Monday, October 17, 2011

mar revolto

Mario, foi um fim de semana chuvoso, com pancadas durante os dias. Esta noite, de domingo pra segunda, choveu sem parar,  uma chuva média mas consistente e teimosa. Continua chovendo. Não dá pra não pensar em você e na sua morte, não sei como vou tirar isto, não sei se isto sai, não quero continuar falando sobre isto, ce já deve estar dizendo- puxa, ela tá chata, sempre com este mesmo assunto... se alguém ler estas cartas algum dia também vai dizer- ah! de novo não!- e acabar desistindo... mas é que não consigo deixar de sentir. E mais: não consigo deixar de falar aqui, porque é a única maneira de por pra fora toda este meu choque e minha estupefação. E vou continuar falando, porque tem uma hora que transborda, e não dá pra apertar e comprimir, senão estoura. Olha, eu amava a chuva como ninguém, me dava uma inexplicável alegria interna só ao saber que anunciava-se uma chuva. Sua penumbra, seu mistério, seu nevoeiro, coisas para descobrir, coisas a revelar, seu aconchego, seu tamborilar nas folhas, na rua, no mundo... entrar dentro de mim e me percorrer caminhos esquecidos ou nunca trilhados. Mas agora, além disto, sinto um outro lado, que vem sem eu ter vontade, mas vem, é um malestar que na hora nem identifico, mas passadas umas horas, vem a verdade: a chuva te matou e este fato tá dentro de mim, faz parte das minhas orelhas, olhos, pulmão, fígado, pés e cérebro.

Me lembro de um quadro grande que ce tinha, e desde que te conheci, conheci este quadro, depois te acompanhou até agora, estava na sua sala. Por muito tempo, ficava em cima do piano nas várias casas em que ce morou. Era um quadro em preto e branco de um mar tão revolto que dava medo. Me incomodava, não entendia porque ce gostava daquilo: era o próprio inconsciente turbulento e atormentado. Me imaginava naquelas ondas, indefesa, longe de qualquer coisa parecida com terra, e era o próprio horror. A força da água é incalculável, não dá pra imaginar do que ela é capaz. 

Nós JAMAIS imaginamos, em toda a nossa existência, que uma casa tão bem construída, capaz de suportar um terceiro andar, feita por um arquiteto competente, amigo nosso, uma casa tão linda e aconchegante, tão convidativa, tão cheia de belezas, pudesse ruir tal qual um castelo de areia. Não é sinistro como foi isto que te matou? a força das águas? tava ali, no quadro em cima do piano...

Wednesday, October 12, 2011

nove meses

E hoje, dia 12, faz nove meses. Hoje é feriado, dia da Criança e de N.S. Aparecida. Romarias por toda parte, muita gente viajou e vai emendar até domingo... olha que hoje é quarta ainda, heim... 

Sempre penso em subir pra Friburgo... no outro dia Bel até me perguntou se ainda estava com vontade de fazer isto. Claro. É mais uma necessidade. Nove meses depois, já devem ter consertado muita coisa, ou sei lá.... queria falar com nossos amigos também... mas em pessoa...  tenho o telefone de uns... mas como encontrar a Cris, por exemplo? 

Nove meses, o tempo de uma gestação humana. Será que foi o tempo suficiente pra eu gerar forças e por os pés em Friburgo? Acho que cada mes que passa fico mais forte pra poder fazer isto, mas não me engano: sei que quando for, vou sofrer muito, isto o tempo não vai conseguir mudar. Mesmo anos depois. Mas quero me sentir o mínimo preparada emocionalmente, pra não sair do eixo. Existe isto, estar preparada? como é que a gente se prepara? às vezes acho melhor não ir. Talvez fosse melhor ir sozinha. Ou seria bom uma companhia? será que dá pra entrar no portão da rua? tenho as chaves. Será que ainda são as mesmas? será que tenho que pedir autorização à família? meu Deus, o que será que aconteceu com aquilo tudo? será que a advogada guardou fotos pra mim, que pedi? quando será a hora de eu ver estas lembranças? como vou me sentir conversando com o Kato? e com o Augusto?

Penso, mas só consigo pensar. No mais, paro.

tudo se desfaz

Esta madrugada me acordou com uma chuva torrencial lá fora. Parecia uma cachoeira descendo pelas escadas, do lado da minha janela. Tonéis de água, água, água. Uns raios poderosos rompantes no céu faziam tudo tremer, mas mesmo sem vê-los, sabia pelo som que eram daqueles de nuvem pra nuvem: ficam aqueles desenhos costurando na horizontal, mas nenhum cai na terra com aquela violência elétrica descarregando o universo irado. O ar condicionado tinha parado, e a luzinha da noite estava apagada, donde concluí que estávamos sem luz. Não preciso nem dizer mas digo: num cenário como este, sem querer, se não to pensando em você, passo a pensar, e se estava pensando, penso com toda a força. Como deve ter sido angustiante suas últimas horas. Parece que o aconteceu em Friburgo foram horas e horas de chuva. Chuva bíblica, dilúvio de Noé, primeiro testamento. Como deve ter passado coisa na sua cabeça. Você em algum momento pensou em sair de sua casa e ir pra outro lugar? acho que não, pois lá era um lugar seguro... onde poderia ser mais seguro que ali? e como estaria a rua? carros sendo levados, o Rio Bengala já fora de seu leito,carregando tudo que encontrava pela frente... estamos falando do centro de Friburgo, área nobre.
Será que ce sentiu medo?

Perguntas que não canso de perguntar. 

Minha madrugada de tempestade virou uma manhã chuvosa, depois nublada. Saí pra dar a minha caminhada, e na floresta do Silvestre estava tudo verde brilhante, molhado, um cheiro delicioso de terra molhada, e cheiro de tronco também... um pouco de eucalipto, outro tanto de jaqueira, árvores da Mata Atlântica. Um nevoeiro denso cobria o Cristo e a montanha, deslizando pra baixo e chegando à estrada, onde se desfazia lentamente. 

Tudo se desfaz. É disto que se trata a vida. Não é incrível como uma madrugada de chuva tão intensa e tão ruidosa pode ter se transformado nesta manhã tão calma, tão fresca, tão quieta, de céu querendo ficar azul? 

Saturday, October 1, 2011

Friday, September 30, 2011

stevie wonder

Pois estamos em pleno mega Rock in Rio. Começou semana passada, mega uber festival. Esquece todos que ce já ouviu falar ou foi. Este é um outro planeta. Está situado num lugar tão grande, que é quase um novo bairro. E parece que a infra está bem organizada, na primeira semana teve contratempos: furtos, transporte deficiente, banheiros de menos, filas filas filas pra fazer qualquer coisa, mas parece que consertaram ontem. Eu não fui. Sem saco pra encarar estas maratonas.

Mas assisti em casa o show daquele que considero o melhor de todos, longe, sem comparação. O resto é o resto, mas este é um deus. Stevie Wonder. Emocionante. Ele é um iluminado, aura de luz em volta. Que voz é aquela? que músicas? músicas que fizeram parte da minha trilha sonora desde os meus 15 anos... todas do show eu conhecia... todas cantei... e não dava pra ficar parada... olha que Nelson foi dormir, Milton dava uma olhada de vez em quando, e não tinha mais ninguém, e eu arrepiada no meio da sala. Acho que se eu tivesse lá no gargarejo, eu teria um troço!

Stevie Wonder me lembra de mim, do meu mais íntimo eu, daquela que eu nem lembrava mais, daquela que me lembro a toda hora. Me lembra dos meus namoros, das minhas separações, dos meus desafios, das minhas viagens, das minhas festas, das minhas crises existenciais, das minhas esperanças, das minhas fantasias... escuto ele quase todo dia na minha programação, e muitas vezes me pego ouvindo-o na radio-cabeça. E as músicas dele que cantei em show? me lembro na em Sousse e Tunis, na Tunísia... You Are The Sunshine of my Life era um dos pontos altos... 

E me lembro de você... ce tinha várias no seu repertório... I Just Called... You Are the... Isn’t She... My Chérie Amour... For Once in my Life... The Secret Life... Ribbon in the Sky, e por aí vai. Com arranjos pra lá de suingados. Gostoso de ouvir. Delícia de dançar. Tudo sequenciado, maior bailão. Seu vozeirão. Você, uma banda inteira. Como um talento destes é interrompido antes da hora, com tanto ainda pra fazer?? Ce não vai acreditar, mas ter ainda tanto pra fazer, pra mim, antigamente- olha que loucura!, era garantia que minha hora ainda iria demorar muito, aí eu ficava sossegada. Ha ha ha!!! nada a ver!!!

Queria que ce tivesse vivo e visto o show comigo, pra gente vibrar junto e comentar. Provavelmente, ce veria aqui em casa, porque ce não tinha TV. 

Nada. Não quero acabar chorando aqui, com tanto de lindo que ganhei no show. Estou alegre, estou feliz, estou viva, estou bem. Foi um instante de muita saudade, um relâmpago mental de milésimo de segundo, isto vai existir sempre, é normal, é natural, é bom sair, é bom assumir, é bom vivenciar, pra depois não virar doença. 




batizado e filme bom

Mario... um tempão que não escrevo. A doença do Nelson. Mes passado as dores pioraram, não sei se foi o frio, não sei se foi a atividade (shows, ensaios etc, não muitos mas teve), não sei se foi a falta de esperança. Por várias vezes geme alto e chora. De manhã e de noite é pior. Cada dia é uma incógnita. Nunca está inteiramente sem dor. E eu fazendo o que posso pra diminuir o seu sofrimento. Nunca estou inteira nas minhas coisas, no computador, ou lendo algum pedaço de jornal, sempre penso que não devo me demorar, porque ele tá na sala sozinho, muitas vezes olhando a TV mas sem ver, e penso- que barra! Vou lá. Estar com ele e fazer companhia. E na angústia desta situação fico triste, fico passiva, fico amorfa, fico opaca por dentro, mas brilhante, ativa, alegre por fora, pra dar o melhor de mim pra ele.

