e voou da minha mão, se enfiando por entre os sacos. Aí reparei os sacos: milhares de coisas suas em sacos plásticos transparentes devidamente organizados, lembranças, papéis, pequenos objetos de metal, canetas, muitos sacos no chão e uns em cima dos outros. Ce iria viajar? jogar fora as coisas? nas entrelinhas havia uma coisa trágica. Andando pelos cômodos, todos sem teto, mas com as paredes de pé, encontrei a Cláudia (que não conheço, só falei pelo telefone), advogada da sua família, sentada no quintal com uma outra pessoa. Saí andando e encontrei a Glória (que não vai à Friburgo a 30 anos), e fomos caminhando, ela me consolando, nem desconfiei que era sonho, apesar de todos os absurdos, mas sonho é assim mesmo... aí andando, acordei. Sempre com lágrimas.

Que mistura... você vivo, você morto... você aonde está? encontrei a sua havaiana embaixo da cama aqui em casa... a cama que ce dormia... e deixei lá mesmo, como que te esperando. Não dá pra tirar de lá, assim como teu nome continua nos meus contatos, e na minha agenda telefônica. Não vou tirar nunca. É assim mesmo que se faz? sei lá, só sei fazer assim agora...

Sunday, March 13, 2011

operação à vista

Mario, Nelson vai operar na terça. Ce deve estar sabendo disto (sempre imagino que ce tá num lugar lá em cima, de onde dá pra ver tudo que se passa, como um deus... sei lá... mas imagino isso). 

Tudo começou com o aparecimento daquelas bolinhas bem embaixo da orelha- região que havia sido operada em 2008. Aliás, foi na consulta do dia 10 de janeiro que soubemos desta recidiva- te liguei quando chegamos em casa e te contei, e por isso decidi mudar os planos: eu iria no dia seguinte pra Friburgo, mas preferi ficar com Nelson, estávamos abalados com a notícia... Mal sabia eu que dali a 2 dias iria acontecer uma coisa muito mais terrível, muito mais traumatizante, muito mais tenebroso, muito mais cruel, muito mais assustador, muito mais, muito mais... e foi por causa deste detalhe que parece pequeno que eu não estava ali contigo na hora que desabou tudo, isto não é esquisito? mas isto é um outro assunto, pra uma outra vez.

Mas Nelson vai operar na terça, e to com medo das dores matinais dele. Ele passou a tomar a metadona de 6 em 6 horas, mais o paracetamol, e mesmo assim quando levanta de manhã as dores são violentas, e só conseguem ser controladas por volta do meio dia. E eu, que estou do lado, assistindo isto, fico em agonia... uma sensação de impotência porque não posso melhorar a sua dor, não posso curar a sua dor, não posso fazer nada senão dar carinho e estar do lado. Quando ouço seus gritos, seus gemidos altos, seu choro com lágrimas escorrendo dos olhos, se eu estiver lavando um prato, ou estendendo uma roupa, ou cortando uma cebola, tudo que faço, faço malfeito, faço de qualquer jeito, faço com pressa, com agonia, com angústia, querendo acabar logo, e correr pra onde ele está pra dar um apoio moral pelo menos.

Tem uma coisa que ajuda, não sei porque, mas melhora. Sempre que coloco a mão ali no diafragma, a dor diminui. Calor? vibração? tem aquelas seitas que curam pela imposição das mãos (mahikari, messiânica etc), tem a radiestesia, reiki,  sei lá...
talvez tenha um fundamento. Então eu fico alerta, sempre que ele está em crise, to lá eu com a mão tentando aliviar a sua dor. E alivia mesmo. Então não me sinto tão impotente assim. Mas muitas vezes não dá pra chegar nem perto, que ele se contorce todo.

Mario Mario Mario... não acredito que não posso ligar pra você e contar isto tudo, como sempre fiz, pra desabafar, pra ce me ajudar, não acredito que não posso contar mais com a sua força... como foi que aconteceu isto? como foi como foi como foi? é de enlouquecer....

Friday, March 11, 2011

terremoto no Japão

Hoje aconteceu um terremoto que provocou um tsunami monstruoso na costa nordeste do Japão. As ondas de 10 m invadiam a terra com uma velocidade espantosa, uma onda pegajosa parecida com lava de vulcão, mas era detritos, lixos, carregando carros, navios, casas. Pareciam leves rolhas sendo levadas ao léu... e com 4 usinas nucleares ali com risco de vazamento... queria tanto comentar isto contigo. As imagens são chocantes, uma tristeza. Tá vendo como estas coisas sérias estão ficando cada vez mais frequentes?
O eixo da Terra mudou em 25 cms.

10 de março

Ontem foi 10 de março e ce não me ligou. Como poderia? ce morreu. Por isso é que eu digo que.... nunca mais. Por isso é que falo da saudade, da falta, e que pessoas dizem -não! ele não morreu, ele está presente nas lembranças, nas coisas que deixou... presente na cabeça sim! o tempo todo, mas... não me telefonou no meu aniversário. 

Esta falta de telefonema seu foi sentida durante o dia todo, apesar de saber que não iria acontecer. Era uma falta física de sua voz, uma falta psicológica e emotiva de sua atenção, um hábito que eu tinha no meu aniversário, não importa se estávamos meio distantes, meio separados, meio brigados, meio morando longe, meio em outros continentes, meio doentes.... sempre vinha um sinal de vida, um afeto. 