Vivo a doença do Nelson e penso na tua morte. 

Vivo a doença do Nelson e penso na tua morte. Penso na tua morte o dia inteiro, o tempo todo. Penso como é tênue a linha entre o vivo e o morto. Se ce tivesse aqui naquela noite, não tivesse subido por uma razão qualquer, ce taria vivo. Se ce tivesse jantado com algum amigo naquela terça, se tivesse visitado alguém, ce taria vivo. Falamos no telefone umas horas antes, ce me ligou agradecendo o depósito, e falamos com muita ternura. Por que não tivemos uma premonição??? por que não senti uma coisa incômoda e por que não te avisei? porque as coisas não são assim, porque não temos este poder de  controlar tudo, mas eu penso que eu poderia ter salvado a sua vida, mas não poderia NADA. Quando desliguei, me senti tão feliz em ter falado contigo, senti um aconchego, um carinho. Fiquei muito feliz mesmo. Aquela noite continuou a chover aqui, mas não foi grande coisa. No dia seguinte, vimos na TV que tinha havido um estrago em Friburgo, mas nada tão catastrófico. As notícias foram chegando aos poucos. Cada vez pior. E o resto, ce já sabe.

Ce vivia falando que somos mais do que somos, que temos o poder da telepatia, podemos prever coisas, é que o ser humano está subjulgado por coisas terríveis, e não vou poder dizer mais aqui porque nunca entendi isto, e como vou escrever sobre algo que não entendi, nem uma vírgula, e também não concordo...

Teve o batismo da filha da Tania, sua sobrinha. Ela se chama Julia. Muito linda. Eu fui, e acho que foi bom pra nós todos. Mas foi estranho estar com a sua família, que conheço há 40 anos, e sempre através de você, e você, cadê? foi stranho, stranho... Milton foi comigo pra me dar um apoio. Acho que ainda não to preparada para este tipo de enfrentamento. 

Teve um filme ótimo que fui ver, Um Conto Chines. Tudo a ver com o que aconteceu contigo, comigo, com Nelson neste ano. Adorei ver. Começa com esta cena: um barquinho num lindo lago plácido, um casal jovem apaixonado namorando, o rapaz se vira pra pegar as alianças que seriam trocadas com a amada, iriam noivar, depois casar, plenos de futuro com planos lindos e esperanças pela frente, quando uma vaca cai do céu bem em cima deles, bem em cima de nós, que estávamos nas nossas casinhas, num lugar tranquilo, cheios de vontade de viver, cheios de planos e esperanças para o futuro de nossos dias... ai ai... de um segundo pra outro, a nossa vida muda radicalmente. O que fazer agora? what to do? como sobreviver? pedaços de nós mesmos, nunca mais o inteiro...

Saturday, August 20, 2011

a folha


Hoje amanheceu lindo. O sol tá brilhando, céu totalmente azul, o dia esplendoroso. Na minha caminhada, quando entrei na floresta do Silvestre, os raios de sol se desmanchavam entre as folhas das árvores, fazendo um jogo de luz belíssimo. Quantos tons de verde, uns mais amarelados, outros ocre, outros mais pro azul... uma infinidade...  deu uma alegria danada. Fiquei pensando em quantas vezes você olhou pra fora da janela de sua casa e sentiu exatamente esta mesma alegria, este deslumbramento, ao reparar este mesmo espetáculo diante de você.

Sempre que chego nesta parte da caminhada, lhe cumprimento: bom dia, Mario! É como se estivesse entrando na sua casa. Pois foi no meio de uma floresta que ce escolheu viver e construir a sua moradia. Ce replantou no morro mais de 800 mudas, que ce conhecia como a palma da mão. E hoje, assim que lhe cumprimentei, uma folha veio caindo caindo na minha mão. Senti logo que veio de você, como um presente. Agora está aqui na minha mesa, onde vai ficar entre as canetas, numa grande caneca com a receita de sopa de cogumelos impressa. 

As coisas são assim. Foi este mesmo morro que te soterrou. Se os morros fossem gente, diria que este foi capaz da mais cruel traição... não mereceu ter sido replantado e tão bem cuidado... não mereceu o teu amor, o teu cuidado... não mereceu a tua confiança. Mas como morro é morro, as coisas são assim.

Saturday, August 13, 2011

londres


Esta semana continuam saindo notícias sobre o desvio de verbas na Região Serrana... e a prefeitura de Friburgo está em maus lençóis... sem comentários...

Enquanto isto em Londres, lembra? a velha e pacata e ordeira Londres, cenas de vandalismo de horrores, prédios queimando, escombros, carros carbonizados, gente morta, uma guerra social se desenrolando, gangues. Saíram arrebentando tudo, saqueando todos, numa luta nunca antes vista ali. Pavor no ar, hora de recolher, nada de andar na rua, dezesseis mil policiais tentando controlar a situação. Tudo começou com a morte pela polícia de um jovem negro do subúrbio. Agora está se espalhando pra outras cidades, chegou a Liverpool, e agora acontecendo lutas étnicas, negro contra muçulmano, muçulmando contra asiático... Mas há controvérsias: tem uns que dizem que não é (só) luta por injustiça, e sim vandalismo inflado por redes sociais. Saqueando eletrônicos, roupas de marca, sonhos de consumo que jamais teriam oportunidade de possuir. Vítimas ou vândalos??? qual é a sua opinião?

Me sinto um mensageiro entre a minha Terra e o seu Céu. Hoje é sábado. Como são os dias aí? tem alguma diferença entre sábado e segunda? o que ce tem feito? 

Gostaria de pensar assim, mas só posso querer que seja. 

Londres me lembra de quando fomos a Londres. Estávamos morando em Paris fazendo o Cana Caiana, e o grupo foi contratado pra fazer 2 shows lá. Bebi tanto  com medo do avião, nem me lembro como desci e cheguei no hotel. Ainda bem que o primeiro show só era no dia seguinte, então pude me refazer. E foi no Hotel Sheraton, ficamos 6 horas em cena fazendo Brazilian Carnival, com ajuda de mais músicos e cantores, todos residentes londrinos. No dia seguinte, não foi diferente, só mudou o hotel, o Intercontinental. Muito luxo, sabonetes, roupões chiquésimos em ambos...  mas o que quero dizer é que me lembro quando ce me chamou pra ir contigo à feira de Portobello. Foi de manhã, depois de um destes shows-maratona. Nem sei como conseguimos acordar, mas conseguimos, e lá fomos nós. 

Adoro demais -e você sabia disto, depois de ir comigo no Rastro, em Madrid, e no Marché aux Puces, em Paris- feiras locais ao ar livre de coisas, sempre coisas diferentes, coisas bonitas, coisas próprias da cidade, do país, que só podem ser encontradas ali... sempre que viajo gosto de ir nas feiras populares, os chamados mercado de pulgas. Posso passar horas por ali andando, olhando tudo e me encantando com pequenas bobagens. 

Esta é mais uma pequena lembrança tua, de tantas que tenho que carrego no coração, coração que é um tear tecendo tuas lembranças que são os fios para fazer uma tapeçaria que são a nossa história.


Monday, August 1, 2011

força avassaladora

Nelson melhorou esta semana. Continua com dor, mas não é aquela que desespera. Toma o remédio e não faz efeito. Não. Então to mais leve. Hoje consegui dar uma caminhada ao Silvestre, o dia está claro e bom, meio nublado, solzinho tépido, vai e vem entre nuvens, to de manga comprida.

Sinto que a hora de subir pra Friburgo está chegando. Acho que to mais forte.

Avassaladora é a força da vida presente: chega carregando tudo que encontra pela frente. A força da vida que acontece a cada dia, da vida que me mexe, da vida que me faz suar, da vida que traz novos acontecimentos, da vida que me faz rir, da vida que me encanta, da vida que me faz repensar, da vida que exige meu trabalho, minha dedicação, da vida que me dá medos, da vida que me usurpa de qualquer devaneio, não me deixa ficar paralizada ante uma dor que aconteceu há tempos (mas que permanece com a ferida aberta doendo tanto), da vida que me sequestra do meu canto autista pra me jogar no mundo, da vida que me agarra e me leva embora, me sacode e me diz: EU SOU O PRESENTE, e me mente (e acredito): SOU A ÚNICA COISA QUE EXISTE.

Como acho que estou podendo ir a Friburgo e antes eu não tinha condições? a dor que senti e continuo a sentir com sua morte é, ainda hoje, tão grande... a sua falta é tão silenciosa e pesada. Não entendo e não aceito e não me conformo com o que aconteceu. Tudo continua igual.... mas seis meses se passaram, e o presente faz com que a sua morte seja mais um capítulo na minha história, um capítulo de terror. O mais trágico. A cada dia sua morte me molda, me muda, me transforma, soa na minha voz, transparece no meu olhar, cria uma nova pessoa. Mais forte, porque precisa sobreviver. Mais dura? mais fria? ainda não sei, ainda não sei dizer, porque ainda não conheço o ser que está nascendo. Mas precisa sobreviver.

Ou... será que não convém sobreviver???? resposta a ser pensada, aceitando respostas alheias...

Saturday, July 30, 2011

drogas e cone


Mario Mario... este seu silêncio está cada vez mais me pesando, e fazendo cada poro meu acreditar que você se foi... é muito silêncio, nunca ficamos assim.

Sei... sei de tudo... mas é difícil saber, é difícil crer, é difícil viver o sabido. Agora a Amy Winehouse morreu, alguns dizem que foi droga demais, outros dizem que foi droga de menos (fase de abstinência), e eu fico pensando que se eu acreditasse que há vida após a morte, teria a certeza que ces já se encontraram pelas esquinas do céu e que tá rolando o maior som.... e fico pensando também que poderíamos ter tido este fim também, e há quarenta anos antes.... loucura por loucura, a nossa não ficou nem um pouco atrás. Atitudes dela me assustam pela semelhança a mim... daquela época..

A droga, eu acho, é uma coisa inevitável, ainda mais pro artista. Era muito bom beber ou fumar algo e de repente vinha uma letra, uma melodia, uns acordes... eu me sentia mais inspirada, aliás a sensação que dava era exatamente como se alguém estivesse soprando no meu ouvido coisas. Tentei fazer uma ponte entre aquele estado e o sem nada, e jamais consegui. Claro que havia vezes que não “baixava” algo que prestava, mas era raro. Ora, mesmo de careta não é sempre que estamos inspirados. Mas aquela droga era de fato um empurrão para outro patamar, outro estado mental, abrindo portas para o inconsciente bloqueado pela “vida real”. Era tão bom, e sem dúvida tudo ficava mais divertido. 

Hoje não bebo nem fumo absolutamente NADA, há mais de dez anos... e to achando ótimo, maravilhoso. Tive meus anos de loucura total que não foram poucos, e agora não quero mais, tudo mudou e acho até careta ficar nesta. Mas nos anos 70 era revolucionário, transgressor e tinha tudo a ver com o momento histórico que estávamos vivendo. Pra mim, não poderia ser de outra forma, e foi fundamental para eu ser o que sou agora.

Mas vamos a você. No outro dia me lembrei de uma coisa, comendo um cone japones (daqueles que agora tem aos montes por aí, uns banquinhos e mesinhas leves, um pequeno espaço e pronto! fazem um conezeria. Muito bom!). Seis dias antes de sua morte eu e Nelson fomos aí... aliás... em Friburgo, e fomos celebrar seu aniversário naquele japones na tua rua mesmo. Nunca tínhamos ido a este restaurante, mas morríamos de rir do seu outdoor, que era a foto de um japones gordíssimo com uma faca imensa na mão. numa atitude pra lá de ameaçadora. Nunca deu vontade de comer ali. Mas como era pertinho, era meio tarde, a fome gemia, e era seu aniversário, tinha que ser num lugar diferente e especial. Pedimos um cone de entrada, e você nos contou que nunca havia comido aquilo antes... como é que se comia? desajeitadamente ce começou a saborear aquela delícia, curtindo mesmo, mas deixou cair prato afora, splashando tudo e ce morreu de vergonha. Olhou em volta, mas ninguém tinha visto, eu falei que era assim mesmo, também já tinha acontecido a mim... mas me comoveu tanto a sua falta de jeito, e mais ainda que ce era tão tímido pra certas coisas... fora do palco, ce detestava chamar atenção, e muito menos que os outros rissem de você.




seis meses

Foi há seis meses atrás que ce se foi (como é que aconteceu isto???? ter sido vítima do maior desastre ambiental da história do país????? uma casa tão boa, numa área nobre, ainda ainda não dá pra eu me conformar... só acredito por causa do seu silêncio), com as enchentes que destruíram o centro de Friburgo. Por um lado, penso: nossa! já seis meses, como passou rápido. Por outro, a saudade é uma saudade de anos... há tanto tempo não ouço a sua voz, não o vejo, a gente não conversa, a gente não faz show... parece que foi há anos a última vez...

Mas a vida segue, não há como ser de outra forma. No exato dia 12, fui ver o Meia-Noite em Paris, último filme do Woody Allen (que adorei), e dediquei este prazer a você, meu querido. 

Lembra? nós moramos no começo dos anos 80 nesta cidade, e relembrei nossas aventuras, tocando no Via Brasil, e indo a pé pra casa depois do show, só pra curtir Paris. Levava uma hora ou mais, mas era tão lindo, que passava num instante. A gente ia caminhando, e como estávamos sempre meio alcoolizados, nem sentíamos o tempo passar. As ruas, os cartões-postais (que no começo do filme se apresentam em slideshow e que reconheci, lindos lindos) que foram cenário para nossas histórias. Acho que ce iria gostar muito de ver o filme, certamente veríamos juntos, se estivesse vivo. Fui no São Luiz, Largo do Machado, lugar que frequentamos muito nos anos 70... 

Agora na TV, já há tres dias, reportagens sobre a Região Serrana seis meses após a tragédia, do jeito que ainda está, destruída (parece que aconteceu ontem) e abandonada, com desvio de verba de milhões... onde foi parar este dinheiro? 

Eu ainda não voltei. 

Sunday, July 10, 2011

frio


Mario, que frio!!! olha que gosto de frio, mas não me lembro de ter passado por um inverno tão frio aqui no Rio. Será que é já aquele papo de que os extremos vão ficar cada vez mais extremos, verão vai ser inferno e frio, uma sibéria? pois tá parecendo. A água na torneira tá gelando a mão. Todo mundo de touca de lã. Temos usado até luvas em certas horas, e calça embaixo de calça... várias camadas... e comer comer comer... à toda hora... de preferência, bastante carboidrato, massas, arroz feijão, tortas de maçã e banana feitas em casa, sopas de todos os tipos, especialmente de cevadinha, canja, estas mais consistentes, com muito carboidrato. Vou ficar uma bola. É tão fácil engordar, e pra perder é uma tristeza...

Lembro dos frios que já passei. Lagoa das Lontras, lembra quando resolvi morar lá? depois cê apareceu e quis morar lá comigo, papai disse -só casando- e a gente concordou e íamos casar na capelinha local... pois bem, foi justamente nos meses de inverno... de maio a agosto. Rio de Janeiro mesmo, distrito de Miguel Pereira, mas era alto: mil metros de altitude. E lá ventava muito, e aquele vento gelado queimando a cara da gente.... pra dormir, esquentávamos um tijolo no forno pra por no pé pra conseguir dormir... e pra tomar banho? ai! e quando o aquecedor deu problema, tínhamos que tomar banho gelado? eu corria umas cem vezes em volta da casa pra conseguir. Você preferia tomar banho de mangueira no sol, e nu. E sempre, muita cachaça na goela.

Depois Europa. Engraçado: os lugares onde mais senti frio foram justamente Barcelona, Madrid e Paris, onde não havia uma calefação adequada, nem água quente em qualquer torneira (não sei como é agora, isto faz quase trinta anos atrás). O termômetro chegou a medir menos um grau no quarto de dormir. E em Barcelona? nevou!!! há vinte anos não nevava!!! chorei de emoção, alegria e êxtase, mas ninguém em nenhum lugar ali naquele momento estava preparado para isto, e nos lugares em que ficamos, meu deus! em La Floresta, na serra? e na casa da Maite, amiga que nos hospedou por um tempo? o banheiro ficava na varanda, cheia de frestinhas passando por aquelas janelas de construção milenar... o assento da privada era uma tortura, inibia qualquer vontade de mijar ou cagar, só meditando muito... Na Alemanha e Suíça, surpreendentemente ao contrário: onde esperava-se morrer de frio, que nada! em todo lugar, aquele calor danado. Só na rua mesmo é que dava aquele friozinho, era só se agasalhar bem, com as roupas térmicas compradas ali e, tudo bem. Sentir frio na rua é bom, sabendo que quando chegar em casa, vamos ser envolvidos por um calorzinho bom que nos relaxa e nos conforta... 

Fico imaginando como estará aí em Friburgo. Ops... lá. Também já senti muito frio lá. Você era muito resistente, vestia aquela camisa de brim, uma jaqueta, um boné e pronto! um cobertorzinho de noite e ya está!!! eu era mais difícil de esquentar, e ainda por cima essa minha coisa de sentir frio nas extremidades: nariz gelado, orelhas, mãos dormentes e pés, dois blocos de gelo, independente de quantos pares de meia estivesse usando, bota, tenis forrado ou pantufa de lã.... pés e mãos sempre frios, um saco. Ainda hoje é assim, acho que tá até pior!! idade????

Mas me lembro de nós vindo de Sevilha, chegando em Madrid de madrugada quase amanhecendo, a gente hospedado num hostal, e não havia meio de me aquecer. Eu estava recém-chegada do Brasil, tudo era uma excitante novidade, tudo tinha cheiro de mágica. Aí ce teve a inspirada idéia- vamos descer agora- e eu- mas são quatro e meia da manhã. E saímos à rua (você quando cismava, não desistia por nada). Fomos parar em frente a um quiosque que nos serviu um copão de chocolate quente que jamais vou esquecer. Foi o primeiro daquela espécie que tomei, nem sabia que aquilo existia nesse mundo: grosso como um mingau e escuro como açaí. Fumegando. Senti aos poucos o calor descendo para meus pés, invadindo minhas extremidades: comecei a sentir as mãos novamente, o nariz funcionava e as orelhas foram amolecendo. Aquele gosto de comida dos deuses- tesão delícia na minha língua boca dentes e nádegas.... 

Depois sim, fomos dormir.







Saturday, July 9, 2011

Ontem fui com Nelson, o médico da dor sugeriu que ele fizesse uma fisioterapia chamada TENS. Com adesivos, colam uns fiozinhos e ligam uma máquina, e ele vai sentindo uns choquinhos, e vai dando uma amortecida, um formigamento, uma anestesiada na região afetada. Havia sido uma semana tão difícil, eu estava apavorada, desesperançada, chorando atoa, mas sempre sem ele ver, sem ele notar, porque o que ele vê que vem de mim é otimismo, alegria, cantoria, bobagens, muito carinho, e leveza no ar. É o que mostro pra ele. E mesmo por dentro, penso positivo. É a única maneira de encarar este tremendo desafio que me foi arremessado. Não pensar, não procurar coisas sérias- filme, livro, papos- e acima de tudo, acreditar em milagres. 