Monday, March 7, 2011

ce me chamando na janela

Mario, ontem acordei com você me chamando na janela, me chamou duas vezes, a sua voz do lado de fora, e acordei. Não me lembro do sonho, nem se tava sonhando, talvez você realmente me chamou, mas claro que não foi! porque você morreu, como é que iria me chamar? isto foi a minha mente, a minha cabeça confusa e atormentada que ainda não conseguiu engolir este fato absurdo. Como uma pessoa tão forte, com tanta saúde, tão presente na minha vida pode sumir assim de uma hora pra outra? como é que fica o que ficou? 

Outra coisa que me deixa nervosa é não ter certeza como foi. Você estava acordado ou dormindo? você percebeu que ia morrer? sentiu medo? sentiu dor? ou tava dormindo e nem se deu conta? tenho certeza que ce gostaria de comentar comigo como foi, o que aconteceu.

Logo que eu soube, pensei- ele estava dormindo, porque aconteceu de madrugada, e ele sempre dormia relativamente cedo, já estava acostumado a dormir e acordar cedinho. Aqui em casa ce até brincava dizendo, quando a gente via um filme até a meia-noite ou uma da manhã- “puxa, ces dormem tarde aqui hehehe”... Mas voltando, logo que eu soube que sua casa foi atingida, imaginei que ce estava dormindo quando aconteceu por causa da hora... então ce não teria se apavorado com aquilo caindo emcima, não teria percebido que ia morrer, não teria sentido dor, não teria sentido desespero, não teria saído correndo pra depois não ter dado tempo e ter sucumbido embaixo dos escombros. Dizem que quando ce vai morrer, a tua vida toda passa num segundo pelos teus olhos. Disto você teria se livrado. Se tivesse dormindo.

Primeiramente acreditei nisto, e prefiria que fosse assim, porque te pouparia um pouco menos, ce teria sofrido menos, se é que isto realmente é fato, ou só na minha cabeça é que tem diferença... Mas duas coisas que eu soube por alto me abalaram, coisas que ainda não confirmei, porque não quero na verdade saber pelo menos agora, porque seja como for, nada vai te trazer de volta, nem vai me fazer sentir melhor. Aliás não! eu até me sentiria melhor se soubesse que ce tava dormindo e nem se deu conta de nada. Mas estas tais duas coisas me deixam na dúvida. Uma: alguém deixou escapar por um instante que ce tava embaixo de 2 lajes e com o braço de fora. Não confirmei, talvez daqui a um tempo eu consiga perguntar como foi, mas agora ainda não dá. É fácil concluir que, se ce tava com o braço de fora, não estava na cama, e muito menos dormindo. E a outra foi que me contaram também, muito rápido e por alto sem detalhes nem muito papo, na verdade “en passant” pra nunca mais ser repetido outra vez: que o vizinho estava te ouvindo tocar tocar tocar durante a tromba d’água, horas e horas tocando e a água caindo, de repente ele ouviu um estrondo, e depois não te escutou mais. 

Não duvido, posso imaginar a cena, é  a tua cara, bem você: o céu pode estar caíndo, o mundo acabando, e você tocando...

Friday, March 4, 2011

ontem choveu aqui

Ontem choveu aqui. Há um mes que não chove (ainda bem!), desde que aconteceu aquela tromba d’água que te matou, Mario.

É tão estranho ouvir isto: te matou, Mario.

Esta-ainda bem- foi suave: uns 15 minutos bem forte, depois enfraquecendo, depois só na ponta do pé... ainda bem.

Ainda bem??? será que ouvi direito? como mudei....

Passei a ter trauma de chuva. Cada dia me informo na TV, no jornal papel e no computador, pra ver a previsão. Criei medo, pavor. Não gosto dela mais. Eu, que sempre amei vê-la chegando, trazendo aquela penumbra que me dava um bem estar diferente, especial. Me sentia mais inspirada, mais aconchegada, mais valente pra vida. Mas agora tenho medo. As coisas mudaram, os “cientistas meteorológicos” daqui e  de lá de fora dizem que grandes transformações estão acontecendo: agora os cataclismas estão mais frequentes e mais intensas. Antes, aconteciam uma vez em 50, 100 anos, agora é todo ano. Ciclones de grau 1 aconteciam com frequência, e os de grau 5, raramente. Agora inverteu: os de grau 5 são frequentes, e os outros quase não acontecem mais. E não há como prever: ainda não existem máquinas para este tipo de previsão, pois tudo isso é novidade. A tempestade- violenta, furiosa, arrastando tudo que vê pela frente, entornando rios, derrubando morros sólidos e de florestas, que antes eram tidos como seguros e perenes, pra soterrar casas e gente (como foi o teu caso) pode chegar de repente, sem aviso prévio. E com muito mais frequência. 

Tem que se prever o imprevisível, imaginar o impossível.

Pois eu amava a chuva. Sempre escutei, antes que os outros, os primeiros pinguinhos muito suaves, muito baixinhos, muito leves. Como se eu a catasse, a procurasse, a chamasse. 

Agora neste intante tá um céu cinzento e só, ficou assim o dia todo, assim é muito bom. A temperatura está gostosa, fresquinha, pedindo até uma manguinha quem sabe, e tá estável, ou seja, não vem violência por aí. 

Bem... acho que não. Tudo é tão bambo...