O que está acontecendo já é um milagre. Hoje por exemplo, depois desta semana de tanta dor, tanto física como psicológica, Nelson fez bases e taichi, enquanto eu saí pra caminhar (dormi no outro quarto e dormi tão bem, que consegui dar a minha caminhada matinal). Há muito tempo que ele não faz exercício, e isto é tão bom, é uma prova pra quem pensa que já não há mais nada a fazer: ele pode reverter a situação, e aos poucos conseguir sua energia de volta, seu corpo... eu acredito, e só assim posso conviver com esta situação. De outro jeito, nada.  E mais: ainda foi para um almoço político com o Jorge, e tocaram!!!! mas uma coisa depende da outra: pra ele estar bem precisa tocar, e pra tocar, precisa estar bem. Estar bem é estar com pouca dor.

Queria ter a fé da Ilda. Ela crê que pra Deus não existe milagre, Ele pode tudo. To fazendo força pra acreditar também, e to quase conseguindo. Ela foi no fim de semana passado pra Conselheiro Paulista numa caravana católica de sua igreja, evento focado nas curas impossíveis, e aí pediu pra eu escrever pedindo cura pro Nelson, que ela poria lá, ela mesmo fez isto, mas se eu escrevesse, ia ser ainda mais forte. Peguei uma folha em branco, perguntei mais ou menos como me endereçar a Deus (nem sei rezar direito, quanto mais escrever pra Deus...) e coloquei: 

“Peço a Deus que acabe com as dores do meu marido Nelson, e que o cure do câncer carcinoma adenoide cístico com metástase no pulmão e pleura. Ele merece, pois é um homem bom, esforçado, e que nunca faria mal a ninguém”.

Soa como coisa de novela, mas foi o melhor que pude fazer. E quem sabe algo já esteja acontecendo? que bom seria se fosse assim. Será que é? bem... caravana ou fisioterapia, tudo que puder ser feito, será.

Wednesday, July 6, 2011

ce tem cantado?

E a música, Diana, ce tem cantado?

Esta é uma pergunta que, volta e meia, me é arremessada por alguém que encontro casualmente e que não me vê há um tempo. Dou meia volta, e digo sim, aqui e ali, ensaiando, to com alguns projetos, cito meu último trabalho, e assim escapo pela tangente. Pois desde que você morreu, Mario, não tenho tido interêsse por música nem cantar. Bem, há tres meses fiz uma participação no show Assis Valente, chamada pelo Moreno. Gostei muito. Se alguém chamar eu vou, se for legal. Mas a verdade é que parece que tomei uma intravenosa de morfina. Nunca tomei, não sei o que seria isto, mas deve dar uma sensação de entorpecimento, assim como me sinto agora... anestesiada, paralizada. 

Em 2009 a doença do Nelson ficou mais ativa, e as dores começaram, a princípio leves, quase que apenas incômodos, pra depois culminar agora, em 2011, nisto que estamos vivendo. Mas naquele ano fui te visitar, e ce comentou que queria recomeçar o nosso trabalho, eu lhe falei, com toda a sinceridade daquele momento, que não! não tava pensando em cantar, tava deprimida por tua causa etc etc... e joguei um balde de água fria nesta idéia. Mas em 2010, quando começou a quimio, ficou tão pior, que eu só tinha um caminho pra não pirar: era cantar. E novamente ce me falou, insistindo. E concordei extasiada com a porta que estava se abrindo pra mim, numa hora tão oportuna, e quem estava abrindo esta porta era você. Logo você, com quem sempre estive trabalhando por quarenta anos, com quem sabia que, independente de ensaios, qualquer show que apresentássemos iria ser o máximo, iria ser excelente, porque a gente se completava no palco, a gente se entendia no palco, formava-se um magia em torno de nós, e acontecia um rito sagrado. Tudo dava certo. Você tinha uma admiração por mim há anos, e isto me dava uma puta segurança em cena pra poder me soltar mais, brincar mais, ser mais espontânea e verdadeira. Nos passamos por muita coisa juntos, éramos cúmplices de muitas situações. Eu gostava demais de me apresentar ao seu lado. 

Encurtando, sinto que foi você que me despertou de novo pra cantar, me resgatou de lá de uma fossa distante e me reergueu. Me chamou. Acreditou em mim. Me deu força.

E começamos a fazer shows. De blues, claro. Datas fechadas, em Friburgo e no Rio.

De repente acontece o cataclisma na Região Serrana, e você morre. Levando tudo isto de que falo aí em cima. 

Agora voltei pra aquela fossa em que tava quando ce me resgatou, mas tá pior, porque agora penso que NÃO É MAIS PRA EU CANTAR. NÃO É MEU DESTINO MAIS, NÃO É MAIS A MINHA HISTÓRIA. Agora que estávamos juntos como nunca, tocando como nunca, acaba assim de um dia pro outro? o que se aprende com um fato como este??? isto não é pra mim....





a primeira vez

Pode ser que tenha sido antes, mas lembro de você pela primeira vez sentado com o João na primeira fila do lado direito do palco, assistindo a um dos shows da Equipe Mercado, o Troforofô,  no Teatro Poeira, finais de 1970. Era um show em que tinha um número instrumental em que eu fazia uma dança criada na hora. E no final de tudo, distribuimos tampas, panelas e outros à platéia, e fizemos uma música coletiva de percussão, vozes, e instrumentos eletrônicos, além de um sintetizador. 

Pena que não tem um único registro, nem de áudio, nem de vídeo, e nem fotográfico... hoje é tão banal gravar tudo, até o telefone faz esta função, de olho fechado. Mas não tem nada não. Só quem estava lá é quem sabe como foi e o que foi aquele show. Este é todo o charme e a magia dos existenciais anos 70... 

Mas lembro de ter reparado a sua pessoa. E como não? um rapaz de quase dois metros de altura, magro, louro, cabeludo e muito bonito. Naquele dia, não lembro mais de você, mas um tempo depois ce apareceu na casa da gente na Rua Julio Otoni. Seu contato era o Sagrá, baterista que tocava com a gente, e através dele, viemos a nos conhecer, nos relacionar e tocar juntos. Mas sempre assim, de longe. Exatamente um ano depois, a Equipe Mercado fez seu último show, Na Mata Encantada, no Tereza Raquel e fiquei me apresentando em dupla com o Stul, e chegamos a gravar um compacto. Foi quando surgiu a idéia de fazer uma banda. Esta seria mais roqueira, e daí você entrou, junto com o João del Águila na batera e Barroco na guitarra. 

Reviravolta profissional, estética, conceitual, pessoal e afetiva. Muita coisa pra uma só crônica. Vamos aos poucos.

Monday, July 4, 2011

a lista

Achei uma lista de coisas que faltavam pra eu levar praí da próxima vez que subisse. Tava na pasta de letras que usei no último show: pochete, colirio, manteiga de cacau. E no verso do mesmo papel, coisas que não precisava trazer, lista mais extensa, por sinal:
meia pra caminhada
meia lã
touca branca
2 blusas pra show
óleo mineral
caderninho de palavras cruzadas
lenços para tirar maquiagem
pijama
moleton 
boá pra show
sandália havaiana
croc
tênis
bota pra show

Da última vez que subi foi com Nelson, era teu aniversário, uma semana antes de você morrer. Ce pegou minha mala na rodoviária e pos no carro, como sempre. E comentou: nossa, tá levinha! e eu- tudo que vou precisar já tá aqui! Eu tava me mudando praí, vida nova, um futuro inesperado pela frente, uma luz de uma cor inimaginável brilhando num túnel que já estava no fim. Em breve, eu compraria uma mesa grandona pra chamar os amigos e fazermos almoços lá fora, uma tv por assinatura pro Nelson, um bom fogão.

 É estranho ler esta lista. Me sinto tão pequena.

a gruta

Passei hoje por aquele kitchinete em que moramos por uns meses, no cotovelo onde a Rua Aprazível se encontra com a Rua do Aqueduto. Aquilo ali foi o lugar mais inóspito em que estive, e claro, não podia dar certo. Como pudemos viver ali? nem o frescor da juventude, nem o espírito de aventura, nem a impetuosidade de nossos destinos... nada poderia nos proteger contra aquele baixo astral. Tínhamos que ter nos separado... 

Era uma gruta dentro da terra. Úmido que nem beira de rio. Escuro que nem fundo de poço. Mofos e fungos. Nosso vizinho de cima, uma mangueira e um jardim. A fachada, uma porta estreita, uma janela e um basculante. Como dormíamos ali? como comíamos ali? como trepávamos ali? e mesmo assim, decoramos o ambiente, pintamos as paredes, pusemos uma cortininha e uma planta na janela... e tocávamos e compúnhamos, e tentávamos sonhar e ser felizes, apesar do mofo, da escuridão, e da certeza de que aquilo ali não poderia continuar por muito tempo.

Tempos sombrios. Começamos a nos distanciar. Muita confusão mental. Drogas legais e i. Rolou pra você uns casos por fora, noites a sós naquela fossa te odiando e me mordendo. Depois eu que não quis mais, e fui pousar em outros endereços. Acabou que acabou. Feio, mas apaixonado por ambos os lados. Isto foi há muito tempo atrás, depois voltamos, e fomos e voltamos. Mas ali foi o pior de todos os fins...

Foi também o fim do Diana & Stul.

A um tempo atrás, tinha um aviso pregado na porta: interditado pela Defesa Civil, proibida a entrada. Só agora, depois de quarenta anos, perceberam isto? Já era hora!!!! e um cadeado lacrando o recinto. Recentemente, fizeram uma obra de responsa, algum estrangeiro deve ter comprado o conjunto todo (Santa Teresa atualmente está sendo vendida pra fora), me arrependi de não ter tirado foto: descendo a Aprazível, dava pra ver o kitchinete por cima, tiraram o jardim, árvore, laje em cima, dava pra ver as paredes, aquele piso de vermelhão... deveria ter tirado uma foto. Agora tá tudo bonitinho, não entrei lá pra ver, mas fizeram uma reforma geral, devem ter até incorporado a gruta ao resto da casa, impermeabilizadinho, habitável, salutar.

E fica a lembrança da noite que o Kouhotec ia passar pelo céu do Rio. Saímos da nossa gruta às tres e meia da manhã, e subimos ladeira acima até o Rato Molhado, onde a Martha (Pires Ferreira) comandava todo um happening sobre o fenômeno. Tinha o quê... umas trinta, quarenta pessoas. O cometa não passou, mas que foi uma farra, ah, isso foi. Valeu, Martha!!! Aliás, tenho que falar da Martha aqui. A primeira astróloga brasileira, que quando ainda ninguém nem sabia o que era isto, nem ouvia falar de astrologia, estava ela a ler os nossos mapas astrais confeccionadas por ela, depois de cálculos e mais cálculos, aqueles emaranhados de traços de caneta bic de várias cores, que só ela entendia, traços que acertavam em cheio. Ela morava ao lado, na casa antiga geminada à nossa gruta, que havia virado em imóvel de apartamentos individuais. O dela era lindo, tinha até um jirau. Éramos muito amigas.

Me lembro também de você me levar pra andar pela Aprazível, porque eu estava passando mal... andando andando andando, até aquela coisa ruim passar. 

E outra: de manhã cedinho (era frequente), a silhueta de sua mãe velhinha, tão querida, deixando biscoitinhos, queijinhos, chocolatinhos no parapeito da janela, a gente deitados na cama só olhando, sem respirar, mudos, imóveis, fingindo de mortos (não precisava fingir...), depois de uma noite viajando de ácido ou de sei lá o quê, apenas uma cortina diáfana de pano a nos separar da vida pulsando que vinha janela adentro. Nós, que nos achávamos protegidos contra o cruel mundo lá fora, na nossa toca inviolável, éramos atingidos no peito por uma bala de canhão: a realidade. O absurdo da situação, aquela sensação ruim de ter virado a noite, agora que íamos tentar dormir, e vem aquilo entrando pela janela, e as pessoas fresquinhas, de banho tomado indo trabalhar, e a manhã ensolarada e brilhante nos ofuscando, nos ensurdecendo com seu ruído de vida, e a única coisa que a gente queria naquele instante era apagar. Conseguir dormir. Coisa difícil, a afetamina ainda no organismo, e uma depressão horrorosa.

Anos 70.




Wednesday, June 29, 2011

dor

Mario, algo muito grave está acontecendo. Nelson não está bem. Depois de uma noite como esta, ter que levantar, cadê energia? nelson urrando de dor, o rosto todo deformado chorando de dor, enrugado, vermelho, molhado, boca aberta, agonia, e o que eu posso fazer numa hora desta, além que dar carinho, dar dimeticona, esquentar a almofada, perguntar se quer algo, se ligo tv, ir vamos pra sala, ouvir ele dizendo meu deus do céu.... o que vou tomar agora (depois de ter tomado tudo que tinha direito), levantar de manhã, ele acordou melhor, pegar o jornal no portão pra ele, perguntar se quer ouvir um som, perguntar se quer massagem, ou o açaí diário matinal... e mamão cortadinho? e mingau de aveia? café, torrada? ovo quente da Lagoa? e o que eu fizer, faço tremendo, com agonia também, e claro, acabo fazendo besteira como deixar o mamão cair no chão, derramar o pó de café na pia, porque fico tão nervosa em ouvir ele gritar e gemer e chorar, e tão dolorida de vê-lo sofrer tanto tanto tanto.... tem vezes como hoje (e são frequentes, aliás HÁ DOIS ANOS ele vem sofrendo de dores, me lembro em 2009, quando Su e Lili estiveram aqui, eu disse pra elas que às vezes eu tinha que dormir naquele outro quarto, pq eu acordava com ele de noite, depois ele dormia de novo, e eu não conseguia mais, virava e na noite seguinte a mesma coisa, virava, e aí pegava gripe e não podia ficar doente porque quem é que ia cuidar dele??? mas HÁ DOIS ANOS isto vem acontecendo. antes ele não tomava metadona, só dorflex, aspirina, paracetamol muito pouco, há um ano ele tá na metadona, a dose passou de 5 mg pra 20 mg, e há meses ele diminuiu o intervalo de 8 em 8 pra 6 em 6, esta noite antecipou pra quatro horas, e ainda toma muito paracetamol junto, e este remedio ataca violentamente o fígado que eu sei, mas não dá pra dizer pra ele não tomar, por enquanto ainda não enjoou a ponto de vomitar, mas até quando? acho que estes remedios não estão fazendo mais efeito, mas como vai ser? injeções de morfina pra ele ficar sedado deitado desacordado direto pra não mais levantar???? e quando eu digo pra ele que vou ligar pro medico da dor Luiz Guilherme, ele não quer, pq acha que não é o caso, não precisa, espera mais um pouco. eu entendo que ele não queira tomar mais remedio ou mudar pra algo mais forte, ele tem razão, mas até quando ele vai aguentar este sofrimento tão grande???? eu mesma, que estou do lado dele o tempo todo assistindo este terror, às vezes acho que não vou aguentar, como esta noite e hoje de manhã. Começo a sentir a pressão aumentar, uma pressão nos olhos e na nuca, uma vontade de sair correndo pra não ver, não escutar, fico muito nervosa, e tudo isto sem demonstrar nada pra ele, pelo contrário, aparentando tranquilidade, dando carinho quando na verdade to precisando fugir do cenário pra não assistir tamanha dor, que me doi corroi também, porque não posso curá-lo nem posso aliviar a dor, só posso tentar fazer alguma coisa, tentar tentar, e muitas vezes sem conseguir, e ter que assistir ele se contorcendo, chorando, parece que vou explodir. Amo ele tanto. To escrevendo isto pra deixar sair um pouco da tensão, mas to muito triste... minha vida tem sido, nestes 2 anos, cuidar dele, me preocupar com ele, suas necessidades, ligar pra medicos, marcar hora, ir com ele, comprar remédios controlados (não entregam em casa, e só tem em farmácias especiais, tem que ir lá), cuidar de sua alimentação, trocar a roupa de cama frequentemente pq tem noites que ele sua, principalmente na cabeça e no tórax, distrai-lo em casa, ao mesmo tempo to tão feliz de ele estar vivo, de estar podendo estar ao seu lado, de poder ter momentos inesquecíveis ainda, de não querer trocar a minha vida pela de ninguém, de me sentir privilegiada de poder estar ao seu lado numa situação que nem esta, tão difícil para todos nós, e ainda encontrar um raio de luz, umas pontas de alegrias, e sentirmos prazer em fazer as palavras cruzadas, ou almoçar, ou comentar das cachorras, ou ver a novela da Amora, ou comentar sobre alguma manchete de jornal. Tão feliz de ele estar vivo. Tão feliz de apenas sentar ao seu lado e segurar sua mão. Tão feliz por ter alguém que amo tanto. Que bom que to com saúde para fazer as coisas, lembrar das coisas, cuidar dele, administrar a sua vida, dar amor e carinho... ainda que às vezes eu caio e me deprimo em vê-lo assim, me decepciono comigo mesma de não estar conseguindo fazer o que eu queria, e às vezes tenho medo de pensar o que será... to com medo, to com pavor, não sei o que esperar, quando esperar o quê, só quero tanto que ele se cure, ele merece tanto porque se esforça tanto tanto, faz tudo certinho, direitinho como mandam os médicos, é tão responsável, tão disciplinado, quer tanto tanto viver, ama tanto a vida, tem tanto ainda pra nos dar, tanta criação, tanta genialidade, tanta luz... Mas a vida não se trata de merecimento, isto aprendi com a sua morte, meu amigo querido.

Sinto sua falta.

Saturday, June 18, 2011

cinco meses

Recebi ontem fotos de uma amiga. Data das fotos: junho de 2008. Lugar: um sarau-almoço na casa do Nilo. Dentre elas, duas me emocionaram às lágrimas: você e eu tocando a quatro mãos. Tínhamos feito o show no Valansi havia um mes, estávamos alegres e pensando nos próximos. E então tocamos, tocamos neste dia, foi muito bom, numa casa maravilhosa, gente interessante, uma tarde inesquecível. Dois anos e meio depois, acontece a tragédia na Região Serrana e ce morre. Quem poderia prever? quem poderia imaginar? você, tão cheio de energia e disposição. Que tocava o dia inteiro, só pensava naquilo. O piano. Teu eterno companheiro de todas as horas. 

Estas fotos me fizeram lembrar de muita coisa (as fotos servem pra isto mesmo, voltar no tempo). Teus sapatos pretos, tua roupa preferida: calça e camisa de manga comprida arregaçada (sempre sempre), tecidos de jeans tipo brim, aquele azul (não índigo, não ultramar, talvez prússia ou cobalto). Teus cabelos cuidadosamente cortados na frente, mas compridos atrás. 

Nossa cumplicidade.

E tuas mãos. Ce era todo grande, quase 2 metros de altura, e as tuas mãos, é claro, tinham que acompanhar a imensidão restante. Pois eram grandes. Pondo a minha colada à tua, teus dedos começavam onde os meus acabavam. Um pouco de exagero, só pra dizer que eram realmente acima da média. Alcançar uma décima era brinquedo, ce fazia como eu faço uma quinta, e disto ce se aproveitou no teu estilo tão pessoal de tocar.

Mas tuas mãos eram mais do que isto: tocavam nas coisas de uma maneira quase mágica de ser. Tuas mãos eram bonitas, de movimentos harmoniosos. Faziam transparecer sua extrema sensibilidade, que o tornava uma pessoa tão especial. Eram fortes, tinham carisma, marcavam presença. Eram mãos que mereciam ter sido eternizadas, esculpidas em mármores, de tão belas. No piano, faziam o que queriam. Me lembro de teus dedos apertando os botões do teclado, ou do gravador... nunca com o indicador e sim com o mediano. Este gesto era característico, e mostrava toda uma delicadeza que cê tinha em relação às coisas em volta. Delicadeza no pegar. Delicadeza no tratar. Delicadeza no sentir e existir. Mas quando era pra pegar no pesado, tuas mãos pegavam na enxada, consertavam telhas quebradas, tiravam espinhos de ouriço da boca de cachorro, carregavam caixas de som (morando sozinho numa casa, com floresta atrás, era você quem cuidava de tudo). Valentes, se metiam em qualquer combuca. Com perfeição, pois ce era um perfeccionista. 

Não raro, acontecia de se machucar e elas ficavam marcadas . Dias antes de morrer, ce me perguntou se eu sabia como disfarçar umas manchas que estavam em tuas mãos, pois ce tava fazendo show direto e não queria aquilo tão aparente... lembro disto comovida... Com cuidado, passei uma base facial, e ficou uma beleza, sumiu tudinho. Te dei o frasco, e ce usou por mais um fim de semana... e depois... ce se foi.


Sentimento estranho olhando as fotos. É tão real! uma cena tão habitual, a gente sentada junto tocando. Coisa que se repetiu tantas, tantas vezes nestes quarenta e dois anos. Tão familiar. Como a claridade do dia, e depois vem a noite. Coisas que fazem parte de minha vida, coisas com as quais me entendo, coisas pelas quais compreendo o mundo, e agora não compreendo é nada. Sentido? nenhum. Muito difícil viver sem sentido, sem lógica, sem entender. Tão estranho olhar estas fotos que me apareceram assim, por milagre, sem mais nem menos, quando eu pensava que nunca mais iria ver material novo de você, que o que tenho seu agora é o passado dentro de mim, eis que de repente me vem um presente (passado-presente-passado-presente), e eis que ce me aparece, exatamente como se fosse você que tivesse me mandado, e te sinto vivo, sabendo-te morto. Eis que, neste dia gelado de um inverno que começou em fins de maio, tua lembrança me penetra e me aquece.




Hoje, dia 12 de junho, faz cinco meses.

Sunday, May 29, 2011

a jaqueta

Usei esta jaqueta pela última vez contigo. Por que me lembrei? porque ce gostava dela, e nesta vez, afagou o meu braço enjaquetada, dizendo que o tecido era tão gostoso, macio... e é mesmo. Foi comprada na seção masculina de uma loja, estava com Nelson e compramos 2 iguais. E foi ótimo, porque pra tempo úmido ou (e) frio, não tem igual. É meio maior do que eu, tem aquela cor ocre, ou cáqui, ou de burro quando foge... me sinto tão aconchegada dentro dela.

Está assim aqui: o tempo está bem frio. Como será que tá Friburgo? estará com as flores na praça? aquelas que ce me mostrou, orgulhoso porque agora estavam cuidando, e estava tudo muito lindo. Como será que tá Friburgo, além de gelada? to estranhando ficar tanto tempo sem ir praí. Não, praí não (tá vendo como ainda a ficha não caiu totalmente?). No outro dia, ainda encontrei, na última página da minha agenda, uma página onde anotei os números dos assentos no ônibus melhores pra subir e os melhores pra descer. 13, 17, 21. Pra que serve isto agora?

Desde que comecei a te namorar nos anos 70, mantive uma ligação com Friburgo. Aliás, até antes, em férias com meus pais. Mas contigo foi definitivo. Ficávamos na casa de sua mãe, aquela casa enorme, linda, e gostosa, com objetos bem pessoais e diferentes de tudo que eu conheci. Um filtro enorme de louça escrito em alemão, o fogão de lenha, aquele penduricalho pra pendurar as chaves, o abajur, aquele banheiro do teu quarto, o relógio-armário de pêndulo que tocava a cada 15 minutos, um cheiro característico de flores de rosa vindo do jardim. Uma lareira. Aquele revestimento de madeira escura que circundava toda a sala, de um metro e vinte mais ou menos. Por anos íamos direto pra lá. Também ia bastante com a galera, quando Milton tinha o sítio em Macacu. Depois,  quando voltei de Europa (e você ficou), comecei a dar aulas no Conservatório de Música de Friburgo, toda semana subia às quartas e voltava sexta de tarde, e ficava na tua mãe. Quando ce voltou de vez, e morava mais lá do que no Rio, eu subia direto. Foi quando fizemos a maioria de nossas composições.

Nestes quarenta e dois anos, houve tempos que ficamos longe, mas sempre antenados um com o outro. Teve fases até de raiva e afastamento, mas nunca ausência. Assim é a nossa história. A gente tava longe, mas sempre ligado. “O que será que Mario acharia disso? e daquilo?” com você também era assim, recentemente falamos sobre isto. Mas nunca tivemos tão juntos como agora. Sem estar mais vivendo aquela vida de doideira, viagens, drogas, embriagados de tudo que enlouquecia. Agora sessentões, já tínhamos experimentado Deus e o mundo... falávamos a mesma língua, gostávamos das mesmas coisas, não tinha mais disputa nem ciúmes nem rivalidade nem projeções fantasiosas nem teatro nem competição nem porcaria nenhuma. A gente se divertia juntos, e ria juntos. Uma amizade que me abrigava, me ajudava, me entendia, me aceitava, me admirava, me queria, me chamava, me protegia, me apoiava, “me” sentia falta... há um ano e meio, estávamos vivendo como sempre tentamos, mas nunca conseguimos nestes quarenta e dois anos. De repente, de uma hora pra outra, isto acaba, um cataclisma vem e te leva. E depois, ainda esperam que eu aceite??????

Como será que tá Friburgo? será que está limpo do barro que a soterrou? será que as coisas voltaram ao normal? será que o Hotel São Paulo está aberto? será que vou conseguir ir pra lá e só chorar, ou vai ter mais coisa?

Saturday, May 28, 2011

hora da ficha cair

Agora sei, ou pelo menos acho que, o que estou passando nesta volta da viagem. 
Uma sequência de etapas: 
- stress (a doença desde 2008 do Nelson e sua quimioterapia no ano passado), 
- estado de choque (a sua morte súbita)
- mais stress (piora do Nelson e mais uma operação, quando não era pra ter nada, pois com tanta quimioterapia, por que isto agora?)
- dormência: parece que minha cota de sofrimento chegou ao limite máximo, e depois disto, só há dormência. Dormência de sentir, dormência de sofrer, dormência de pensar... a cabeça consegue fazer coisas banais, como ver desenho animado na TV, lavar toda a louça... Ler um livro exige uma concentração impossível: estava com 4 livros lidos pela metade. Dormência, falta de ânimo nem pra sair. Só comer. 
- parênteses para respirar: viagem
- e agora: voltar e encarar de frente a realidade que me assusta: a sua morte e a doença do Nelson. Cara a cara. Não dá pra fugir, só tem um jeito: encarar.

É hora de a ficha cair.

Mas apesar de saber que ce morreu, to estranhando que a gente não tem se falado... ce não me manda email.

A ficha está caindo. Realizing what happened.

É física, ou espiritual, ou psicológica esta falta. To te aguardando, olha que loucura. É como se tivesse havido um erro, não era teu aquele corpo que acharam: você vai me aparecer por agora, e tudo voltará a ser o que era. Houve um enorme erro. Sinto que to precisando ir pra Friburgo, não te ver me esperando na estação, não comer contigo nos Amigos do Julio, não estar contigo. Acho que to precisando ir e visitar a sua sepultura, e ler bem devagar e alto: Mario Jansen.

É desconcertante. Tenho pensado em você a toda hora, lembrando coisas. Andando por Santa Teresa, é você o tempo todo. Lá embaixo também. Queria mudar de bairro. Queria mudar de cidade. Ou país. Ao mesmo tempo que lembrar de você me dói, é gostoso, porque é a maneira que tenho de ter ter.

Mas não quero ficar assim pra sempre. Como fazem as pessoas pra recomeçar? e se conformar? e continuar vivendo?? como?

O pior de tudo é este absurdo, gélida lucidez dos fatos.

viagem

Mario, tanta coisa aconteceu desde a última vez que te escrevi. Fui pra Florida visitar a Suzy. Cheguei exatamente no dia do aniversário dela. Ela foi me buscar no aeroporto, junto com a Maína, que também estava lá de visita por uma semana. Uma verdadeira reunião familiar, só faltou mesmo a Lili, que quase que apareceu na última semana. E claro, meu sobrinho Mike. 

Mas Mario, foi tão bom! 

Resolvi em cima da hora. Comprei a passagem 6 dias antes da viagem. Pois ce sabe, Nelson operou no meio de março e as semanas seguintes foram difíceis, eu não sabia se iria conseguir viajar... como ele estaria... efeitos colaterais... reações adversas...  eu mesma estava muito tensa... se eu estava pronta pra fazer uma viagem... fiquei com medo de passar mal no avião, ou na conexão, ou mesmo lá... ce sabe como tenho medo, pavor de avião, né? mas eu precisava tanto dar uma arejada. Tua morte e o consequente fim dos meus planos futuros, a piora do Nelson, tudo me deixou muito mal, e estava a ponto de “passar pro outro lado”, sabe? a linha entre lá e cá é muito tênue, não tem aviso prévio, e quando ce vê, ce já foi e nem reparou.  Depois, voltar é que é o problema.

Senti que pior do que estava não podia ficar... e se eu tivesse coragem, iria ser tão bom.

E foi.

Percebi mudanças em mim. Primeiro, que fui, estive e voltei sem um arranhão. Sem somatizar nenhuma enfermidade. Caraca, haja força!!!

Segundo, que o medo do avião ficou menor depois de sua morte. Você morreu (ainda me soa absurdo e irreal esta afirmação) no lugar que te abrigava, te acolhia, te aconchegava, te nutria. Justamente no lugar em que ce mais sentia seguro, seu castelo, sua fortaleza. Ali você era inteiro. Você confiava. Você fez a casa que te caiu em cima. Você reflorestou o morro que te esmagou. Tem sentido? nenhum. Não foi num avião, não foi voltando de madrugada, dirigindo na estrada pra Friburgo, depois de um show no Rio (coisa que ce ventilou que pudesse acontecer, tanto é que me deu a cópia de suas chaves), ou mesmo de uma ataque cardíaco, um piripaque fatal qualquer, e como morava só, só iriam descobrir tarde demais. E então? senti que a morte não tem sentido, não há como controlar e, pelo que sei e entendo, não há previsão nem merecimento. É uma loteria, um sorteio de azar. 

Terceiro, que estou valorizando cada vez mais o presente. Eu já falava, já sentia, mas agora isto ficou como sendo a única maneira de viver. Viver como se fosse morrer amanhã. Mas não é perder a cabeça, beber até cair, fazer loucuras, que nem diz aquele samba do Assis Valente “E O Mundo Não Se Acabou”. Pelo contrário: é aproveitar o tempo que me resta, que pode ser uma hora, um mes, um ano ou mais, se tiver sorte.

Porque cada vez mais, a vida depende de uma pitada de sorte.






Wednesday, May 25, 2011

quatro meses


Zero hora do dia 12 de maio. Eu estava perdida, sozinha, no meio dos saguões intermináveis do aeroporto de Miami, dando voltas de lá pra cá, em busca de informações sobre o transporte que iria me levar até um hotel. 

Contando assim parece um pesadelo, mas era bem real. Meu vôo de volta pro Rio havia sido cancelado em cima da hora, e depois de muita confusão e ânimos alterados, me deram uma papeleta com direito a uma noite num hotel, que o meu vôo sairia só na manhã seguinte, às 8:00. Ou seja, não havia tempo a perder. Primeiramente pensei em ficar lá mesmo, nem sair do aeroporto, mas as coisas ali estavam começando a fechar, o cenário não era nada animador, estava ficando meio deserto e esquisito, luzes apagando, ruídos silenciando.

Lá fora estava mais sinistro ainda: deserto, sombra expressionistas em preto e branco, de vez em quando um veículo passava a cento e vinte por hora. Me senti frágil, desamparada e tive medo.  Cadê todos do meu vôo cancelado? não havia ninguém ali. Finalmente consegui contactar o hotel, que me mandou transporte. Só eu na van, mais ninguém.

Uma e meia da manhã. O hotel era muito bom, pena que cheguei tarde demais pro jantar, e a cozinha só me ofereceu melancia, melão e iogurt com sabor, que devorei no quarto. Pedi para me acordarem às cinco, e tentei cochilar, com medo de perder a hora. Nem pude aproveitar a cama gostosa e o conforto em volta de mim. Deitei ligada em me levantar, com a roupa do corpo.

Tudo isto pra dizer que naquele dia completava quatro meses que ce morreu.

Só eu sei como foi e continua sendo pra mim esta perda, esta ausência, este teu vazio em mim. Só eu sei. Só eu sei. Só eu sei.







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sonho em Largo

Mario, acordei e consegui me lembrar deste sonho que sonhei contigo. Mas foi mais que um sonho, foi maior. Teve um primeiro sonho: estavam escavando onde era a sua casa, percorri aquilo tudo, depois te vi e corremos um de encontro ao outro. Nos abraçamos forte. Não me lembro de mais ninguém, porque inclusive o cenário sumiu e ficou só a gente se olhando nos olhos e abraçados, muito fortemente. Acordei perturbada e com os olhos embaçados. Eram 6 da manhã, muito cedo pra acordar, pra quê? quando todos estavam dormindo na casa, então consegui voltar a dormir, e aí deu-se o segundo sonho: e foi tão bom, e você voltou, só que muito mais intenso. Estávamos abraçados, conversamos, chorei tanto, perguntei se ce tava morto ou vivo, ce respondeu morto. Mas ce estava tão tranquilo. Perguntei como foi que aconteceu aquilo? ce respondeu que entre uma coisa e outra foi tranquilo. Ce usava uns anéis lindos, coisa que ce nunca usou. Anéis grossos, com turqueza e coral, de prata. Me sentia tão bem nos seus braços. Perguntei se os outros estavam te vendo, suzy, lili, milton talvez, mamãe? não me lembro se tinha mais gente. Ce abria umas portas de uns aposentos muito claros, mas só olhávamos pra dentro, não entrávamos. Andávamos por umas ruas de um vilarejo, meio lagoa, meio friburgo quando deixa de ser cidade pra virar roça, você abria as portas pra mim. Ce tava lindo, com cabelo comprido, rosto rejuvenecido e sereno, claro que foi projeção da imagem que tenho de você quando éramos casados... Estávamos tão juntos um do outro, abraçados, acho que ce me carregava, porque estávamos quase da mesma altura. Quando eu te falei que te amava muito, e que não tava conseguindo viver assim sem você, foi só então que ce mostrou uma tristeza no rosto, no olhar e de repente acordei chorando muito. Eu tinha dormido esta noite com aquela venda que se põe, que ficou todo molhado. Não queria acordar, queria continuar contigo, estava realmente tão bom, não queria que acabasse aquele momento, queria te fazer milhares de perguntas que me perseguem, como é morrer? o que ce sentiu? quando foi que ce viu que iria morrer? ce viu? ou até o último momento tinha a certeza que iria escapar da tragédia? Casquinha foi contigo? como é agora, estar morto?

Tentei voltar mas não consegui. Foi muito forte, se eu acreditasse eu diria que esta noite ce me visitou, inclusive esta foi a minha impressão nos primeiros instantes em que acordei: era muito claro, eu estava contigo, você estava ali. Queria tanto que continuasse. 

Devo acreditar em paranormalidade? 

Wednesday, April 6, 2011

sem álcool, cinesanta e bicho preto

Tua cerveja sem álcool ficou na geladeira até a semana passada. Não foi nem pra deixar que deixei... via e ia deixando... Abria a geladeira e notava aquela lata num canto, depois nem notava, como se ela fosse uma peça adicional... e lá ficou. Mas agora abri e joguei pelo ralo da pia abaixo. Mas sei lá... teve uns dias no começo que eu não tirei de propósito, em sua homenagem, em sua lembrança: como ce gostava de comer com ela acompanhando, desde que parou de beber!!! Eu já não: achava aquilo uma enganação (pra quê tomar cerveja, se não dá barato?). Fui deixando, pra não mexer muito no tudo que havia mudado totalmente. Se você não estava, estava a sua cerveja... meus olhos se acostumaram com aquele objeto, como se estivesse te representando ali em pé solene...

Pois é assim que as coisas caminham, Mario. Pessoas me encontram e falam comigo, é este horror que sempre está me voltando, e não há outro jeito senão enfrentar. Assim como no outro domingo fui com a Glória no Cinesanta, e me lembrei. Me lembrei que queria tanto te levar lá pra ver um filme, te mostrar, toda orgulhosa, o nosso cineminha de bairro: poltronas, ar, telão, escurinho... bem ali no Largo do Guimarães, lugar que você conhece mais que a você mesmo.... tantas vezes tantas tantas que passamos por aí, juntos, separados, caretas, doidões, com a galera, só nós dois... tanto que vivemos... histórias neste Largo. Um cinema no bairro era um sonho na época- to falando dos anos 70, quando Santa Teresa era inteiramente desconhecida e abandonada, mas era adorável de se morar... mais segura, todo mundo se conhecia, menos gente etc etc... coisa de 40 anos atrás, isto em qualquer bairro, qualquer cidade, estado ou país. Mas este sonhado cinema nunca aconteceu e tínhamos que descer pra “cidade”, se quiséssemos ver algo. Agora que tem esta jóia, queria muito te levar. Ter te levado. Não deu tempo. Que merda.... não deu tempo. Queria ter ido contigo ver os Dzi Croquettes, ia ser demais: convivemos intensamente com estas pessoas, ia ser incrível vermos juntos. Mas não aconteceu, isto foi no ano passado, eu cuidando do Nelson, você ensaiando e tocando com Ithamara, ficou difícil marcar. Quando ce vinha, era pro ensaio, pro show, e depois ce queria subir logo pra Friburgo por causa das cachorras. Ce ficava preocupadíssimo com elas lá na casa sozinhas... água, comida, saúde... você era uma verdadeira mãe! 

Pois bem. As cachorras. As duas pretinhas. Me lembro que ce adorava bicho preto. Casquinha foi embora contigo na tragédia, vai ver que ela estava deitada do seu lado, ou então... outras razões... e a Farofa se salvou. Sobrevivente. Farofinha conseguiu se salvar, mas COMO???? 

Por que cachorro não fala? ela poderia me contar tudo que aconteceu. Quando é que a gente iria imaginar que ela moraria na Lagoa das Lontras? que Bel iria resgatá-la nos escombros (quem imaginaria que haveria escombros?). Farofa estava em cima de tudo latindo, Bel a pegou e trouxe-a pro Rio. Farofa aqui em Santa Teresa. Depois na Lagoa das Lontras? quando? quando é que iríamos imaginar tudo tudo que aconteceu?

Já cansei de tanto pensar imaginar descobrir o que de fato houve, quais foram suas últimas palavras, Mario, qual foi o seu último pensamento... não porque me confortaria, não porque melhoraria alguma coisa- NADA serve pra amenizar a tua morte- é que, por mais que a razão tem consciência do fato, a emoção não acredita e quer ouvir. Acho que o negócio tem que se esgotar daqui de dentro pra fora e pra dentro e depois pra fora pra sair... ah, sei lá....



Thursday, March 31, 2011

beethoven contra o câncer

Mario, ce não vai acreditar. Bem, acho que ce deve ter lido. Um artigo surpreendente, de arrepiar, saiu ontem no O Globo, Ciência: “Beethoven Contra o Câncer: células tumorais expostas à Quinta Sinfonia perderam tamanho ou morreram. A pesquisa foi feita pelo Programa de Oncobiologia da UFRJ, que expôs uma cultura de determinadas células à meia hora da obra. Uma em cada cinco delas morreu, e as sobreviventes apresentaram perda de tamanho e granulosidade!!!! ce leu? que fantástico, né? já imaginou se o Nelson algum dia puder se beneficiar deste “remédio”?

A Quinta Sinfonia é aquela que começa com aquelas quatro batidas, e que popularmente chama-se “do destino”. Caramba, ficamos todos cheios de esperança aqui!!! mostrei pra ele, mas ele não se interessou muito, eu é que fiquei assombrada com esta matéria. Não é incrível? não é maravilhoso? que glória seria se isto realmente desse certo. Porque, quando a medicina tem pouco ou nada mais pra oferecer, como é o caso dele, uma notícia destas realmente é animadora demais. Já imaginou chegar um dia em que entra-se no consultório, e o médico receita meia hora por dia ouvindo determinada música, ao invés de quimio, radioterapia? é um sonho!

Já tinha ouvido falar sobre o poder que a música tem nas plantas, mas sempre achei meio preconceituoso, porque dizia assim: música clássica tornava as plantas lindíssimas, viçosas, enquanto que rock ou funk matavam as mesmas. Rock e funk escurecia a água no copo, a música clássica formava lindos cristais brancos. Que coisa. Não dava pra acreditar numa coisa destas. Mas esta reportagem me parece séria, relevante, e perfeitamente crível: diz que esta Sinfonia em particular tinha esta habilidade, mas já uma peça que puseram de Mozart (Sonata para 2 pianos em ré maior), que é muito usada em terapias alternativas, não fez o menor efeito. Bem, por aí dá pra concluir que não é mérito do gênero de música, pra começar. Outra que também surtiu efeitos semelhantes nas células tumorais foi a composição “Atmosphères”, do húngaro György Ligeti, que me deu a maior vontade de conhecer. Como será?

Ainda há muito a pesquisar: se o efeito foi pelo conjunto da obra, ou partes dela, ou mesmo um ritmo, um timbre, uma sequência harmonica. Pesquisar também outros gêneros musicais -vão agora usar samba e funk- e também se o mesmo resultado é conseguido quando se escuta com fones de ouvido, porque estes resultados não têm a ver com o emocional, as células tumorais foram expostas ao som, foi uma consequência direta, física.

É preciso descobrir a cura do câncer, ou como controlá-la, pelo menos, como tem sido feito com a Aids. Câncer: doença séria e traiçoeira, que, salvo raras exceções, acaba com a pessoa que a tem e abala profundamente quem está ao lado, cuidando e convivendo com este horror, pra não dizer que acaba também, que é como eu me sinto... cara, às vezes penso que vou pirar e sair correndo e não voltar nunca mais...

Me lembrei agora de como ce pronunciava Beethoven... era tão bonito... Be-e-thoven...

Saturday, March 26, 2011

sonho, coisas e bubu

Um sonho: eu tava em Friburgo, na casa desta senhora que não conheço. Era hora de eu voltar pro Rio, mas não queria porque era Carnaval, e não queria enfrentar a Rodoviária- que detesto- no Carnaval, bem dentro da confusão toda. Então resolvi dormir mais uma noite lá. Sentei em frente a uma mesa, e de repente, com o rabo do olho, olho pros fundos da casa, e vejo um tobogã de barro. A casa onde eu estava era a sua, e onde era o morro virou esta encosta que desceu e estava vermelha de barro. Acordei no susto, e fiquei mexida na cama e senti que eu precisava ir lá pra ver como ficou, senão vou ficar a vida inteira sem acreditar...

Pois é, meu amigo, as coisas continuam. Nelson acabou de acordar neste instante, ouço-o gemer no banheiro. Ai! ai. ai. ai. De manhã é a pior hora. Esta noite não dormi o suficiente. Ele acordou com muita dor às 5, tomou remédio e dormiu de novo, eu não consegui, então to acordada desde 5. Agora são 8. 

Coisas que me lembram você, a cada vez que os pego: o corrimão da escada, que fiz sob sua orientação. O seu corrimão de Friburgo era tão perfeito, ininterrupto, macio de deslizar a mão, e tão simples e de bom gosto. Um corrimão de metal, só isso, mas muito bem feito. O meu não é nada assim, ainda falta pintar, mas são tres pedaços. A panela de barro que uso pra fazer arroz integral todos os dias, junto com a coleção toda que ce trazia nas vindas pro Rio, compradas em Itaboraí. O durepox na pia inox da cozinha, que se soltou toda e era uma verdadeira arma, cada vez que a mão distraidamente passava pela beirada: você que deu a idéia e até ia colocar, mas eu coloquei antes e funcionou até agora, nunca mais houve mortos e feridos hehe... Lavar louça: sempre a vida inteira lavei louça, mas agora quando lavo, me lembro de você, que aqui em casa nunca deixava nenhuma suja na pia. Ce dizia que a pior coisa era acordar de manhã e encontrar a pia com louça suja. E ce lavava naquele ímpeto tresloucado, molhando tudo em volta, empenhadamente, com força, meio impacientemente mas de uma maneira altamente eficaz. 

Não sei se já te contei, mas o Bubu se acidentou. Milton foi um dia lá no quintal levar a comida, e ele estava no chão. Desde que aprendeu a voar, ele chegava lá do alto, às vezes bem lá do alto do céu, onde fica a turma dele de urubus sobrevoando, mas ouvia o Milton bater o pratinho e lá vinha ele até planando até chegar ao chão. Pois há umas 2 semanas atrás ele não é visto voar, e numa atitude diferente, como se estivesse se guardando, meio apreensivo. E num dia aí Milton o viu vomitando. Desde quando urubu vomita???? esta é a primeira vez que ouvi falar isto. Só se for isto: ele foi criado a carne moída fresca, banana e flocos de quinoa, aí se juntou à turma quando aprendeu a voar, e a turma vai lá pra Gramacho, ou prum cavalo morto em Caxias, sei lá... aí alguma coisa não fez bem ao seu requintado aparelho digestivo, tadinho... O que me faz pensar: ele nunca vai ser um igual aos seus. E tudo começou naquele dia que ele caiu do ninho, e Milton o encontrou de noitinha e nem sabia o que era aquilo, porque não dava pra ver direito, aquele bicho todo fofinho branquinho (nem tinha pena ainda, e nem era preto). Destino.






Thursday, March 24, 2011

consegui ouvir 2 faixas

Mario querido, olha só! acho que ce vai gostar: consegui ouvir as 2 primeiras faixas do nosso CD que gravamos em dezembro, Keep on Eatin’ e God Bless the Child. Depois daqueles teus vocais e solo, não deu pra continuar, senti muita tristeza, meu corpo cabeça mente pensamento coração tremeram muito e falei pra mim mesma, chega! Mas é um bom sinal ter conseguido ouvir duas. Tenho que te divulgar, mostrar este trabalho, fazer um show em sua homenagem, e tenho que conseguir te ouvir, mesmo sabendo que nunca mais tocaremos juntos, nem comporemos juntos, nem conviveremos juntos. Mas ce deixou pra mim várias sementes que seria bom se eu plantasse para que nascessem flores, plantas e árvores que vão alimentar outros seres da terra. Não sei quando isto será possível, pois agora, quase 3 meses depois, ainda choro ao te escutar. Mas é assim mesmo.

Sabe porque é bom sinal? porque parece que to me fortalecendo. Ninguém consegue viver com uma tristeza tão grande, tem que aprender a transformar isto noutra coisa. Alquimia. Os Alquimistas Estão Chegando “Eles são discretos e silenciosos, moram bem longe dos homens...” Jorge Ben. Transmutação. Transfiguração. Transferir. Porque o absurdo que é tudo isto, sua morte, e a morte do futuro que eu estava criando pra mim, morar na velhice em Friburgo no andar de cima, e outros amigos em volta construíndo no terreno que te soterrou... e consolidar de uma vez por todas a nossa parceria, parceria esta tão sofrida por vais e vens. A hora era esta. Mais maduros, na faixa dos 60, sem drogas legais e ilegais, com uma vontade enorme de dar certo, e uma admiração amorosa legítima, fruto de quarenta e poucos anos de relacionamento. Então ter interrompido assim tão bruscamente toda uma vida, não dá pra engolir conformadamente, dizendo que é um líquido muito amargo. Não dá. Não aceito. Não me conformo. E por isso, que conseguir ouvir 2 faixas do CD é um bom sinal, porque mesmo sentindo isto tudo, luta-se pra não ir junto.